sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Ladrão: Exegese de João 10.10




"O ladrão não vem senão a roubar, a matar e a destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância.” (Jo 10.10)

Quem é o ladrão mencionado por Jesus no texto de João 10.10? São muitos os pregadores e ensinadores que afirmam ser o diabo. Eu mesmo já perdi a conta das vezes que ouvi dos púlpitos tal afirmação. Desde já, é preciso deixar claro, que matar, roubar e destruir, sem dúvida alguma, fazem parte das obras do diabo (1 Pe 5.8; 1 Jo 3.8). Mas era ao diabo que Jesus se referia no texto aqui em análise? Vamos aos fatos.

Uma das principais regras de uma boa hermenêutica é considerar e analisar o contexto imediato do versículo, ou seja, os versículos precedentes e posteriores, e claro, todo o capítulo, e se for o caso, os capítulos precedentes e posteriores. Em alguns casos, todo o livro, com o seu tema principal, deve ser observado. Conforme Plummer:

Qualquer porção da Escritura deve ser lida no contexto da sentença, do parágrafo, da unidade de discurso maior e de todo o livro bíblico. Quanto mais o leitor se afasta das palavras em questão, tanto menos informativo é o material considerado. Tentar entender ou aplicar uma frase ou um versículo bíblico específico sem referência ao contexto literário equivale a uma quase certeza de resultar em distorções. Infelizmente, na literatura e na pregação cristã popular, há muitos exemplos dessa falta de respeito ao contexto de uma passagem. Uma das exibições mais dolorosas dessa falha hermenêutica é um pregador que exalta e confessa a autoridade e a inerrância da Escritura, enquanto, na prática, nega essa autoridade por meio de sua pregação negligente.[1]

Se considerarmos que a narrativa do capítulo 10 de João segue os fatos narrados no capítulo 9, onde lemos que em razão da cura de um cego de nascença, os fariseus, que tinham uma considerável representação e influência entre os líderes religiosos da nação, questionaram a curam e a procedência do poder de Jesus para operá-la (9.15-16), e que o capítulo 9 termina exatamente com uma resposta de Jesus aos fariseus, que buscavam esclarecer uma afirmação de Jesus sobre “cegos” espirituais ou de entendimento espiritual (9.40-41), tais fatos precisam ser considerados para compreendermos João 10.10. Carson compreende que:

O homem curado foi tratado de forma rude pelas autoridades religiosas e expulso da sinagoga. O que João escreve em seguida é, portanto, que muitos ladrões e assaltantes destroem as ovelhas, enquanto o bom pastor guia os seus para fora do aprisco e para dentro do seu próprio rebanho. E se a justaposição de 10.1-18 com o fim do capítulo 9 não é o bastante para estabelecer a conexão, João reporta a contínua incerteza dos judeus sobre a cura do home cego (10.19-21) para ligar as duas passagens entre si.[2]

No capítulo 10 as expressões “ladrões” (gr. Κλέπται, kléptai) e “salteadores” (gr. λῃσταί, lestaí) já aparecem no versículo 8, e ambas no plural, o que fortalece a ideia do texto se referir aos líderes da nação como pessoas não autorizadas, que entram e brutalizam as ovelhas. Um Ladrão é alguém que furta, apossa-se de forma secreta e sem permissão da propriedade de outra pessoa (Mt 24.43).[3] Um salteador, ou assaltante, é alguém que rouba com uso de força e violência (Lc 10.30).[4] Para Carson:

É difícil ler essas palavras sem pensar em diversos panos de fundo. De longe, o mais importante é Ezequiel 34. Lá o Senhor repreende “os pastores de Israel”, os líderes religiosos dos dias de Ezequiel, por matar os animais escolhidos, vestindo-se com a lã, porém falhando totalmente em cuidar do rebanho (Ez 34.4). [...] Se esse pano de fundo é original, então no contexto do ministério de Jesus os ladrões e assaltantes são os líderes religiosos que estão mais interessados em tosquiar as ovelhas do que guiá-las, nutri-las e protege-las. Eles são os líderes do capítulo 9, que deveriam ter ouvidos para ouvir as declarações de Jesus e reconhecê-lo como a revelação de Deus, mas que em lugar disso, desprezam e expulsam as ovelhas.[5]

Bruce, em seu comentário, diz que os ladrões e salteadores podem ser os integrantes do sistema, que se revelaram como péssimos pastores daqueles necessitados do rebanho de Israel, como era o homem que foi curado da sua cegueira. Pode-se, segundo ainda Bruce, pensar ainda em falsos messias, líderes de revoltas e outras pessoas desta estirpe, que mobilizavam seguidores em torno de si para conduzi-los ao desastre, como Teudas e Judas o galileu (At 5.36,37).[6]

Estranhos, ladrões e assaltantes podem chamar as ovelhas pelo nome e tentar imitar a voz do seu pastor. Os escribas e fariseus eram falsos pastores, e a sua voz confundiu e desencaminhou as ovelhas.[7] No Comentário Bíblico Pentecostal lemos que:

É proveitoso tentarmos descobrir o plano de fundo das palavras “ladrão” e “salteador”. Evidência pode ser encontrada na Palestina do século I para trás. Bandidos e revolucionários vagavam em todos os lugares e atacavam as pessoas. A questão é que esses líderes, que seguiam o rastro de Jesus pelo caminho, são falsos e não fazem nada senão desviar as pessoas.[8]

Para Champlin, pode-se interpretar os ladrões e salteadores como os líderes das diversas seitas de Israel, que tinham perdido de vista o seu propósito ou missão original, tendo-se corrompido de diversas maneiras, como os fariseus e saduceus. É fora de dúvida que isso faz parte da intenção e sentido original da fala de Jesus conforme mostra o contexto imediato.[9]

Aplicando a presente narrativa aos dias atuais, e comparando-a com as ações de ladrões e salteadores no contexto de João 10.1-18, Champlin compreende que tais condutas estão presentes também na igreja, onde falsos líderes podem usar de muitas práticas para roubarem e destruírem pessoas e a própria organização religiosa em benefício próprio. Embora possam parecer pastores do rebanho de Deus, e terem aparência de piedade, não passam de ladrões e salteadores da igreja de Jesus.[10]

Conclusão:

Com a presente exegese em torno de João 10.10, considerando ainda a importância já citada do contexto para a interpretação do texto, onde a sua significação é também determinada pelo raciocínio geral, ou pelas referências do contexto[11], concluímos que compreender e aplicar aqui o termo “ladrão” como uma referência direta feita por Jesus ao diabo é um equívoco hermenêutico. Jesus tinha em mente a liderança religiosa de Israel, que como ladrões e salteadores, buscavam roubar, matar e destruir as ovelhas (o povo) em benefício próprio.


[1] PLUMMER, Rob. 40 questões para se interpretar a Bíblia. São José dos Campos-SP: Fiel, 2017, p. 146 e 147.
[2] CARSON, D. A. O comentário de João. São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 380.
[3] LOUW, Johannes; NIDA, Eugene. Léxico grego-português do Novo Testamento. Barueri-SP, 2013, p. 519.
[4] Ibid., p. 520.
[5] CARSON, D. A. Ibid., p. 382-383.
[6] BRUCE, F. F. João: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1987, p. 196.
[7] LOCKYER, Herbert. Todas as parábolas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1999, p. 381.
[8] ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger (editores). Comentário bíblico pentecostal do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 559.
[9] CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 442, v. 2.
[10] Ibid., p. 443.
[11] ANGUS, Joseph. História, doutrina e interpretação da bíblia. São Paulo: Hagnos, 2003, p. 176 e 180.

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