domingo, 18 de janeiro de 2015

O LIVRE-ARBÍTRIO: PERSPECTIVA CALVINISTA E ARMINIANA

O que é o livre-arbítrio? O ser humano tem plena liberdade de escolha e responsabilidade moral por seus atos? O poder de escolher o que é bom foi perdido de forma plena e absoluta com a queda do homem? O homem caído pode crer e se arrepender de seus pecados sem que Deus mude a sua vontade? A Teologia Calvinista diverge da Teologia Arminiana em alguns desses pontos.

O QUE É O LIVRE-ARBÍTRIO

O teólogo calvinista/reformado R.C. Sproul, com base em alguns pensadores cristãos, como o caso de Jonathan Edwards, afirma que duas definições sobre livre-arbítrio precisam ser consideradas: “Livre-arbítrio é a escolha da mente, e a capacidade de escolher o que queremos. Ter livre-arbítrio é ser capaz de escolher de acordo com nossos desejos”.[1]

Os nossos desejos promovem a motivação ou a razão para se tomar uma decisão. Nossas Escolhas são determinadas por nossos desejos. Isso pode ser definido como autodeterminação que é a essência da liberdade.[2]

Como somos criaturas com muitos e diversos desejos, nossas motivações podem gerar conflitos interiores (Rm 7.14-25).[3]

Mesmo quando somos coagidos a agir, como no caso do roubo a mão armada, nossa escolha é livre. Sempre escolhemos o que queremos. Somos livres e autodeterminados. As forças externas podem limitar nossas opções de escolhas, mas não podem destruir completamente a escolha.[4]

Desejos justos produzem escolhas justas e maus desejos resultam em escolhas más.[5]

Os eruditos cristãos a partir do 2º século definiram o livre-arbítrio como: “A capacidade de escolher todas as opções morais que uma situação oferece.”[6]

Norman Geisler, teólogo americano, afirma que o poder da livre-escolha moral nos concede a capacidade tanto de escolher o bem que Deus designou para nós quanto de rejeitá-lo. A origem do mal está no uso indevido da liberdade.[7]

Deus fez o fato da liberdade, enquanto nós somos responsáveis pelos atos da liberdade.[8]

Conforme Bruce Reichenbach, dizer que uma pessoa é livre é a mesma coisa que declarar que, diante de determinadas situações, tal pessoa poderia ter agido de maneira diferente daquela como agiu. Ela não teria sido compelida a agir assim por causas internas próprias (estrutura genética ou compulsões irresistíveis), nem externas (outra pessoa, Deus). O indivíduo é a condição suficiente para o curso da ação escolhido.[9]

Há dois tipos de evidência que sustentam o livre-arbítrio humano: A evidência universal introspectiva e a filosófica.[10]

- Evidência Universal Introspectiva: Sentimos que podemos tomar decisões. Tomar decisões só faz sentido se pudermos escolher entre duas ou mais opções, se pudermos agir de maneiras diferentes.

- Evidência Filosófica: As pessoas são essencialmente capazes de desempenhar atos que são certos ou errados (são chamados atos moralmente significativos), e tais pessoas são responsáveis moralmente por seus atos. Contudo, para que as pessoas possam ser responsabilizadas moralmente por suas ações, precisam ser capazes de agir livremente, tomando decisões diferentes.

A ARGUMENTAÇÃO CALVINISTA/REFORMADA SOBRE O LIVRE-ARBÍTRIO

A Teologia Reformada sustenta a ideia de que o homem caído ficou impossibilitado de desejar e fazer o bem.

Na Confissão de Fé de Westminster, a última das confissões formuladas durante o período da Reforma, em Londres, entre julho de 1643 e fevereiro de 1649, lemos:

O homem, ao cair no estado de pecado, perdeu inteiramente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de sorte que um homem natural, inteiramente avesso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso (Rm 3.9, 10, 12, 23; 5.6; 8.7,8; Jo 6.44, 65; 15.5; Ef 2.1, 5; Cl 2.13; 1 Co 2.14; Tt 3.3-5).[11]

Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção ainda existente nele, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau (Cl 1.13; Jo 8. 34, 36; Fp 2.13; Rm 6.18, 22; Gl 5.17; Rm 7.15.21-23; 1 Jo 1.8, 10)[12]

Alinhado ao pensamento calvinista/reformado, Sproul afirma:

Antes de escolhermos Cristo, precisamos primeiro ter um desejo por Cristo [...]. O homem decaído, em si mesmo e de si mesmo, tem um desejo natural para Cristo? Edwards responde a essa questão com um enfático “Não!” Ele insiste que, na queda, o homem perdeu seu desejo original por Deus. Quando ele perdeu esse desejo, alguma coisa aconteceu a sua liberdade. Ele perdeu a capacidade moral de escolher a Cristo. Ou ele tem esse desejo dentro dele, ou precisa receber esse desejo de Deus. Edwards e todos que abraçaram a visão reformada da predestinação concordam que, se Deus não plantar esse desejo no coração humano, ninguém, deixado a si mesmo, jamais escolherá Cristo. Os homens sempre e em todo o lugar rejeitarão Cristo porque eles não o desejam. Eles livremente rejeitarão Cristo porque eles não o desejam. Eles livremente rejeitarão Cristo no sentido de que sempre agirão de acordo com os seus desejos [...]. Não está dentro da capacidade natural do homem decaído vir a Cristo por si próprio.[13]

Para Packer, o pecado original nos tirou a capacidade de escolher todas as opções morais que uma situação oferece. Não temos capacidade natural de discernir e escolher os caminhos de Deus. Porque não temos inclinação natural em direção a Deus.[14]

A ARGUMENTAÇÃO ARMINIANA

O pensamento teológico arminiano percebe nas Escrituras o fato de que elas estão repletas de exemplos de decisões que pressupõem o livre-arbítrio do homem caído, e a possibilidade de decidir pelo bem, e isso sem precisar que Deus interfira mudando a sua vontade.

Como exemplo, pode-se citar o famoso discurso de Josué (Js 24.14-25), a exortação e os convites de Jesus (Mt 7.13-14; 11.28-30; 16.24-26) e o apelo de Pedro (At 2.37-40).

Como seríamos exortados e convidados a mudar de vida em relação a Deus, se não houvesse em nós a possibilidade do livre desejo por isso?

Norman Geisler argumenta de forma convincente que do começo ao fim da Bíblia nos é dito que os seres humanos possuem livre-escolha. Seres humanos caídos podem livremente aceitar o dom da salvação de Deus:[15]

Responderam-lhe: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa. (At 16.31)

Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; (At 17.30)

Os não salvos possuem livre-arbítrio tanto para receber quanto para rejeitar o dom da salvação que vem de Deus (Mt 23.37; Jo 1.12). A fé é um dom oferecido a todos, e todos têm a responsabilidade de crer, e quem quer que decida crer pode crer (Jo 3.16, 18; 6.37; Ap 22.17)

O pastor e teólogo pentecostal Antônio Gilberto escreve que:

Na Bíblia temos tanto a predestinação divina como a livre-escolha humana, em relação à salvação; mas não uma predestinação em que uns são destinados à vida eterna, e outros, à perdição eterna. Mas a Palavra de Deus não apresenta uma livre-escolha humana como se a salvação dependesse de obras, esforço e méritos humanos. Os extremos nesse assunto (e noutros) é que são maléficos, propalando ensinos que a Bíblia não contém. A ênfase inconsequente à soberania de Deus no tocante à salvação leva a pessoa a crer que a sua conduta e procedimento nada tem com a salvação. Por outro lado, a ênfase inconsequente à livre-vontade (livre-arbítrio) do homem conduz ao engano de uma salvação dependente de obras, conduta e obediência humana. [...] Na realidade, parece incoerente e incompreensível que algo predestinado por Deus admitida livre-escolha ou livre-vontade. Mas, só porque não entendemos algo, ou entendemo-lo apenas em parte, deixa de existir?[16]

Na questão que envolve a soberania de Deus e o livre-arbítrio, pensadores arminianos como Roger Olson afirmam que o arminianismo abraça a ideia de que Deus dirige as escolhas humanas ao fazê-las se encaixarem em seu plano mestre para a história.

A única coisa que o arminianismo rejeita nesta área específica, é que Deus controla todas as escolhas e ações humanas, ou seja, ele limita o seu próprio poder, pois fazendo assim permite ao homem que livremente o ame, que assuma as responsabilidades por seus erros morais, e que seja devidamente recompensado por suas decisões corretas à luz dos princípios éticos e da vontade de Deus revelada nas Escrituras Sagradas. Se Deus controlasse toda escolha e ação humana isto o faria autor do pecado e do mal.[17]

É importante lembrar que há algumas variantes do conceito de livre-arbítrio e da soberania de Deus entre arminianos e calvinistas, que não temos condições de tratar nessa breve e abordagem.

Olson ainda nos lembra que o tema condutor do arminianismo não é a crença no livre-arbítrio, mas o compromisso com certa visão da bondade de Deus; qualquer leitura imparcial de Armínio ou de qualquer um de seus seguidores revelará que este é o caso.[18]

Sobre isso, Wall e Dongel afirmam que:

Embora concordemos que parte da disputa gire em torno do assunto da soberania e liberdade humana, argumentamos que a verdadeira e principal disputa não seja acerca de poder, mas, antes, sobre o caráter de Deus.[19]

O arminianismo, diferente do calvinismo, nos apresenta a figura do Deus bíblico de maneira mais adequada, pois preserva a realidade de um Deus cuja natureza é o amor santo, e que concede o livre-arbítrio ao ser humano para que uma relação de amor recíproco entre criador e criatura seja possível. [20]

Para um maior entendimento sobre a questão do livre-arbítrio humano no contexto do calvinismo e arminianismo, favor consultar as obras aqui citadas.

Altair Germano – Pastor, teólogo, pedagogo, escritor e conferencista. Atualmente é o 1º Vice-Presidente da Assembleia de Deus em Abreu e Lima-PE (COMADALPE), Vice-Presidente do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – CGADB, e membro da Diretoria da Assembleia Administrativa da Sociedade Bíblica do Brasil –SBB.




[1] SPROUL, R. C. Eleitos de Deus. 3. Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 41.
[2] Ibid., p. 43
[3] Ibid., p. 44-45..
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6][6] PACKER, J. I. Teologia Concisa. 2. Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 79.
[7] GEISLER, Norman. Eleitos, mas livres. 2. Ed. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 24.
[8] Ibid.
[9] BASSINGER, David (Org.). Predestinação e Livre-Arbítrio. 2. Ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1996, p. 130-131.
[10] Ibid., 132.
[11] Confissão de Fé de Westminster. 18. Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 88-89.
[12] Ibid., p. 90.
[13] SPROUL, R. C. Ibid., p. 46, 47 e 51.
[14] PACKER, J. I. Ibid., p. 80.
[15] GEISLER, Norman. Ibid., p. 37.
[16] GILBETO, Antônio et al. Teologia Sistemática Pentecostal. 2. Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 368-369.
[17] OLSON, Roger. Teologia Arminiana. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 127.
[18] Ibid., p. 131.
[19] WALLS, Jerry L.; DONGEL, Joseph R. Por que não sou calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014, p. 11.
[20] Ibid., p. 12.

3 comentários:

Xavier Campos Joaquim disse...

Muito bom. Linda abordagem.

Gilson Barbosa disse...

A paz do Senhor caro pastor Altair!

Na verdade, a discussão mais importante é se nossas ações são causadas ou se são indeterminadas.

Uma vontade autônoma escolhe sem nenhuma influência externa entre AxB; mas se a escolha é feita por causas externas então a vontade não é totalmente livre de influencias.

Se a ação fosse sem nenhuma influencia externa isso seria algo de puro acaso, sina, sorte, destino. Porem, sabemos que na vida do cristão não há sina, sorte, destino ou puro acaso.Há a providência de Deus.

Segundo o irmão/teólogo R. K. McGregor Wright o ser humano é responsável diante de Deus por suas ações, sim. Mas a responsabilidade humana não está vinculada simplesmente ao livre-arbítrio do homem, e sim porque Deus é Criador e nós criaturas; porque Deus é o ponto de referência entre o que é certo e errado e não nós próprios; pelo conhecimento que temos da luz e a verdade; porque o propósito da criação é a glória de Deus.

Na questão da salvação penso que o livre-arbítrio é um escravo do pecado, pois geralmente ele nos inclina ao pecado (leia-se todos os pecados "maiores" ou "menores"). Eu poderia citar até mesmo os pecados que os santos servos de Deus cometem, mesmo após a conversão. Ou somos escravos do pecado ou escravos de Deus. Não creio na firmeza da fé de um homem, que ele por sua autonomia escolha a Deus.

Até mesmo as escolhas comuns que fazemos como o que vamos comprar, o que comer, o que vestir, estão pré programadas pela inclinação da nossa vontade.Por fim nossas escolhas até mesmo nestas coisas são orientadas. Não sei explicar exatamente como isso acontece, mas sei que acontece.

Obrigado por ceder este espaço as reflexões. Não sou dono da verdade, estou apenas contribuindo com este blog para reflexão de seus leitores.

No amor de Cristo,

Gilson Barbosa

Eduardo Müller disse...

Pastor Altair, da forma como a parte do arminianismo foi colocado ele se aproxima do semipelagianismo - o homem sendo capaz de escolher servir a Deus - nem mesmo Armínio falou que o homem tem condições de escolher por Deus, o que Armínio escreveu foi que a Graça Preveniente habilita o homem a escolher por Deus durante o chamado do evangelho.

O resultado do posicionamento de Armínio é que nem mesmo aquilo que é chamado de Livre-Arbítrio é de fato tão livre, uma vez que depende da ação divina para a perfeita execução.

Em Cristo