segunda-feira, 18 de agosto de 2014

O CUIDADO COM A LÍNGUA - SUBSÍDIO PARA LIÇÃO BÍBLICA

O MINISTÉRIO DE MESTRE OU DOUTOR: SERIEDADE, PROFUNDIDADE, SIMPLICIDADE E VIVACIDADE

Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo. (At 13.1)

A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas. Porventura, são todos apóstolos? Ou, todos profetas? São todos mestres? Ou, operadores de milagres? (1 Co 12.28-29)

E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, (Ef 4.11)

Para isto fui designado pregador e apóstolo (afirmo a verdade, não minto), mestre dos gentios na fé e na verdade. (1 Tm 2.7)

para o qual eu fui designado pregador, apóstolo e mestre (2 Tm 1.11)

O termo grego διδασκάλους (didaskálous) pode ser traduzido por doutores ou mestres. Jesus é citado como mestre cerca de 40 vezes, designado “rabi” treze vezes, título comum para um mestre público.[1]

Observemos alguns conceitos e considerações sobre o dom ou ministério de doutor ou mestre da Palavra:

Os mestres são aqueles que têm de Deus um dom especial para esclarecer, expor e proclamar a Palavra de Deus, a fim de edificar o corpo de Cristo.[...] A igreja que rejeita, ou se descuida do ensino dos mestres e teólogos consagrados e fiéis à revelação bíblica, não se preocupará pela autenticidade e qualidade da mensagem bíblica nem pela interpretação correta dos ensinos bíblicos. A igreja onde os mestres e teólogos estão calados não terá firmeza na verdade. Tal igreja aceitará inovações doutrinárias sem objeção; e nela, as práticas religiosas e ideias humanas serão de fato o guia que tange à doutrina, padrões e práticas dessa igreja, quando deveria ser a verdade bíblica.[2]

O texto acima faz a associação entre mestres e teólogos com bastante propriedade, pois um mestre é um profundo conhecedor das Sagradas Escrituras, um contínuo estudante das verdades bíblicas.

Mestre é o ministro que recebe de Deus o dom de ensinar. [...] Para isto, aqueles que possuem este importante dom de ensinar devem dedicar-se em fazê-lo com diligência, não esquecendo que os dons espirituais, não obstante a sua procedência divina, dependem também do cuidado e do zelo de quem o recebe. Paulo ensina: “Portanto, se desejais dons espirituais, procurai progredir para edificação da Igreja (1 Co 14.12). “Não te faças negligente para com o dom de Deus que há em ti” (2 Tm 4.14). “Admoesto-te que reavives o dom de Deus que há em ti” (2 Tm 1.6).[3]

Eu acrescentaria ainda às citações bíblicas acima 1 Timóteo 4.15 e 2 Timóteo 2.15.

[...] refere-se ao dom concedido por iniciativa de Deus a alguns de seus servos tendo como objetivo, por meio deles, instruir os discípulos do seu rebanho e defender a fé cristã contra os inimigos da Igreja.[4]

Conforme Urbano Ziles, da perspectiva histórica, a atual titulação de Doutor é de origem eclesiástica. O termo deriva do verbo docere (ensinar). Nos dias de hoje é um grau escolar ou acadêmico obtido mediante provas públicas ou atribuído por uma Universidade a pessoa de reconhecido mérito científico ou público (doutor honoris causa). Com a fundação das Universidades, no início do século XII, os licenciados (mestres), que já integravam o corpo docente, adquiriam a venia regendi como símbolo da mais alta função de docência. O título foi reservado num primeiro momento aos canonistas e decretistas, que protestavam contra o uso pelos mestres de outras Escolas. No século XV o seu emprego foi generalizado pelos mestres em Artes, de Teologia e de Medicina.[5]

No judaísmo, designa-se doutor da lei o especialista e intérprete da Torah. Nos dias de Jesus era comum o título de didáskalos (rabi) para os doutores da Lei. O próprio Jesus foi assim chamado.[6] Na patrística, por exemplo, Basílio o Grande, Gregório de Nazianzo, João Crisóstomo e Atanásio foram chamados de grandes doutores da Igreja do Oriente.[7] Na história das religiões, geralmente é denominado doutor aquele que ensina publicamente a doutrina, o que é sábio em matéria religiosa. Nesse sentido é que os principais mestres da Escolástica foram chamados doutores. Na Idade Média o título de mestre passou a designar o papel e a autoridade do professor, daquele que exerce o magisterium.[8]

Um mestre ou doutor da Palavra não é simplesmente possuidor desse título por méritos acadêmicos, embora a academia possa contribuir muito para o desenvolvimento deste dom, através do ensino-aprendizagem das línguas originais, dos princípios que norteiam a interpretação e exposição bíblica, da teologia bíblica e sistemática, além de outras disciplinas e saberes.

Um mestre ou doutor da Palavra é alguém que necessita e ama a prática da leitura de livros (2 Tm 4.13).

Um mestre ou doutor da Palavra discorre sobre verdades profundas, mas com linguagem simples e acessível aos seus alunos e ouvintes (1 Co 2.1).

Um mestre ou doutor na Palavra deve ensinar na unção e poder do Espírito (1 Co 2.4-5)

Um mestre ou doutor na Palavra não se gloria nos conhecimentos adquiridos, nem em sua capacidade de comunicá-los (1 Co 10.31; Gl 6.14).

Um mestre ou doutor na Palavra é de fato um teólogo, na medida em que não apenas reproduz doutrina, mas questiona e suscita reflexões doutrinárias, produzindo conhecimento através de pesquisas e publicações bem fundamentadas (Lc 1.1-4; At 1.1-3). O mestre ou doutor na Palavra, dessa forma, cumpre o seu ministério enquanto ensina por meio da fala e da escrita (livros, artigos, etc.)

Um mestre ou doutor da Palavra receberá um julgamento mais rígido por isso (Tg 3.1)
.
Um mestre ou doutor na Palavra deve em última instância, ter Jesus como o seu grande referencial, modelo, exemplo (Mt 11.29).

A LÍNGUA E O FALAR

Qual foi a última vez que você falou o que não devia, no tempo errado e de maneira inadequada?

Você é alguém que fala muito (pelos cotovelos)?

Você conhece alguém que de tanto falar bobagens, de tanto falar dos outros, de tanto reclamar e murmurar da vida e de todos é geralmente evitado e rejeitado nas rodas de conversa?

Você conhece líderes e esposas de líderes que comprometeram (ou comprometem) seus ministérios por falar demais? Por sempre estarem dizendo que são vítimas de perseguição, por amaldiçoarem “inimigos”, por uma eterna insatisfação com as circunstâncias?

Você alguma vez já se arrependeu por ter falado pelo impulso do momento, no calor das emoções?

Bem vindo ao mundo do tropeço nas palavras!

Um cavalo bravo que precisa de freio, um leme de uma grande embarcação, um fogo incendiador, uma fonte de águas, uma árvore produtora de frutos. Assim é a língua (Tg 3.3-12).

Como já abordado na lição sobre “O cuidado de falar”, precisamos:

– Ter cuidado com o falar fora do tempo: Há um tempo certo para falar as coisas, e para ficar calado (Ec 3.7). Falar uma verdade, ou tecer uma crítica ou comentário, implica em discernir o momento oportuno. Falar a coisa certa no tempo errado poderá resultar em grandes transtornos. Antecipar a fala, ou falar tardiamente não atitudes que implicam na falta de sabedoria.

– Ter cuidado com o modo de falar: Controlar a maneira de falar, principalmente quando sentimentos de indignação, raiva e ira nos envolvem, não é tarefa muito fácil. Nossas palavras geralmente carregam e expressam no tom os nossos sentimentos. Gritar ou levantar o tom da voz é uma das maneiras de manifestar indignação. Desenvolver a inteligência emocional que nos leva a pensar não antes de falar é um grande desafio a ser alcançado. A grande questão aqui não é a de não demonstrar os sentimentos no falar, mas de perder o controle dos sentimentos e da fala.

“A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira.” (Pv 15.1)

“A língua serena é árvore de vida, mas a perversa quebranta o espírito.” (Pv 15.4)

– Ter cuidado com o que falar: O conteúdo da fala do cristão deve estar livre de mentiras ou jogos semânticos. Mentir descaradamente ou dissimuladamente é pecado. O diabo é o pai da mentira. Uma meia-verdade é também uma meia-mentira. Tentar dissimular através do falar e de jogos semânticos diante de pessoas inteligentes demonstra a falta de inteligência do dissimulador. Palavras de baixo nível não devem fazer parte do vocabulário do cristão. Há pessoas que antes de falar mentiras aos outros, mentem para si mesmos, enganando o seu coração (Tg 1.26). As pessoas falam mentiras para conquistar ou manter-se em posições já conquistadas. Há pessoas que falam para difamar, injuriar, denegrir, humilhar, etc. Tenhamos cuidado com o que falamos, pois seremos julgados por isso.

“Está na boca do insensato a vara para a própria soberba, mas os lábios do prudente o preservarão.” (Pv 14.3)

“A língua dos sábios adorna o conhecimento, mas a boca dos insensatos derrama estultícia.” (Pv 15.2)

“A língua dos sábios derrama conhecimento, mas o coração dos insensatos não procede assim.” (Pv 15.7)

– Ter cuidado com o local de falar: Há locais adequados para determinados tipos de conversar, discussões, etc. O ambiente deve ser considerado na ora de pronunciarmos algumas palavras, de revelarmos alguns fatos, ou de denunciarmos alguns erros. Questões que ganharam publicidade ampla talvez precisem ser esclarecidas na mesma proporção. As instâncias de discussões e soluções de problemas devem ser respeitadas. Muita bobagem e questões desnecessárias já foram faladas dos púlpitos das igrejas, e em salas da Escola Dominical

– Ter cuidado com a responsabilidade de falar: Omitir a fala pode ser considerado um ato de covardia e conveniência egoísta. Na direção do Espírito, fundamentado em princípios bíblicos, o crente não deve temer falar ou se posicionar diante das mais diversas questões que envolvem o cotidiano na família, trabalho, escola, igreja, etc., mas sempre considerando as questões aqui citadas. Como já citado, quanto maior o conhecimento e a posição eclesial, maior será o juízo divino sobre a fala (Tg 3.1).

– Ter cuidado com o "para quem falar": Há pessoas que não podem ouvir certas coisas, que logo distorcem, ou ainda tratam de contar para "todo o mundo", mesmo sendo questões restritas e delicadas. São os tagarelas ou fofoqueiros. Fuja dos tais. 

Haverá casos em que você falará no tempo, do modo, no local, da maneira, e a coisa certa, e mesmo assim sofrerá retaliações, incompreensões e perseguições por isso. Não tema! Confie em Deus, o justo juiz, que a seu tempo, e da sua maneira julgará a questão.

Tenhamos cuidado com a língua. Que ela esteja sob o controle do Espírito! 



[1] WILLIAMS, J. Rodman. Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal. São Paulo: Editora Vida, 2011, p. 898.
[2] Bíblia de Estudo Pentecostal. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida, com referências e algumas variantes. Revista e Corrigida, Edição de 1995, Flórida-EUA: CPAD, 1999, p. 1816.

[3] SOUZA, Estêvam Ângelo de. Os dons ministeriais. Rio de Janeiro: CPAD, 1993, p. 67.
[4] ARAÚJO, Carlos Alberto R. de. A Igreja dos Apóstolos: conceitos e formas das lideranças na igreja primitiva. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 213.
[5] ZILLES, Urbano. Desafios atuais para a Teologia. São Paulo: Paulus, 2011, p. 172.
[6] Ibid, p. 180.
[7] DROBNER, Hubertus R. Manual de Patrologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003, p. 259.
[8] ZILLES, Urbano. Ibid., p. 173.

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