sábado, 31 de maio de 2014

AS ORIGENS DO TEXTO DO NOVO TESTAMENTO DAS VERSÕES DA BÍBLIA ALMEIDA REVISTA E CORRIGIDA E REVISTA E ATUALIZADA

"Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade." (2 Tm 2.15, ARA)

Foi ministrando em diversas Escolas Bíblicas de Obreiros nas Assembleias de Deus no Brasil, que descobri o quanto a grande maioria de nossos pastores e líderes desconhecem as questões que envolvem a tradução da Bíblia para a língua portuguesa, e de forma mais específica aqui tratada, a do Novo Testamento.

No contexto assembleiano brasileiro, a versão da Bíblia adotada para fins litúrgicos e doutrinários, é a Almeida Revista e Corrigida, cujo texto foi adotado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus, em suas publicações oficiais.

A questão que levanto aqui, diz respeito a continuidade da Almeida Revista e Corrigida na condição de versão “oficial” das Assembleias de Deus no Brasil, tendo em vista as mais novas descobertas no campo da crítica textual do Novo Testamento.

Até que ponto, em nome de uma tradição denominacional, ou por outras questões, como por exemplo, a política eclesial, deve-se negligenciar tal discussão, diante das enormes evidencias e descobertas na atualidade?

Para a presente discussão, convidamos a todos que se interessam pelo tema, principalmente pastores, biblistas, linguistas, teólogos e pesquisadores, no sentido de colaborarem com suas opiniões, fundamentados no vasto material bibliográfico e crítico, disponível em língua portuguesa.

O DESENVOLVIMENTO DO TEXTO DO NOVO TESTAMENTO DA BÍBLIA ALMEIDA REVISTA E CORRIGIDA

João Ferreira de Almeida nasceu em Torre de Tavares, próximo a Lisboa, em 1628. Deixou Portugal aos 14 anos de idade, partindo para a Holanda, e de lá para Málaca, nas índias Orientais. No Oriente, Almeida passou a congregar na Igreja Reformada Holandesa, sendo ordenado ao ministério no dia 16 de outubro de 1658. Sua educação teológica se deu com aulas particulares. Almeida não freqüentou Seminário ou Faculdade de Teologia.[1]Exerceu o pastorado na cidade de Batávia, na ilha de Java, até setembro de 1689, vindo a falecer em 1691, aos 63 anos de idade.[2]

A tradução do Novo Testamento a partir do texto grego foi concluída por Almeida em 1670, vindo a ser publicado somente em 1681, onde se calcula uma tiragem de mais de mil exemplares, visto que a terceira edição, de 1972, foi de apenas 1250 exemplares.[3]

Uma parte da página 336 (parte de João 18) do Novo Testamento grego de Erasmo de Roterdã, do primeiro "Textus Receptus" 

Do processo de tradução de Almeida as informações são bastante escassas. Naquela época, o texto grego do Novo Testamento disponível era o Textus Receptus (publicado originalmente por Erasmos de Roterdã, em 1516, com base em alguns poucos manuscritos gregos do século doze e treze).[4] Se Almeida usou a mais recente edição desse texto, logo se deduz que seu processo de tradução partiu da segunda edição publicada pelo irmãos Elzevir, em 1633. Foi através de Elzevir que o texto de Erasmo recebeu o nome de Textus Receptus, oriundo da seguinte descrição feita pelo mesmo: “O que tens aqui, pois, é o texto que hoje é universalmente recebido: nós o apresentamos livre de quaisquer alterações e corrupções.”[5] O Textus Receptus chegou a ser considerado como tendo autoridade canônica, apesar de todos os seus erros, à luz do que se sabe na atualidade.[6] Além do texto grego, Almeida se utilizou para a sua tradução de versões da língua espanhola, francesa, italiana, holandesa e latina.[7]

As edições que se seguiram a tradução de Almeida publicada em 1681 são as de 1693, composta por João Vries, na cidade da Batávia, em Java Maior. Após a terceira edição, publicada em 1712, foi feita uma grande revisão, também na ilha de Java, tendo como membros da Comissão revisora o pastor Mohr e um amigo anônimo. Outra revisão foi feita em Londres, entre 1869 e 1875, e em 1894. Uma pequena revisão ortográfica foi realizada em 1916 em Portugal. Essas edições de Almeida foram trazidas ao Brasil e aqui distribuídas pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira.[8]

No Brasil, em sua Edição Revista e Corrigida, houve revisões do texto de Almeida, onde as edições datam de 1848 (1ª edição), 1969 (2ª edição), 1995 (3ª edição) e 2009 (4ª edição).[9] As novidades da 4ª edição de Almeida Revista e Corrigida são:

- O termo “caridade”, nas passagens em que era utilizado (1 Co 13, Mt 24.12, Rm 12.9, Ef 5.2, etc) foi substituído por “amor”;

- O “S.” de “Santo” ou “São” que aparecia anteposto aos nomes dos escritores bíblicos foi eliminado;

- Alguns verbos foram alterados para refletirem com mais exatidão e clareza o sentido do texto original grego, como por exemplo, em 1 João 3.4, 6, 8, 9;

- Foram incorporadas as mudanças previstas na reforma ortográfica da língua portuguesa, vigente a partir de 2009.

O DESENVOLVIMENTO DO TEXTO DO NOVO TESTAMENTO DA BÍBLIA ALMEIDA REVISTA E ATUALIZADA

No ano de 1943, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira juntamente com a Sociedade Bíblica América, que atuavam no Brasil naquele tempo, resolveram preparar e publicar uma revisão da tradução de Almeida. Essa revisão, que, a partir de 1948, passou aos cuidados e responsabilidade da Sociedade Bíblica do Brasil, viria a ser conhecida como a Almeida Revista e Atualizada. A Comissão de revisão contou com biblistas e vernaculistas de renome, membros das mais diversas denominações evangélicas presentes no Brasil por ocasião dos trabalhos. A revisão do Novo Testamento foi publicada em 1952. A revisão do Antigo Testamento foi concluída em menos tempo, em 1956, pois uma comissão se dedicou a essa tarefa em tempo integral. A Bíblia toda foi publicada em 1959. A 2ª segunda edição de Almeida Revista e Atualizada foi publicada, no Brasil, em, 1993.[10] O texto vigente da 2ª edição de Almeida Revista e Atualizada já está em conformidade com a reforma ortográfica de 2009.

Uma das principais diferenças entre as edições Revista e Corrigida e Revista e Atualizada diz respeito ao texto grego adotado como base para a tradução do Novo Testamento. Como já mencionamos, no século XVII, Almeida dispunha apenas do Textus Receptus (Texto Recebido), que tem sua origem no Novo Testamento grego editado por Eramos de Roterdã, em 1516, e baseado em alguns poucos manuscritos gregos copiados durante a Idade Média. O texto recebido era o único texto grego disponível naquele tempo.[11]


A 4ª edição do Novo Testamento Grego

Durante os séculos 19 e 20, foram descobertos manuscritos gregos mais antigos, muitos deles datados do quarto século d.C. e até mesmo antes disso. Foi com Karl Lachman (1793-1851), um professor de filologia clássica em Berlim, que se iniciou os questionamento sobre a continuidade da relevância do Textus Receptus como base das traduções do Novo Testamento: Fora com o Textus Receptus, que é de origem mais recente, e de volta ao texto da Igreja antiga do quarto século!”. Este lema marcou o trabalho das gerações seguintes, que culminou nos dias atuais com a 4ª edição revisada do Novo Testamento Grego, publicada pelas Sociedades Bíblicas Unidas, em 1993. As edições anteriores do Novo Testamento Grego (The Greek New Testament) datam de 1966 (1ª edição), 1968 (2ª edição) e 1975 (3ª edição). 

A Comissão que revisora da atual edição do Novo Testamento Grego partiu da elaboração de uma seleção textual totalmente nova, fundamentada em testes de verificação de toda a tradição manuscrita grega disponível no Instituto de pesquisa Textual do Novo Testamento, em Münster, na Alemanha. O critério para se aceitar o testemunho de versões e Pais da Igreja foi a disponibilidade de toda a evidência confiável para o texto do Novo Testamento que estes apresentam, à base da pesquisa erudita de nossos dias.

A 4ª edição do Novo Testamento Grego, juntamente com a 27ª edição de Nestle-Aland, é a mais conhecida e mais usada por comissões de tradução da Bíblia em todo mundo.[12] Os especialistas afirmam que, a menos que se descubram novos manuscritos, o estudo do texto do Novo Testamento Grego está concluído.

Foi exatamente a partir da 16ª edição do Novo Testamento Grego editado por Erwin Nestle, considerado o melhor texto grego na época, que a Almeida Revista e Atualizada foi elaborada.[13]

Se o texto grego para a versão de Almeida Revista e Atualizada é melhor que o texto grego utilizado para a Almeida Revista e Corrigida, qual a razão, enquanto denominação, em insistirmos no uso “oficial” de uma versão comprovadamente já superada, em relação ao que hoje temos como texto mais próximo dos originais do Novo Testamento? 

Estariam os especialistas equivocados? Fazem eles parte de uma "conspiração" contra o Textus Receptus como alguns acusam? Estão eles a serviço de meros interesses comerciais ou institucionais? Até que hajam provas no sentido de desqualificar os especialistas envolvidos na produção do atual texto crítico do Novo Testamento, penso ser de extrema urgência ponderar e agir em relação às questões aqui levantadas e consideradas.

Sequenciaremos nossa discussão, apresentando as principais diferenças textuais entre as versões Almeida Revista e Corrigida e Almeida Revista e Atualizada, e suas implicações para a interpretação e exposição (pregação e ensino) do Novo Testamento nos dias atuais, em especial no contexto pentecostal assembleiano brasileiro, para quem originalmente escrevo.

Pr. Altair Germano 

Abreu e Lima-PE, 31/05/2014




[1] ALVES, Herculano. João Ferreira de Almeida, tradutor da Bíblia in A tradução da Bíblia para a língua portuguesa: 325 anos da 1ª edição do Novo Testamento em português. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2007, p. 23-24.
[2] SCHOLZ, Vilson. Bíblia de Almeida: sua origem, as revisões e os princípios envolvidos in 1600 anos da primeira grande tradução ocidental da Bíblia: Jerônimo e a tradução da Vulgata Latina. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006, p. 7-11.
[3] Ibid., p. 9-10.
[4] ALAND, Kurt; ALAND, Barbara. O texto do Novo Testamento: introdução às edições científicas do Novo Testamento Grego bem como à teoria e prática da moderna crítica textual. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013, p. 5.
[5] Ibid., p. 6.
[6] Ibid., p. 8.
[7] ALVES, Herculano. Ibid., p. 24-32.
[8] SCHOLZ, Vilson. Ibid., p. 18-20.
[9] Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.
[10] Bíblia de Estudo Almeida. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006.
[11] Ibid.
[12] O Novo Testamento Grego: com introdução em português e dicionário grego-português. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
[13] Bíblia de Estudo Almeida. Ibid.

Um comentário:

Edmilson Sales disse...

Excelente explanação Pr Altair Germano, aprecio seus comentários! Deus te abençoe ricamente