quinta-feira, 28 de março de 2019

A Relevância do Método Histórico-Gramatical para uma Hermenêutica Pentecostal


Rompendo com o abuso das interpretações bíblicas alegóricas, o método histórico-gramatical foi desenvolvido pelos Reformadores, que estavam interessados em chegar ao sentido óbvio, claro e simples das Escrituras. A observação das questões gramaticais e do contexto histórico do autor e de seus leitores originais deveriam ser consideradas. A necessidade da iluminação do Espírito não foi descartada, visto que as Escrituras eram inspiradas por Deus. Ninguém poderia interpretar a mensagem da Bíblia sem o auxílio e a ação iluminadora do Espírito. Os Reformadores se preocuparam em determinar a intenção do autor, que seria o sentido pretendido por Deus. As interpretações do passado que concordavam com as Escrituras não foram desprezadas. O método histórico-gramatical prevaleceu na igreja após a Reforma, e foi adotado pelo protestantismo ortodoxo.[1] Os métodos de análise textual desenvolvidos pelos Reformadores são usados ainda hoje, e protestantes conservadores continuam prestando atenção neles como fonte de inspiração.[2] Para Paulo Angrada:

Trata-se de um método extremamente frutífero, consistente com as pressuposições bíblicas quanto à própria natureza das Escrituras, que emprega princípios gerais e métodos linguísticos e históricos coerentes com o caráter divino-humano da Bíblia.[3]

Em seus estágios de desenvolvimento, o pentecostalismo também adotou o método histórico-gramatical.

Não tenho dúvidas que a experiência tem um papel fundamental na interpretação bíblica pentecostal. Autores como Craig S. Keener afirmam isso, mas de forma bastante equilibrada:

A espiritualidade pentecostal sempre leu as Escrituras experiencialmente [...]. Ninguém se aproxima de um texto sem pressuposições, geralmente moldadas por instrução ou experiências passadas [...]. Experiências contemporâneas, no entanto, podem nos ajudar a ouvir o texto bíblico de maneiras que ressoam seus valores [...]. Experiências semelhantes às das Escrituras muitas vezes tornam as Escrituras mais críveis ou próximas a nós do que elas parecem para aqueles que não têm essas experiências [...]. A experiência a muito tempo tem moldado a interpretação.[4]

Keener não propõe com isso uma interpretação bíblica meramente experiencial ou subjetiva. Ele não descarta a importância da análise histórico-gramatical na busca pelo sentido do texto e intenção autoral:

Ávidos por enfatizar a experiência dos leitores, alguns críticos hoje negligenciam a importância fundacional do significado antigo [...]. O significado antigo, canônico, precisa ser a âncora e o árbitro das alegações para interpretar o texto hoje [...].[5]

Uma postura pentecostal extremada é relatada por Keener:

Um estudioso pentecostal, aparentemente usando de forma prescritiva uma descrição da prática pentecostal popular, sugere que um entendimento mais pleno da Bíblia não é especialmente desejável, que o “encontro” é preferível à “exegese”, que os “leitores espiritualizantes” só precisam de “pouco interesse [...] pelo significado superficial do texto” ou atenção “à intenção original do autor”. Segundo essa perspectiva, a hermenêutica pentecostal se opõe, de modo antagonístico, à apreciação do texto por seus próprios méritos e sugere que os “pentecostais estão infinitamente menos interessados naquilo que” os textos significam para seus leitores originais do que em como os textos nos desafiam hoje. O autor vai tão longe a ponto de sugerir, embora não de modo completamente exagerado, que, “agora que os estudiosos progressistas” acertaram o Golias da “crítica gramático-histórica” os Davis pentecostais devem terminar o trabalho cortando a cabeça de Golias.[6]

Pode se observar na presente citação, uma sugestão implícita de ruptura com o método histórico-gramatical por parte de alguns “pentecostais progressistas”. A discussão sobre o que o texto significou no passado, em seu contexto de origem é inevitável. Os aspectos linguísticos e históricos não devem ser descartados:

Sem um fundamento comum – não somente nas palavras do texto, mas no que essas palavras significavam em seus contextos cultural, situacional e autoralmente moldados – pode-se fazer com que qualquer texto diga praticamente qualquer coisa [...]. Descobrir “o significado e a intenção originais” de um texto é o objetivo do método histórico-gramatical [...]. Alguns associam a intenção autoral com “uma hermenêutica racionalista iluminista” ou com “o método histórico-crítico”. No entanto, os intérpretes claramente já usavam “exegese histórico-gramatical” antes do domínio da crítica histórica moderna.[7]

Diversos autores e eruditos pentecostais, entre eles Robert P. Menzies, também estão a favor de uma hermenêutica pentecostal que considere o método histórico-gramatical:

Os pentecostais e os evangélicos (não pentecostais) ressaltam a importância da intenção do autor bíblico e procuram entender a passagem à luz de seu contexto histórico e literário. O significado histórico é importante para ambos os grupos. A despeito dessas importantes áreas de congruência, há dois pressupostos (muitas vezes inconscientes) que moldam as abordagens evangélicas (não pentecostais) a Lucas-Atos que os pentecostais rejeitam. O primeiro pressuposto está associado com a tendência evangélica de rejeitar a narrativa de Atos e a igreja apostólica que o Livro descreve como modelo para a igreja hoje. [...] O segundo pressuposto é consequência da tendência evangélica de reduzir a teologia do Novo Testamento à teologia paulina.[8]

Roger Stronstad, nos fala de princípios hermenêuticos comuns à interpretação protestante evangélica de toda a literatura bíblica, independente do gênero, onde inserir o livro em seu contexto histórico original faz parte. Nesse sentido, Lucas-Atos devem ser inseridos nos contextos histórico, político, religioso e social do mundo greco-romano.[9]

Para Gordon Fee, a exegese significa que se está buscando a própria intenção de um autor naquilo que foi escrito:

A exegese é o estudo cuidadoso e sistemático da Escritura para descobrir o significado original, o significado pretendido. A exegese é basicamente uma tarefa histórica. É a tentativa de escutar a Palavra do mesmo modo que os destinatários originais devem tê-la ouvido; descobrir qual era a intenção original das palavras da Bíblia. Essa tarefa que com frequência exige ajuda do “especialista”, aquela pessoa cujo treinamento a ajudou a conhecer bem o idioma e as circunstâncias dos textos no seu âmbito original.

Segundo Gordon L. Anderson, seis questões chaves devem ser consideradas no processo interpretativo das Escrituras. São elas: o método exegético, o papel do Espírito Santo, gênero, experiência pessoal, experiência histórica e pressupostos teológicos.[10]

Para Anderson, os Pentecostais, e outros que interpretam a Bíblia de modo semelhante a eles, estruturam os seis elementos básicos de uma hermenêutica padrão de forma bem diferente de outros evangélicos. Tal hermenêutica pentecostal seria a combinação entre uma hermenêutica centrada no leitor (experiência), sem abrir mão do alto compromisso com a verdade e autoridade da Bíblia (investigação).

Mesmo assim, o significado pretendido pelo autor original ainda é considerado primário, e os significados obtidos através do estudo histórico-gramatical são vistos como objetivos a serem alcançados. No entanto, uma compreensão adequada desses significados não pode ser obtida sem lidar apropriadamente com as outras cinco partes da estrutura hermenêutica. Uma hermenêutica pentecostal ajuda substancialmente nesse processo.

Apesar da impossibilidade de reconstruir perfeitamente o significado original (objeção de que a intenção do autor é irrecuperável):

[...] o texto significa no mínimo o que significava para o autor inspirado, que entendia a sua própria língua, as expressões idiomáticas e alusões culturais melhor do que nós. Oferecer reconstruções históricas da forma mais responsável possível (dados os limites das evidências e dos nossos próprios horizontes) é um objetivo racional que não precisa ser descartado simplesmente porque não pode ser alcançado perfeitamente.[11]

Apesar de algumas divergências entre os eruditos pentecostais na aplicação do método histórico-gramatical, o método em si continua sendo relevante para muitos destes, onde a possibilidade de descartá-lo está descartada, pelo menos enquanto escrevo estas linhas.

Ênfase no autor, texto ou leitor? Horizonte bíblico ou contemporâneo? Razão humana ou iluminação do Espírito? Cognição ou experiência? Teorização acadêmica ou aplicação piedosa? Todas as vezes que um destes aspectos hermenêuticos é demasiadamente enfatizado em detrimento dos demais, um novo problema tende a surgir.

Não seriam cada um destes aspectos hermenêuticos (ou ênfases hermenêuticas) convergentes, em vez de divergentes? Não seriam complementares em vez de excludentes? Na hermenêutica o equilíbrio é também necessário e desejável.

Não há nada de errado em se buscar novos métodos que atendam os leitores e exegetas pentecostais. Contudo, os tais métodos precisam ser expostos, aplicados e testados por seus proponentes, para somente após a sua comprovada eficácia, serem aprovados, aceitos e difundidos na comunidade pentecostal.

No momento, continuo utilizando o método histórico-gramatical (sem abrir mão da cooperação do Espírito e do valor da experiência), que muito me tem servido (e a tantos outros), na desafiadora e maravilhosa tarefa de interpretar as Escrituras, ao mesmo tempo em que me mantenho aberto para outras possibilidades metodológicas, que sejam comprovadamente fiéis na busca pelo sentido original do texto e pela intenção autoral, e que considerem a Bíblia com todas as suas singularidades na condição de Palavra de Deus. 


[1] LOPES, Augustus Nicodemus Lopes. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004., p. 159-167.
[2] BRAY, Gerald. História da Interpretação Bíblica. Tradução de Daniel Hubert Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 191.
[3] ANGLADA, Paulo. Introdução à Hermenêutica Reformada: correntes históricas, pressuposições, princípios e métodos linguísticos. Ananindeua, PA: Knox Publicações, 2016, p. 101.
[4] KEENER, Craig S. A hermenêutica do Espírito: lendo as Escrituras à luz do Pentecostes. Tradução de Daniel Hubert Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 68-70.
[5] Ibid., p. 211.
[6] Ibid., p. 221.
[7] Ibid., p. 223, 226.
[8] MENZIES, Robert P. Pentecostes: essa é a nossa história. Tradução de Luís Aron de Macedo. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 23-24.
[9] STRONSTAD, Roger. Teologia lucana sob exame: experiência e modelos paradigmáticos em Lucas-Atos. Tradução de Celso Roberto. Natal, RN: Carisma, 2018, p. 29, 31.
[10] ANDERSON, Gordon L. Hermenêutica Pentecostal, disponível em enrichentjournal.ag.org, acessado em 28/03/2019.
[11] KEENER, ibid., p. 245.

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