terça-feira, 28 de maio de 2019

Hermenêutica Pós-Moderna: Uma Breve Introdução aos Novos Rumos e Riscos na Interpretação Bíblica Contemporânea


A proposta do presente texto é contribuir, ainda que de forma breve e introdutória, para um melhor entendimento sobre o que é a hermenêutica pós-moderna, e na medida do possível numa linguagem acessível ao público em geral, para que isso venha a promover um estado de alerta, principalmente entre os pastores e líderes, diante de propostas aparentemente inovadoras e sedutoras, mas que na realidade são subjetivistas, desconstrutivistas e relativistas[1], que atacam e colocam em risco a ortodoxia (doutrina correta) e a ortopraxia (prática correta) cristã.  A leitura dos livros citados nas notas ajudará numa melhor compreensão, e no aprofundamento dos temas que serão aqui tratados.

1. A Hermenêutica Pós-Moderna

A hermenêutica pós-moderna é caracterizada pelo subjetivismo no processo de interpretação do texto bíblico. O subjetivismo é caracterizado pela insatisfação generalizada com o sentido natural, literal das Escrituras, e pela busca de sentidos mais significativos, supostamente ocultos no texto. O maior perigo das correntes subjetivas é a falta de compromisso com critérios objetivos que orientem e dêem consistência ao processo interpretativo.[2] Seria o significado de um texto uma questão de impressão do intérprete? A autoridade da Bíblia está em perigo de se tornar impressão subjetiva? Para Vanhozer, talvez sim.[3]

Dentre os diversos proponentes e pensadores da hermenêutica pós-moderna, três nomes destacaremos aqui:

1.1 Hans George Gadamer (1900-2002)

Discípulo tanto de Heidegger quanto de Bultmann, foi professor de filologia em Heidelberg de 1949 a 1968. Sua obra clássica Verdade e Método (Vozes), é junto com a obra de Heidegger Ser e Tempo um dos fundamentos principais para os estudos hermenêuticos modernos.[4] 

Para Gadamer, a compreensão se dá pela fusão de horizontes do autor com o do leitor, independentemente do conhecimento das circunstâncias históricas em que o texto foi produzido. O real sentido de um texto, quando ele fala ao intérprete não depende das contingências do autor e de para quem ele escreveu. Ele (o sentido) certamente não é idêntico a ele (ao sentido original), pois também é sempre parcialmente determinado pela situação histórica do intérprete e, por isso, pela totalidade do curso objetivo da história”[5].

O posicionamento hermenêutico de Gadamer pode ser resumido da seguinte forma[6]:

- Os métodos de interpretação são sempre determinados pela época em que existem, sendo produtos de períodos específicos da História;

- A hermenêutica não é uma ciência que tem como alvo o conhecimento objetivo e permanente;

- Em vez de procurar métodos e regras de interpretação que pressupõem a objetividade e a validade universal dos conceitos e da verdade (como o histórico-gramatical), a hermenêutica deve buscar entender o que possibilita o conhecimento em geral, já que a verdade é sempre relativa e subjetiva;

- Um texto possui vida própria, e seu sentido não é para ser encontrado através de métodos que valorizem o contexto histórico do autor, mas através do diálogo com o texto no presente;

- O sentido de um texto vai além daquele pretendido por seu autor, já que a compreensão de um texto não consiste em reproduzir o sentido do autor, mas em produzir um novo sentido;

- O entendimento de uma passagem não é causado inteiramente pelos pressupostos do leitor e nem pela situação histórica original do texto, mas por uma fusão de ambas as perspectivas (horizontes), ou seja, é o resultado da interação entre os dois.[7]

Para Gadamer, um texto, e o texto bíblico em particular, não é um repositório fixo de significados, mas uma mediação de significados. A tarefa do leitor não consiste em determinar o significado para o autor quando o texto foi escrito, mas entender o que o texto diz para o leitor presente. A grande distância entre os horizontes (distância de tempo e cultura) do autor e do leitor torna impossível uma “objetividade pura” na interpretação bíblica.[8]

A filosofia hermenêutica de Gadamer ganhou grande aceitação no mundo acadêmico e contribuiu de forma decisiva par o aparecimento de sistemas de interpretação bíblica centrados no leitor, inerentemente subjetivos.[9]

1.2 Paul Ricoeur (1913-2005)

Destacado pensador francês, cujas teorias hermenêuticas têm sido muito influentes no campo da crítica literária moderna.[10] É autor, dentre outros, dos livros A Hermenêutica Bíblica (Loyola) e Hermenêutica e Ideologias (Vozes).

Reconhecidamente influenciado por Max, Nietzche e Freud, Ricoeur é conhecido por sua hermenêutica de suspeição, através da qual busca desmascarar, desmistificar e expor o real, a partir do aparente.[11] Os mestres de Ricoeur teriam conseguido, segundo ele, descobrir a realidade por detrás da máscara textual religiosa. Max afirmou que a religião é o ópio do povo, Nietzche declarou que o propósito da religião é simplesmente justificar vícios e fraquezas como compaixão, humildade e amizade, e Freud argumentou que a religião simplesmente procurava oferecer conforto criando o conceito de um deus que é pai. As características da hermenêutica de Ricouer são:[12]

- Uma vez escrito, o texto se divorcia irremediavelmente do seu autor e do contexto em que foi escrito. A intenção autoral é um alvo impossível de ser alcançado na hermenêutica;

- A interação do leitor com o texto deve permanecer basicamente aberta, isto é, sem jamais fechar o sentido do texto;

A textualidade do texto é colocada no centro da reflexão hermenêutica.  Para Ricoeur, a hermenêutica é mais do que ensino da interpretação de textos e de seus métodos interpretativos. É uma teoria de uma compreensão abrangente do mundo e da existência humana, realizada no meio da interpretação de textos.[13]

Fundamental no pensamento de Ricoeur é o conceito de que o texto, através de sua contextualização, adquire autonomia tanto em relação a seu autor como a seu leitor.[14]

Interpretar um texto não resulta em compreender o texto, mas em compreender-se frente ao texto.[15]

1.3 Jacques Derrida (1930-2004)

De origem judaica, nasceu na Argélia, então colônia francesa. Tornou-se discípulo confesso de Nietzsche, Rousseau e Camus. Foi fundador do desconstrucionismo, tese que propõe a indeterminação do sentido dos textos.[16] Algumas das características do pensamento desconstrucionista de Derrida são:

- Tem como objetivo identificar e desmascarar quaisquer pressuposições e princípios reveladores de “metanarrativas” ou cosmovisões filosóficas, ideológicas ou teológicas, escondidas detrás da linguagem;[17]

- A tarefa do intérprete é descontruir o texto. Isto significa reverter sua hierarquia, revelar as suas contradições internas, sua arrogante proposta de transmitir sentido e revelar seu compromisso com a manutenção da hierarquia;[18]

- Todos os textos são compostos de signos arbitrários, e por isso são arbitrários. Texto são, portanto, fluídos, sempre em movimento, sem sentido fixo ou determinado, mantendo apenas uma tênue e mutante relação com a realidade objetiva;[19]

- O sentido da linguagem é oculto e evasivo. Não é possível chegar a uma interpretação válida de um texto a partir do próprio texto usando-se uma análise linguística e filosófica das pressuposições ocultas no mesmo;[20]

- A intenção do autor é irrelevante. Já que tantas pessoas interpretam um mesmo texto de tantas maneiras diferentes, não pode existir um sentido unívoco e real. O “sentido” de um texto tem apenas uma relação acidental com a intenção consciente de seu autor. Portanto, não é possível estabelecer-se uma única interpretação definitiva para um texto, inclusive as Escrituras;[21]

O desconstrucionismo propõe, explicitamente, a pluralidade da verdade. Não há uma única verdadeira interpretação de um fato, de um texto ou discurso. Todas as interpretações são igualmente válidas. O conceito de verdade absoluta é visto como algo bastante nocivo, pois toda pretensão à verdade é considerada como arrogante, tirânica e obscurantista. [22]

Os críticos de Derrida o consideram extremamente ceticista[23]. No contexto da interpretação bíblica, as suas convicções foram usadas em certa medida por J. D. Crossan, um grande expoente de teorias hermenêuticas relacionadas à crítica literária da Bíblia, e outros. Para a maioria dos intérpretes da Bíblia, o desconstrutivismo é algo muito obscuro e esotérico para fazer muito sentido.[24]

A sugestão desconstrucionista de que não existem princípios para uma interpretação certa ou errada, apenas preferências, desencanta e destitui a hermenêutica.[25]

2. Aspectos Positivos na Hermenêutica Pós-Moderna

Apesar de todas as questões até aqui apresentadas, a hermenêutica pós-moderna possui alguns aspectos positivos:

- A admissão pela erudição contemporânea, da legitimidade e inevitabilidade das pressuposições na interpretação de um texto. As pressuposições são inevitáveis, sem serem necessariamente negativas para a compreensão ortodoxa da verdade bíblica. Os pressupostos bíblicos decorrentes da fé no Deus revelado nas Escrituras é um claro exemplo;[26]  

- Na pós-modernidade, a fé cristã ortodoxa, com a sua visão revelacional, passa a ser considerada tão legítima quanto outras “verdades”;[27]

- Nos alerta quanto ao perigo de impor ao texto as nossas pressuposições, impedindo que ele fale de modo vivo e renovado às nossas circunstâncias históricas, políticas, sociais, religiosas etc. Ela nos leva a reconhecer a dificuldade de evitarmos os possíveis condicionamentos das nossas tradições, culturas, ideologias, filosofias e idiossincrasias.[28]

Apesar das contribuições acima listadas, a hermenêutica pós-moderna não deve ser considera uma parceira da fé cristã ortodoxa, e isso devido aos muitos conceitos contrários à referida fé. Dentre os referidos conceitos aqui citados, de forma resumida, podemos citar:[29]

- A negação da possibilidade de qualquer verdade objetiva, e com isso a rejeição da revelação bíblica como verdade universal e imutável;

- A legitimação que faz de qualquer eisegese como método não apenas inevitável, mas desejável de interpretação. Tal atitude resulta no relativismo, impedindo que o texto comunique o que tenciona comunicar;

- A suspeição da interpretação de passagens bíblicas acaba se tornando também objeto de suspeição. Na medida em que procura desmascarar outras ideologias a hermenêutica pós-moderna acaba se tronando refém de sua própria ideologia, passando a condenar tudo que possa contrariá-la;

- A interpretação pós-moderna, de modo geral, exagera a distância cultural entre o autor e o leitor, e dissocia de modo injustificável o autor do seu texto. A obra iluminadora do Espírito Santo, revelada nas próprias Escrituras, é desconsiderada. A dificuldade de interpretação se transforma em impossibilidade de interpretação.

Nenhum segmento evangélico está livre da influência da hermenêutica pós-moderna. Ela afeta não apenas a interpretação bíblica. A prática eclesial, a vida cristã comunal e pessoal são também áreas afetadas. A doutrina, a teologia, a pregação, o ensino, a música, o culto, a evangelização, a ética e a moral cristã, tudo é afetado.

3. Considerações Finais

A hermenêutica na condição de reflexão sobre os princípios que corroboram a interpretação textual correta, era tradicionalmente um assunto para exegetas e filólogos. Contudo, mais recentemente, a hermenêutica tornou-se uma preocupação dos filósofos, que desejam entender não o que este ou aquele texto significa, mas o que significa entender. A própria filosofia foi sugerida como um tipo de interpretação.[30] Na perspectiva da teoria literária, não podemos mais limitar a interpretação à tarefa prática de obter o significado dos textos, mas precisamos incluir a tarefa política de situar o intérprete.[31]

Para Clark, a hermenêutica, como disciplina, é tão misteriosa e turbulenta quanto sempre foi e é impossível predizer a forma futura que adquirirá e até mesmo se continuará a existir.[32] Se tal visão é pessimista ou realista, o tempo dirá. Um vislumbre de otimismo também é deixado por Clark, e se relaciona com a possibilidade do surgimento entre os estudiosos da Bíblia de outro Lutero que possa redimir a hermenêutica.

No desejo de nos tornarmos aceitáveis pela erudição acadêmica universitária contemporânea, corremos o risco de nos tornarmos acríticos e seduzidos pelos aplausos da academia pós-modernizada. A busca por relevância entre os leitores e ouvintes contemporâneos, embora legítima, não pode comprometer a verdade. A ênfase exagerada nos aspectos subjetivos da interpretação bíblica (experiência, êxtase, intuição etc.), em detrimento dos aspectos objetivos histórico-gramaticais do texto, precisa ser considerada com muita prudência, inteligência e coerência.[33] A sabedoria que vem do alto, a humildade, o temor reverente, a oração e a dependência do Espírito devem continuar fundamentando e norteando todo o nosso pensar e fazer hermenêutico.




[1] O conceito de relativismo na pós modernidade implica na crença da impossibilidade de verdades absolutas, moral universal, etc. Cada um é possuidor e detentor da sua própria verdade e moral. Tudo é relativo, inclusive a maneira de se interpretar as Escrituras e o sentido de um texto bíblico.
[2] ANGLADA, Paulo. Introdução à hermenêutica reformada: correntes históricas, pressuposições, princípios e métodos linguísticos. Ananindeua, PA: Knox Publicações, 2016, p. 23.
[3]VANHOOZER, Kevin. Há um significado neste texto?: interpretação bíblica: os enfoques contemporâneos. Tradução de Àlvaro Hattnher. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 447.
[4] BRAY, Gerald. História da interpretação bíblica. Tradução de Daniel Hubert Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 473.
[5] ANGLADA, ibid., p. 41.
[6] LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 217-219.
[7] VANHOOZER, ibid., p. 480.
[8] DOCKERY, David S. Hermenêutica contemporânea: à luz da igreja primitiva. Tradução de Álvaro Hattnher. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 161-162.
[9] LOPES, ibid., p. 220.
[10] BRAY, ibid., 473.
[11] ANGLADA, ibid.
[12] LOPES, ibid., p. 237.
[13] KÖRTNER, Ulrich H. J. Introdução à hermenêutica teológica. Tradução de Paul Tornquist. São Leopoldo, RS. Sinodal/EST, 2009, p. 99-100.
[14] Ibid.
[15] Ibid.
[16] DANIEL, Silas. A sedução das Novas Teologias. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p. 77.
[17] ANGLADA, ibid., p. 43.
[18] LOPES, ibid., p. 220.
[19] Ibid.
[20] Ibid.
[21] Ibid., p. 222.
[22] Ibid., p. 234.
[23] O ceticismo é um pensamento filosófico que afirma que o ser humano não pode atingir nenhuma certeza a respeito da verdade. É um procedimento intelectual de dúvida permanente.
[24] BRAY, ibid., p. 478, 493.
[25] VANHOOZER, ibid., p. 25
[26] ANGLADA, ibid., p. 45.
[27] Ibid.
[28] Ibid.
[29] Ibid., p. 46.
[30] VANHOOZER, Ibid., p. 23-24.
[31] Ibid., p. 24.
[32] CLARK, Greg. A hermenêutica geral. In: McKNIGHT, Scot; OSBORNE, Grant R. Faces do Novo Testamento: um exame das pesquisas mais recentes. Tradução de Lena Aranha. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, p. 127.
[33] ANGLADA, ibid., p. 47-48.

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