sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Parábola: Uma Lição Para a Vida - Subsídio para Lições Bíblicas da CPAD - 4º Trimestre/2018



O poder da contação de histórias é indiscutível. Para quem já pôde fazer um curso de pedagogia isso é ainda mais claro. As parábolas são muito mais do que simples histórias. Como Mestre dos mestres, Pedagogo dos pedagogos, Jesus nos deixa um exemplo magnífico do poder das parábolas como instrumento didático no processo ensino-aprendizagem.

De todas as atividades de Jesus, a que mais encontramos ele fazendo é ensinando. As parábolas constituem cerca de 35% dos seus ensinos nos evangelhos sinóticos.[1] A palavra grega parábola aparece cerca de cinquenta vezes nos Evangelhos Sinópticos.[2] É importante informar que Jesus não foi a primeira pessoa a fazer uso das parábolas, contudo, seu estilo é incomparável, com uma clareza e simplicidade sem par, bem como uma maestria inaudita na construção.[3] Tanto no Antigo Testamento, como em outros contextos do mundo antigo, as parábolas fazem parte da cultura popular. Os relatos mais antigos de parábolas datam do século XXIV a.C.[4]

1 – O que é uma Parábola?

Definir “parábola” tem sido algo que os estudiosos divergem entre si. Snodgrass afirma que: “Possivelmente nenhuma definição de parábola se mostrará completamente eficaz, pois toda definição que seja ampla o suficiente para englobar todas as formas acaba se revelando tão imprecisa a ponto de se mostrar praticamente inútil.”[5] As parábolas são instrumentos ou recursos comunicativos para compreensão do seu ensino acerca dos valores, princípios e demais realidade do Reino.[6] Elas são analogias ampliadas utilizadas para convencer e persuadir.[7]

A palavra hebraica para “parábola” é mashal, e designava toda sorte de linguagem figurada: Parábola, comparação, alegoria, fábula, provérbio, revelação apocalíptica, dito enigmático, pseudônimo, símbolo, figura de ficção, tipo, motivo, argumentação, apologia, objeção, piada.[8] Sua correspondente no grego é parabole, e é geralmente (e equivocadamente) definida como simplesmente uma ilustração. Seguindo a sua correspondente no hebraico, parabole pode significar no Novo Testamento: Comparação (Lc 5.36; Mc 3.23), figura simbólica (Hb 9.9, 11, 19), provérbio ou máxima (Lc 4.23), enigma (Mc 7.17), regra (Lc 14.17)[9], contraste (Lc 18.1-8), alegoria (Mc 4.3-9)[10].

Uma característica fundamental da parábola está um unir duas coisas diferentes, de forma que uma ajude a explicar e ressaltar a outra. É um símbolo externo de uma realidade interna.[11] Tratam de falar de verdades espirituais através de realidades naturais. Vestem de imagens às abstrações teóricas.

O objetivo último de uma parábola é despertar uma compreensão mais aprofundada sobre o assunto que trata, promover uma tomada de consciência e conduzir os ouvintes a uma ação concreta.

2 – As Parábolas e o Problema da Alegorização

Após a morte de Jesus as parábolas sofreram alguns desvios na sua interpretação, sendo tratadas como alegorias, ou seja, a cada detalhe de uma parábola era atribuído um sentido especial e profundo. Em razão disso, houve um distanciamento do sentido original dos ensinos de Jesus por parábolas. Diversos fatores podem ter contribuído para isto. Dentre os quais estavam o desejo inconsciente de achar nas palavras simples de Jesus um sentido mais profundo, a influência da interpretação alegórica helenística com o uso dos mitos, e o judaísmo helenístico onde a exegese alegórica encontrou espaço.[12]

Alegoria é um gênero literário que atribui significado simbólico a detalhes textuais.[13] Os que fazem uso da alegoria falam ou escrevem sobre algum assunto por intermédio de outro, buscando desvendar sentidos simbólicos, espirituais ou ocultos. Conforme o método alegórico, o sentido literal e histórico das escrituras é desprezado, e a cada termo ou acontecimento é dado um significado mais “espiritual”.[14]

A alegorização (ou alegoresis) é a prática interpretativa de transformar em alegoria aquilo que originalmente não tinha o propósito de ser alegoria.[15] O sistema interpretativo alegórico tem suas raízes históricas no pensamento de Heráclito (540-475) e Platão (427-347). Posteriormente, o famoso judeu Filo de Alexandria dedicou-se a reconciliar o ensino Moisés nas Escrituras com as ideias de Platão, passando a usar a alegorese (método alegórico de interpretação).[16] Esse método influenciou em maior e menor grau a interpretação bíblica até a Reforma Protestante, onde houve um rompimento radical a hermenêutica alegórica medieval. Os reformadores ensinavam que cada texto tem só um sentido, que é o literal, a não ser que o próprio contexto ou outro texto das Escrituras exijam claramente uma interpretação figurada ou metafórica.[17] 

Lutero classificou as interpretações alegóricas anteriores de tolas, tagarelices admiráveis, absurdas e inúteis. Calvino afirmou ser uma audácia, associada a sacrilégio, mudar precipitadamente a Escritura de qualquer maneira que nos agrade e satisfaça à nossa imaginação.[18] Em resumo, dentre os problemas e perigos que norteiam o método de interpretação alegórico estão: a) O desprezo pelo significado ordinário das palavras, com a especulação de um sentido místico de cada uma delas; b) A intenção do autor é ignorada, sendo inserido na interpretação todo tipo de extravagâncias ou fantasias que um intérprete deseje dar; c)    Os métodos válidos, como por exemplo o histórico-gramatical, são rejeitados, e a mente e criatividade do intérprete se tornam a única base interpretativa. A Bíblia deixa de ser a autoridade básica da interpretação; d)     Quem usa o método alegórico não possui os meios necessários para provar as suas conclusões. [19]
    
     Os intérpretes que fizeram ou fazem uso do método alegórico se tornam reféns de sua própria subjetividade interpretativa.

No final do século XIX, Adolf Jülicher (1857-1938), um estudioso alemão e exegeta bíblico, rejeitou a alegoria ou a alegorização de modo contundente. Em sua obra “História da interpretação das parábolas de Jesus”, publicada em dois volumes em 1888-89, ele trava uma guerra contra a alegorização, chegando a ir para um outro extremo sobre a questão, reduzindo os ensinos de Jesus através das parábolas como um moralismo piegas a respeito deste mundo, ou máximas religiosas gerais.[20] Ele espanou de sobre as parábolas uma espessa camada de pó colocada sobre elas através da alegorização, mas deixou a principal tarefa por fazer, que era tentar reobter o sentido original das mesmas.[21] Ainda que a rigidez unilateral de sua tese possa ser questionada, ela colaborou para a necessidade de buscar na interpretação das parábolas o verdadeiro sentido do texto.[22]

Em termos práticos, um exemplo da aplicação do método alegórico nas parábolas pode ser visto, por exemplo, em Agostinho, quando na parábola do Bom Samaritano (Lc 10.30-37), o homem moribundo é Adão, Jerusalém é a cidade celestial, Jericó representa o caráter mortal da humanidade, os ladrões são o Diabo e seus demônios, o sacerdote e o levita são o sacerdócio e ministério do Antigo Testamento, o bom samaritano é Cristo, as cicatrização das feridas é a restrição ao pecado, o azeite e o vinho são o consolo da esperança e o incentivo à obra, o jumento é a encarnação, o abrigo é a igreja, o dia seguinte é o período posterior a encarnação de Cristo, a pessoa que cuida do abrigo é o apóstolo Paulo e os dois denários são os dois mandamentos de amor e a promessa desta vida e da vida porvir.[23]

Certa vez, um pregador discorrendo sobre o homem rico e o mendigo Lázaro (Lc 16.19-31), disse que o homem rico representava o jornalista e empresário Roberto Marinho (1904-2003), o mendigo seria a igreja, as chagas do mendigo os escândalos da igreja e os cachorros que lambiam as chagas do mendigo a Rede Globo de televisão. De fato, temos aqui uma fértil imaginação, mas totalmente desprovida do sentido real do texto bíblico. A alegorização continua presente em nossos púlpitos, usada e abusada por pregadores e ensinadores sem compromisso com os princípios válidos da interpretação bíblica, ou ignorantes a tais princípios, destituídos ou afastados da iluminação do Espírito que coopera com o intérprete e expositor das Escrituras.

3 – Como Interpretar as Parábolas de Jesus?

O estudo sobre as parábolas requer muita atenção para que não se incorra nos erros conceituais e interpretativos das mesmas. Apesar de parecer muito simples e claras, as parábolas possuem algumas particularidades linguísticas, culturais e contextuais que não devem ser desprezadas ou ignoradas.

Um procedimento interpretativo não pode extrair da parábola uma teologia alheia à intenção de Jesus. As parábolas estão entre as histórias mais abusadas e desfiguradas das quais já se ouviu falar, e têm sido manipuladas a fim de servirem a todo tipo propósito na área teológica, política, social e pessoal.[24] Já no início do primeiro século as parábolas sofreram certos desvios na sua interpretação.[25] Elas têm sofrido bastante com as várias interpretações errôneas.[26]

Jesus falou a homens, a partir do momento para o momento. Cada uma de suas parábolas tem um lugar histórico determinado na sua vida. Tentar reobtê-lo é a tarefa do leitor e intérprete. O que Jesus quis dizer nesta ou naquela hora determinada? Vale a pena fazer estas perguntas, para tanto quanto possível chegarmos ao sentido original das parábolas de Jesus.[27]

Envolver-se em interpretação presume que há, de fato, um significado correto e um significado incorreto de um texto, e que devemos ter cuidado para não interpretarmos errado esses significados.[28]

Interpretar, conhecer o significado real das parábolas e da Bíblia como um todo é fundamental para descobrir sua mensagem para os nossos dias. Se descartarmos a importância da hermenêutica e da exegese nesse sentido, estaremos negligenciando um procedimento indispensável do estudo bíblico e deixando de nos beneficiar com isso.[29] Exige-se do bom intérprete que ele aprenda as regras da hermenêutica bem como a arte de aplica-las.[30]

A hermenêutica pode ser definida como a ciência e arte de interpretação bíblica. Já a exegese é a aplicação dos princípios hermenêuticos para chegar-se a um entendimento correto do texto. Refere-se a ideia de que o intérprete está tentando derivar seu entendimento do texto, em vez de impor o seu entendimento ao texto (eisegese).[31] A hermenêutica e a exegese não dispensam a cooperação da oração e da iluminação do Espírito na compreensão da verdade bíblica, do sentido do texto, antes, coopera fundamentalmente nesse processo.

Na interpretação das parábolas, algumas regras e princípios que se aplicam também aos demais textos e gêneros literários bíblicos precisam ser observados. 

Para Oliveira, há quatro coisas que devemos ter em mente se desejamos compreender as parábolas de Cristo. São elas: a) As parábolas nos Evangelhos estão relacionadas com Cristo e seu Reino; b) As parábolas devem ser estudadas à luz do lugar e da época a que se relacionam; c) Observe a explicação das parábolas dadas pelo próprio Jesus; d) Compare os ensinamentos apresentados na parábola com todo o contexto das Escrituras.[32]

As sugestões de Plummer são as seguintes: a) Determine os pontos principais da parábola; b) Reconheça imagens típicas nas parábolas; c) Note detalhes impressionantes e não esperados; d) Não tente encontrar significados em todos os detalhes; e) Preste atenção ao contexto histórico e literário da parábola.[33]

Os princípios interpretativos para as parábolas apresentados por Virkler são: a) Análise histórico-cultural e contextual; b) Análise léxico-sintática; c) Análise teológica; d) Análise literária.[34]

Snodgrass, em sua excelente obrar, sugere: a) Analise cada parábola de forma completa; b) Ouça a parábola sem pressuposições referentes à sua forma e significado; c) Lembre-se que as parábolas de Jesus era instrumentos orais em uma cultura oral; d) Se desejamos conhecer a intenção de Jesus, precisamos procurar ouvir a parábola da mesma forma que uma pessoa da Palestina a ouviria naquela época; e) Observe como cada parábola e o formato da sua redação se encaixam com o objetivo e o esquema de cada evangelista; f) Determine especificamente a função da história nos ensinamentos de Jesus; g) Interprete o que foi expresso no texto, não o que foi omitido. Qualquer tentativa de interpretar uma parábola com base naquilo que está ausente encontra-se, quase que certamente, fadada ao fracasso; h) Dedique uma atenção especial à regra da ênfase final; i) Observe onde os ensinamentos da parábola se mesclam com os ensinamentos de Jesus em outras porções das Escrituras; j) Determine a intenção teológica e o significado da parábola.[35]

Para um maior aprofundamento dos professores e alunos nas questões aqui colocadas, sugerimos a aquisição das obras citadas. O espaço e propósito dos subsídios não permitem discussões e exposições mais prolongadas e exaustivas.

Após tratarmos aqui introdutoriamente do conceito, problemas e dicas interpretativas relacionadas com as parábolas de Jesus, seguiremos avante, estudando cada parábola proposta nas lições bíblicas da CPAD deste 4º trimestre de 2018, esperando em Deus contribuir com cada professor que tiver acesso ao presente conteúdo, buscando em tudo a edificação dos santos e a glória de Deus.




[1] SNODGRASS, Klyne. Compreendendo todas as parábolas de Jesus. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 53.
[2] VIRKLER, Henry A. Hermenêutica avançada: Princípios e processos de interpretação bíblica. São Paulo: Vida, 1987, p. 126.
[3] JEREMIAS, J. As parábolas de Jesus. 10ª Ed. São Paulo: Paulos, 2007, p. 9.
[4] SNODGRASS, Klyne. Ibid., p. 73.
[5] Ibid., p. 32.
[6][6] Ibid., p. 33.
[7] Ibid., p. 34.
[8] JEREMIAS, J. Ibid., p. 13.
[9] Ibid.
[10] SNODGRASS, Kline, Ibid., p. 36.
[11] LOCKYER, Herbert. Todas as parábolas da Bíblia. São Paulo: Editora Vida, 1999, p. 11-12.
[12] JEREMIAS, J. Ibid., p. 9.
[13] PLUMMER, Rob. 40 questões para se interpretar a Bíblia. São José dos Campos, SP: Fiel, 2017, p. 116.
[14] BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 124.
[15] SNODGRASS, Klyne. Ibid., p. 27
[16] LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 130.
[17] Ibid., p. 161.
[18] PLUMMER, Rob. Ibid., p. 123-124.
[19] BENTHO, Esdras Costa. Ibid., p. 125-126.
[20] SNODGRASS, Klyne. Ibid., p. 29-30.
[21] JEREMIAS, J. Ibid., 13.
[22][22][22] Ibid., p. 11.
[23] SNODGRASS, Klyne. Ibid., p. 28.
[24] SNODGLASS, Klyne . Ibid., p. 30-31
[25] JEREMIAS, J. Ibid., p. 9.
[26] LOCKYER, Herbert. Ibid., p. 19-20.
[27] JEREMIAS, J. Ibid., p. 15.
[28] PLUMMER, Rob.
[29] ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica: Meios de descobrir a verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 10.
[30] VIRKLER, Henry A. Ibid., p. 9.
[31] Ibid., p. 11.
[32] OLIVEIRA, Raimundo F. Como estudar e interpretar a Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1986, p. 50-51.
[33] PLUMMER, Rob. Ibid., p. 404-411.
[34] VIRKLER, Henry A. Ibid., p. 127-132.
[35] SNODGRASS, Klyne. Ibid., p. 57-65.



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