terça-feira, 6 de maio de 2014

O MINISTÉRIO DE APÓSTOLO - SUBSÍDIO PARA LIÇÃO BÍBLICA


Etimologicamente o termo grego πόστολος (apóstolos) significa “enviado” ou “mensageiro”. Uma definição mais ampla é a de que apóstolo seria alguém enviado em missão especial como mensageiro e representante pessoal de quem o enviar.[1]

O APOSTOLADO ESPECÍFICO OU ORIGINAL E O APOSTOLADO GERAL OU EXTENSIVO

A Bíblia de Estudo Pentecostal classifica “apóstolos” num sentido geral, como um ministério que ainda continua sendo necessário para o propósito de Deus na igreja, fazendo uma conexão direta com o trabalho missionário. Dessa forma, o termo “missionário” teria o mesmo sentido de “apóstolo”, ou seja, um representante designado por uma igreja, e cita como referências bíblicas Atos 14.4, 14 (Barnabé e Paulo), Rm 16.7 (Andrônico e Júnia), 2 Coríntios 8.23 (Embaixadores, traduzido do grego apóstoloi).

A mesma Bíblia apresenta também o sentido especial para “apóstolos”, com referência àqueles que viram Jesus após a sua ressurreição e que foram pessoalmente comissionados por Ele a pregar o evangelho e estabelecer a igreja. Nesta classe estão os Doze e Paulo. Neste sentido, o ministério apostólico foi restrito, não tendo sucessores.[2]

Sobre a afirmação de Paulo em 1 Coríntios 15.8, de que foi o “derradeiro de todos” (ARC), a nota de rodapé da Bíblia de Estudo Pentecostal diz:

A declaração de Paulo, “por derradeiro”, não deve ser entendida no sentido absoluto. Paulo foi o último dos apóstolos no sentido de receber um mandato especial através de um encontro com o Senhor ressurreto para integrar a formação do testemunho inicial e fundamental de Jesus Cristo (cf. At 9.3-8; 22.6-11; 26.12-18). Esses apóstolos do NT constituíram o início do alicerce da igreja [...]. Por essa razão, este ofício inicial de apóstolo do NT é ímpar e não repetido. [...] São “apóstolos do Cordeiro” num sentido único (Ap 21.14; 1 Ts 2.6; Jd 17)

O Comentário Bíblico Pentecostal, segue a mesma linha, classificando os apóstolos em dois grupos: “Apóstolos Específicos” e “Apóstolos Gerais”, incluindo na relação dos gerais Tito e outros (2 Co 8.23), Epafrodito (Fp 2.25) e Tiago, irmão de Jesus (Gl 1.19).[3]

Sobre o apostolado no sentido geral, ou seja, além dos Doze e Paulo, Deere argumenta que:
O fato de haver falsos apóstolos (2 Co 11.13) indica que o número de apóstolos, nos tempos do Novo Testamento, não podia ser fixado, pois doutra sorte não haveria qualquer possibilidade dos tais se mascararem de apóstolos.[4]

O apostolado bíblico geral possuía algumas características específicas. Dentre elas Deere cita: Os sofrimentos divinamente tencionados e as perseguições (2 Co 12. 9, 10), o discernimento especial quanto aos mistérios divinos (Ef 3.1-6; 1 Tm 3.16; Rm 11.25-32), a presença de sinais e maravilhas e maravilhas durante a proclamação do Evangelho (Lc 24.49; At 1.8; 14.3 e 15.12), a integridade de caráter (1 Co 1.12; 2.17; 4.2; 7.2) e a autoridade espiritual (Mt 10.1; Mc 3.15; 6.7; Lc 9.1).[5] O apostolado geral não tinha autoridade para produzir Escritura no sentido canônico, e isso é uma clara distinção entre eles e os Doze, incluindo também Paulo.

Conforme Williams, teólogo presbiteriano “renovado”, o significado da palavra “apóstolos” no Novo Testamento pode ser amplo ou restrito. O restrito indica os Doze e Paulo; o amplo, os demais discípulos nomeados e não nomeados. Todos os que são chamados “apóstolos”, segundo Williams, foram enviados pela causa do evangelho.[6]

A ATUALIDADE DO MINISTÉRIO APOSTÓLICO

Embora muitos comentaristas concordem com o fato de que o ministério de apóstolo tenha sido extinto, uma defesa de sua contemporaneidade é feita pelo teólogo pentecostal Jack Deere.

Em primeiro lugar, Deere afirma que o ministério de apóstolo não é um dom, pois nunca foi chamado de charisma. Para Deere, o apostolado é um comissionamento divino.[7] É claro que no sentido geral, ser apóstolo é um dom de Deus, inclusive designado no contexto pentecostal brasileiro como um dos “dons ministeriais” da lista de Efésios 4.11. O que Deere combate com o seu argumento é o posicionamento dos cessacionistas, daqueles que não acreditam na atuação do Espírito Santo nos dias atuais, como operava na igreja apostólica bíblica.

Deere conclui seu argumento sobre a atualidade do ministério de apóstolo da seguinte forma:

Acredito que os 12 apóstolos tenham sido singulares em sua chamada e formaram de fato um círculo fechado. Entretanto, a chamada de Paulo e Barnabé e Tiago, abre a possibilidade de Deus convocar outros apóstolos em qualquer época da história. Nenhum texto específico das Escrituras impede que Jesus apareça e comissione outros ao ofício apostólico. No futuro, Ele comissionará duas testemunhas, que terão poder ainda maior que os apóstolos do primeiro século (Ap 11.3-6).E isso não porá em perigo a autoridade das Escrituras.[8]

No meu entendimento, a afirmação de Deere não significa que o ministério apostólico geral precisa necessariamente de uma aparição de Jesus ao comissionado, pois não há nenhuma evidência bíblica que isso aconteceu com aqueles que são chamados de apóstolos fora do círculo dos Doze e Paulo. Vale lembrar também, que o apostolado de Matias, substituto de Judas Iscariotes, não se inicia com um chamado direto de Jesus, mas debaixo de oração e do “lançar sortes” do colegiado apostólico, juntamente com os demais discípulos (At 1.15-26).
Para Williams, em seu sentido mais amplo:

[...] apóstolo é o enviado, o comissionado, e, portanto, alguém que não se estabelece num local específico ou numa igreja. Ele não tem a autoridade de um apóstolo original nem são suas palavras igualmente inspiradas. Esse apóstolo exerce um ministério itinerante, mas não independente. Ele está baseado numa igreja e a representa, porém ministrando em grande parte num campo mais amplo. Esses apóstolos são sempre essenciais à vida da igreja que compreende seu chamado para ir além de si mesma no cumprimento de sua missão. [...] eles têm um significado vital para a vida da igreja, em todas as épocas.[9]

Discordando das ideias acima, Wayne Grudem afirma que o ofício de apóstolo estava limitado ao tempo quando a igreja primitiva foi fundada. Grudem argumenta que:

Embora alguns hoje usem a palavra “apóstolo” para referir-se a fundadores de igrejas e evangelistas, isso não parece apropriado e proveitoso, porque simplesmente confunde quem lê o Novo Testamento e vê a grande autoridade ali atribuída ao ofício de “apóstolo”. É digno de nota que nenhum dos grandes nomes na história da igreja – Atanásio, Agostinho, Lutero, Calvino, Wesley e Whitefield – assumiu o título de “apóstolo” ou permitiu que o chamassem apóstolo. Se alguns, nos tempos modernos, querem atribuir a si o título de “apóstolo”, logo levantam a suspeita de que são motivados por um orgulho impróprio e por desejos de auto-exaltação, além de excessiva ambição e desejo de ter na igreja mais autoridade do que qualquer outra pessoa deve corretamente ter.[10]

No que discordo de Grudem? Seu argumento contrário a utilização do termo “apóstolo” para o dias atuais não se fundamenta nas Escrituras, mas na tradição histórica da igreja. Não se trata de uma heresia, mas de algo “inapropriado”. Na prática, o trabalho ou missão do apóstolo em seu sentindo amplo, foi o mesmo dos grandes nomes citados por Grudem, que marcaram a história da igreja, independente de como foram “intitulados” ou “denominados”. Dessa forma, não vejo problema na utilização contemporânea do termo “apóstolo”.

No que concordo com Grudem? Com certeza muitos são intitulados ou se auto-intitulam de apóstolos nos dias de hoje, sem que haja em suas vidas e ministério nada que justifique o título ou ofício. Trata-se de mera vaidade. Algumas igrejas no Brasil adotaram a função de apóstolo em sua hierarquia eclesiástica (o indivíduo é pastor, se intitula depois bispo e posteriormente apóstolo ). O fato é que no exercício dessa função muitos acabam não se identificando com o apostolado bíblico, onde fazia parte da vida do apóstolo romper barreiras, estabelecer igrejas e seguir adiante nesse propósito.

Os supostos apóstolos, geralmente são “pescadores de aquário”, ou seja, sua missão é atrair membros de outras igrejas, ou dividi-las, promovendo rachas por mero interesse financeiro ou de poder. Não estão preocupados em ganhar almas nos rincões da terra, no sertão nordestino, na floresta amazônica, nas periferias das cidades, mas sim, pregar nos grandes centros e ali se estabelecerem. Compram horários na TV, e usam todo o tipo de apelação para arrancar dinheiro dos simples e ingênuos expectadores, que acabam cooperando para a multiplicação do patrimônio pessoal dos mesmos (fazendas, coberturas luxuosas, carros extravagantes, cavalos, gado, etc), tudo em nome da vergonhosa “Teologia da Prosperidade e da Vitória Financeira”, que mascara a vergonhosa enganação e exploração que fazem.
Em boa parte dos casos, o título ou ofício de apóstolo na atualidade não é obtido em reconhecimento a uma vocação divina para o apostolado, mas como consideração pela idade avançada, pelo culto a personalidade (personalismo), ou mediante estratégias de políticas eclesiásticas “bajulatórias”.

APÓSTOLOS E MISSIONÁRIOS

É interessante a informação histórica que Araújo nos fornece:

Após a morte dos apóstolos originais o vocábulo grego “apóstolos” deixa de ser aplicado como título aos membros da liderança eclesiástica mais elevada e, a partir do século II, os enviados pelas igrejas às regiões que não conheciam o evangelho passam a ser denominados pelo termo latino missus, significando “enviado” (de mittere, “enviar”), uma vez que prosseguiram a missão dos apóstolos originais sem, contudo, atenderem aos requisitos propostos pelo Onze (cf. At 1.21,22) ou reconhecidos em Paulo (1 Co 9.1). Portanto, é possível afirmar que o vocábulo “apóstolo” tenha se limitado à conotação missionária, sendo então substituído pelo termo “missionários”.[11]

Como já mencionado, a ideia de que o trabalho atual dos missionários se equivale ao ministério apostólico geral é vigente entre os pentecostais clássicos. Nesse sentido, os fundadores da Assembleia de Deus no Brasil, Gunnar Vingren e Daniel Berg, assim como outros missionários suecos, americanos, nacionais, etc., podem ser considerados verdadeiros apóstolos.

Compreendo, que mais importante do que a discussão sobre a utilização do termo “apóstolo” na atualidade (que não deve ser ignorada), é refletir se estamos dando continuidade ao trabalho apostólico bíblico, pregando o evangelho de Jesus no poder do Espírito, em todos os lugares e a todas as pessoas, estabelecendo e edificando igrejas para a glória de Deus!



[1] Bíblia de Estudo Pentecostal. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida, com referências e algumas variantes. Revista e Corrigida, Edição de 1995, Flórida-EUA: CPAD, 1999, p. 1814.
[2] Ibid.
[3] ARRINGTON, FRENCH L.; STRONSTAD, Roger (Ed.) Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 1248.
[4] DEERE, Jack. Surpreendido pelo poder do Espírito. 9. Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 232.
[5] Ibid., p. 233.
[6] WILLIAMS, J. Rodman. Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. São Paulo: Editora Vida, 2011, p. 887-888.
[7] Ibid., p. 235-235.
[8] Ibid., p. 242.
[9] WILLIAMS, Ibid., p. 888-889.
[10] GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 764.
[11] ARÁUJO, Carlos Alberto R. A Igreja dos Apóstolos: conceito e forma das lideranças na Igreja Primitiva. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 207.

Nenhum comentário: