sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A TENDENCIOSA INTERPRETAÇÃO DE R. C. SPROUL DE JOÃO 6.44


Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.” (Jo 6.44)

Na tentativa de defender a ideia de graça irresistível, o calvinista R. C. Sproul interpreta tendenciosamente o texto de João 6.44, argumentando que a palavra grega elkyse, derivada de elko e traduzida por “trouxer”, deve significar “compelir por irresistível superioridade”, “arrastar”. Observe o seu comentário:

O que significa para o Pai trazer pessoas a Cristo? Muitas vezes tenho ouvido esse texto explicado como significando que o Pai precisa convidar ou atrair os homens para Cristo. A menos que isso aconteça, nenhum homem virá a Cristo. Contudo, o homem tem a capacidade de resistir a esse convite ou de recusar a atração. O convite, embora necessário, não compele. Na linguagem filosófica, isso significaria que a atração de Deus é uma condição necessária, mas não suficiente para trazer os homens a Cristo. Em linguagem mais simples, significa que não podemos vir a Cristo sem o convite, mas o convite não garante que viremos, de fato, a Cristo. Estou persuadido de que a explicação citada, que é tão difundida, está incorreta. Faz violência ao texto da Escritura, particularmente ao sentido bíblico da palavra “trouxer”. A palavra grega usada aqui é “elko”. O Dicionário Teológico do Novo Testamento, de Kittel, a define como significando compelir por irresistível superioridade. Linguisticamente e lexicograficamente, a palavra significa “compelir”.[1]

Por qual razão tal interpretação é tendenciosa? Consultando diversas publicações que tratam do grego do Novo Testamento, identifiquei que o termo grego elko pode também significar “atrair”.

Tal possibilidade é encontrada nas obras abaixo:

- Novo Testamento Grego das Sociedades Bíblicas Unidas (SBB)
- Dicionário do Novo Testamento Grego de Taylor (JUERP)
- Léxico do Novo Testamento de Gingrich e Danker (VIDA NOVA)
- Léxico Grego Analítico de Moulton (CULTURA CRISTÃ)
- Nova Chave Linguística do Novo Testamento Grego de Haubeck e Siebenthal (TARGUMIM/HAGNOS)
- Chave Linguística do Novo Testamento Grego de Rienecker e Rogers (VIDA NOVA)

Sproul omite tal possibilidade de tradução e significado para elko em João 6.44, como evita também afirmar que em João 12.32 o termo grego elko se repete (elkyso): “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo.”

Neste caso, ficaria difícil para um calvinista manter a mesma interpretação de “compelir por irresistível superioridade” aplicada a elko em João 6.44. Qual a saída então? D. A. Carson apela para os contextos.[2]

Seguindo a lógica de Sproul no uso de elko, João 12.32 não insinuaria algum tipo de universalismo, ou uma eleição generalizada, visto que Cristo compeliria ou arrastaria a todos para si mediante o seu maravilhoso e irresistível cortejo apaixonado?[3] Geisler, ao comentar o referido impasse, declara: “Nenhum calvinista autêntico crê que todos os homens serão salvos.”[4]

É claro, que para superar a dificuldade textual, os calvinistas afirmam também, que enquanto em João 6.44 elko se aplica a indivíduos eleitos, em 12.32 se aplica a grupos de pessoas (judeus e gentios).[5] O mesmo tipo de argumento é usado quando tentam interpretar o amor de Deus por “todos os homens” em algumas passagens das Escrituras.

Em seu comentário de João 6.44 e 12.32, Bruce entende que os respectivos textos enfatizam a iniciativa divina na salvação dos crentes, não esquecendo a responsabilidade de cada um em vir a Cristo, e que ninguém virá se Deus não o persuadir e capacitar para tanto.[6] Tal pensamento, nos termos aqui expostos, se alinha com a ideia de graça preveniente no contexto arminiano, que capacita a vontade humana para aceitar por fé a salvação de Deus em Cristo Jesus.

Por fim, voltando para a principal questão levantada aqui, Sproul poderia ser mais abrangente em seu comentário sobre elko em João 6.44, mas infelizmente, ou deliberadamente, decidiu não o ser.




[1] SPROUL, R. C. Eleitos de Deus. 3 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 52.
[2] CARSON, D. A. O comentário de João. São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 294.
[3] Ibid.
[4][4] GEISLER, Norman. Eleitos, mas livres. São Paulo: Vida, 2005, p. 108.
[5] CARSON, D. A. Ibid., p. 444.
[6] BRUCE, F. F. João: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1987, p. 141.

5 comentários:

Márcio Cruz disse...

A emenda Sprouliana saiu pior que o soneto!

Gilson Barbosa disse...

Graça e paz caro pastor Altair!

John Owen escreveu certa vez: "Não se deixem levar pelo mero som das palavras. Lembrem-se da tendência geral do ensino bíblico, e nunca interpretem um versículo de forma contrária a tendência geral de todas as escrituras". Sendo assim, ainda que Sproul seja "tendencioso" NESTE VERSÍCULO, não está sendo no ensino geral das escrituras.

A divisão da humanidade em dois grupos não é calvinista, é bíblica. É só ler: I Coríntios 10:32; Efésios 2:11-22; Romanos 9:6-18; Mateus 25:2, 32. A Bíblia afirma em Apocalipse 7:14 que a grande multidão diante do trono de Deus eram procedentes de todas as nações, tribos, povos e línguas. Portanto, penso eu que não está errado falar da salvação para os dois principais grupos bíblicos: judeus e gentios. O terceiro grupo (composto destes dois) é a igreja.

Cristo morreu por seu povo, suas ovelhas, sua igreja, seus eleitos, seus filhos. Portanto as expressão "todos" que aparecem na Bíblia deve referir-se sempre a esse grupo e não a cada homem em particular.Obviamente Cristo veio para dar sua vida em resgate de muitos e não de todos. Isso é clássico tanto no calvinismo quanto no arminianismo/wesleyano.

Quanto a graça preveniente trata-se de uma saída de mestre, pois no final de tudo a morte de Cristo não garante a salvação de ninguém, apenas se apropria das condições de uma vida morta nos delitos e pecados, para JUNTO com o pecador efetuar a redenção. Isso é muito parecido com o ensino sobre a graça, proposta pela Igreja Católica Romana - que é semipelagiana.

Por quê esta graça preveniente não é eficiente para salvar as pessoas que se esforçam em deixar suas vidas de escravidão ao pecado, enquanto em outras ela é eficiente? Neste caso, a graça eficaz é resistível?

Admiro sua tenacidade em apresentar as doutrinas arminianas. De fato é uma arminiano de coração. Mas penso que deveria ser mais cordial com os calvinistas em geral, pois são irmãos que buscam viver também como os arminianos, para a glória de Deus.

Que o Senhor continue abençoando grandemente sua vida.

Seu irmão em Cristo,

Gilson Barbosa

Tadeu Costa disse...

A interpretação de R.C.Sproul está corretíssima. Por favor, veja: João 21.6,11; Atos 16.19; Atos 21.30 e Tiago 2.6. Em todos esses textos, o verbo "elko" confirma a interpretação de uma graça irresistível. Arrastar um peixe para rede exige uma força superior, mas se o peixe puder fugir, ele foge! Com a graça de Deus é diferente!!! Quando a Graça atrai uma pessoa, ela vem correndo para os braços de Jesus. Você somente vai entender João 6.44 quando reler João 6.37

ALTAIR GERMANO disse...

Amados, conheço todos os argumentos dos calvinistas. Os amo em Cristo Jesus. Somos salvos pela graça, e isso nos une. Abraços.

Marlon Marques disse...

Paz do Senhor a todos!

O que o irmão Gilson escreveu quanto ao "todos" na Bíblia, não é verídico. TODOS significa TODOS em muitos versículos. Jo 3:16; 1 Tm 2:4;4:10; Tt 2:11; 1 Jo 2;2 ...Portanto, Cristo não morreu somente pela Igreja. Não adianta citar Ef 5:25 como prova de que Cristo morreu somente pela igreja, pois, se for assim, Paulo escreveu que Cristo morreu por ele (Gl 2:20). Nem em Efésios e em Gálata há a palavra "somente".

A questão de que a graça preveniente armínio-wesleyana não garante a salvação de ninguém, é uma questão óbvia. Cristo morreu por todas as pessoas, mas caba a tais pessoas, com a ajuda da graça preveniente que restaura o arbítrio perdido pela Queda, não rejeirar tal graça salvífica (Jo 1:9; Mc 16:16; Rm 10:13)

Parabéns pelo artigo, pr. Altair Germano!

Graça e Paz a todos!