sexta-feira, 11 de abril de 2014

O PROPÓSITO DOS DONS ESPIRITUAIS - SUBSÍDIO PARA LIÇÃO BÍBLICA



Há sem dúvida alguma questões em torno dos propósitos dos dons espirituais que precisam ser esclarecidas.

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE OS DONS ESPIRITUAIS

A concessão dos dons espirituais não está fundamentada nos méritos humanos (1 Co 12.11b, 18). É o Espírito que distribui os dons, a cada um, como bem quer (soberanamente). Cargos e funções na igreja podem ser concedidos pelos líderes por amizade, paternalismo, politicagem, interesses pessoais etc., mas o Espírito não age assim. Ele é santo e reto. Não se barganha com o Espírito, nem ninguém pode comprá-lo;

Os dons espirituais não nos tornam melhores do que ninguém (1 Co 12.10-27). O dons espirituais não são um atestado de boa conduta, nem transforma o caráter cristão. Apesar da manifestação dos dons na igreja de Corinto, uma série de problemas de ordem moral, familiar, eclesial etc. lá aconteciam. Os portadores dos dons espirituais não são crentes de primeira classe, nem devem se vangloriar pelos dons, pois são concedidos para a edificação pessoal e da igreja (1 Co 14.4) mediante a graça e a misericórdia de Jesus;

- O batismo com o Espírito Santo não é prerrogativa para se receber todos os dons espirituais (1 Co 1.1-7). A não ser no caso do dom de variedade de línguas (por questões lógicas e óbvias da Teologia Pentecostal), entendo que os demais dons de manifestação do Espírito não necessitam do batismo com o Espírito Santo para atuarem na vida do crente salvo (alguns declaram que para interpretar as línguas é necessário ser batizado com o Espírito Santo). Na vida de milhares de servos de Deus os dons de manifestação do Espírito estão presentes por se crer em sua atualidade, sem que todos estes sejam batizado com o Espírito Santo. O pastor Antonio Gilberto, comentando a lição bíblica do 2º Trimestre de 2009, afirma que Daniel tinha o dom da palavra da sabedoria (Dn 1.17; 5.11, 12; 10.1), em Eliseu operava o dom da palavra da ciência (2 Rs 5.25, 26) e em Aías (1 Rs 14.1-8), Moisés, Elias, Eliseu e inúmeros outros servos de Deus tinham o dom de operação de maravilhas (Js 10.12-14; Jo 6; At 8.6, 13; 19.11;). Eram Moisés, Daniel, Elias, e Eliseu batizados com o Espírito Santo, para que estes fenômenos através de suas vidas se manifestassem? Certamente você conhece irmãos e irmãs, servos e servas de Deus (das mais variadas igrejas, inclusive tradicionais) que manifestam em suas vidas alguns dos dons de manifestação do Espírito, sem serem batizados com o Espírito Santo (revestimento de poder evidenciado pelo falar em outras línguas).

- A biblicidade dos dons (At 17.11). Nenhuma tradição, credo ou teologia está acima da verdade revelada nas Santas Escrituras. Nenhum ensino doutrinário e teológico dever ser recebido passivamente, sem a devida análise crítica e investigação, considerando os princípios da boa e saudável hermenêutica bíblica.

- A não exclusividade dos dons (1 Co 12.11, 18). Nenhuma denominação evangélica é detentora dos direitos e privilégios exclusivos da manifestação do Espírito, que opera tudo em todos.

- Dons e integridade de caráter (Mt 7.15-27). Conforme bem colocado por Stanley Horton[1], os dons dão testemunho da bondade de Deus, e não da virtude de quem os recebem. Uma falácia que frequentemente engana as pessoas é a ideia de como Deus abençoa ou usa alguém; isso significa que Ele aprova tudo o que a pessoa faz ou ensina. Mesmo quando parece haver uma “unção”, não há garantia disso. Conheço gente que na igreja fala línguas, profetiza, etc., e não trata bem a esposa, os filhos, além de dar um mal testemunho onde reside, estuda e trabalha. Trata-se aqui de carisma sem um bom caráter. David Prior destaca que a rica variedade da operação do Espírito Santo no corpo de Cristo não tem nenhuma relação com a maturidade cristã ou com os méritos pessoais.[2]

- Dons e espiritualidade (1 Co 3.1-4; Gl 5.16-26). A verdadeira espiritualidade é manifesta através de uma vida plena do Espírito, onde os dons e o fruto do Espírito estão presentes e manifestos. A igreja em Corinto era plena dos dons (1 Co 1.7), mas muitos ali eram carnais (1 Co 3.1). Dessa forma, é possível ser “carismático”, “renovado” ou “pentecostal” e ser carnal. Foster nos informa que um certo pregador envolvido em um caso de adultério se defendeu perante sua esposa dizendo: “O que estou fazendo não pode ser errado. As pessoas estão encontrando o Senhor quando ouvem minha pregação.” E era mesmo. Mas o referido pregador falhara em distinguir entre um dom espiritual e espiritualidade.[3] Foster ainda nos relata que um jovem amigo seu de ministério chegou próximo de repudiar o dom de línguas, em razão de que por um determinado momento em sua vida pôde exercitar o dom e ao mesmo tempo viver em pecado.[4]

O PROPÓSITO DOS DONS ESPIRITUAIS

Dentre os propósitos dos dons espirituais estão:

- Fim ou utilidade proveitosa (1 Co 12.7). O termo grego para útil ou proveitos é symphéro, que significa dar uma contribuição consistente e relevante, agregar valor, tornar melhor, proporcionar lucro.[5] Trata-se de buscar o proveito de todos.[6] O foco da concessão dos dons do Espírito não é somente o benefício do indivíduo em si, mas acima de tudo busca a edificação da comunidade cristã, e até dos não-crentes (1 Co 14.19-25):

Os dons espirituais, quando empregados conforme o modelo, têm um propósito divino de bênçãos distintas para os descrentes e também para as igrejas de Deus. Para este fim, é essencial que esses dons sejam usados com ordem [...].[7]

Em seu comentário de 1 Coríntios, João Calvino afirma que o Espírito não nos confere os dons em vão e nem os destina para que sirvam ao propósito da ostentação. Dessa forma, se torna indispensável que perguntemos com que propósito os dons são conferido? Responde o próprio Calvino que a este respeito, Paulo responde “com vistas à utilidade”, ou, seja, para que a Igreja receba benefícios provindos deles.[8]

Kistemaker comenta que:

A evidência da presença do Espírito na vida do crente serve ao bem comum da comunidade inteira. O Espírito usa os dons do cristão individual para a edificação da Igreja (comparar com Ef 4.12), um tema que Paulo mais tarde aplica em sua discussão sobre a utilidade de falar em línguas (14.4). A intenção aqui é promover o bem comum e proibir qualquer pessoa de usar um dom em proveito pessoal. Paulo não descarta que o dom em si pode trazer benefício para a pessoa, mas Deus confere seus dons sobre seu povo para que todos possam ser edificados (14.26).[9]

Dentro da mesma linha de pensamento Morris escreve:

Algum dom é dado a cada um. Estes dons não são para rivalidade e inveja, mas visando a um fim proveitoso. [...] Conquanto seja verdade que o homem que tem um dom espiritual recebe proveito por meio dele, a vantagem é mais ampla. Outras pessoas também tiram proveito. Na verdade, este é o ponto visado aí. Os dons espirituais sempre são dados para serem utilizados, e o seu uso é para a edificação de todo o corpo de crentes, não para algum possuidor individual do dom.[10]

Para Lopes, a finalidade do dom espiritual é:

[...] ajudar alguém, fazer algo para alguém, trabalhar por alguém e realizar alguma coisa por alguém. Não é uma espiritualidade intimista e subjetiva. O dom sempre está se desdobrando em trabalho, ação, e realização em benefício de alguém. A finalidade do dom é a realização de alguma obra e ajuda concreta a alguém.[11]

A diversidade dos dons é oportunidade para o serviço mútuo. O que é absolutamente igual não tem condições de se complementar. Ajudar é privilégio reservado ao diferente. O dom não serve somente para usufruto privado.[12]

O ponto, conforme Horton, é que:

Todo dom que o Espírito Santo distribui é dado por meio de indivíduos “para o que for útil”, para o bem comum, para o bem do corpo local com um todo. Os dons ajudarão a edificar a assembleia local, tanto espiritual quanto numericamente, da mesma maneira que os dons do Espírito Santo o fizeram no livro de Atos.[13]

Emílio Conde, diante dos propósitos dos dons, entende que:

A igreja que se diz cristã e não possui os dons do Espírito, pouco ou nada pode prosperar: o seu crescimento será deficiente, moroso: vegetará em vez de crescer. Não será unida, porque lhe falta o Espírito de união. Os dons do Espírito são as jóias com que a Noiva de Cristo (a Igreja) se deve adornar, para o grande dia, o dia das Bodas do Cordeiro.[14]

- Unidade (1 Co 12.12-27). O texto de 1 Co 12.12-27, que trata da unidade orgânica da Igreja, nos possibilita a compreensão de verdades essenciais para a transformação da nossa maneira de ser, pensar, falar e agir sobre este organismo vivo e espiritual no qual estamos inseridos, do qual fazemos parte.

a) Fomos todos batizados em um corpo (v. 13a). Em termos orgânicos e espirituais, a Igreja não é formada de “corpos”, antes, é um corpo formado de “membros”. Os verdadeiros cristãos, independente de onde estejam, separados por barreiras denominacionais, doutrinárias, ideológicas, conceituais, geográficas, sociais ou qualquer outra, são membros “colocados” para dentro de um único corpo.

b) Bebemos todos de um só Espírito (v. 13b). O Espírito é a fonte de onde emana vida espiritual. Pelo Espírito somos saciados e nutridos com a vida de Deus. Todo o corpo com os seus membros podem funcionar perfeitamente, pois não haverá escassez desta água renovadora. Todos podem beber, pois não há acepção de órgãos. Não privilégios apenas para alguns. A fonte é abundante e inesgotável.

c) Temos sentido de ser e fazer apenas na relação com o outro (v. 14-23). A interdependência é a tônica que rege os órgãos do corpo. Um órgão não tem sentido sem o outro, pois só existe para servir, não é um mero adereço no corpo. Nenhum órgão subsiste naturalmente fora do corpo. Só no corpo ele “é”, e apenas no corpo ele “faz”, se realizando numa relação de reciprocidade de serviço e de utilidade. Ser órgão é ser “parte de”, e não “ser em si”.

d) Precisamos ter cuidado com o que pensamos e dizemos (v. 15, 16 e 21). O pensamento precede a fala. A boca fala daquilo que o coração está cheio. A fala manifesta os segredos da alma. O fato de achar e dizer que não somos do corpo não nos tiram do corpo. Afirmar que não precisamos dos dons uns dos outros, além de manifestar arrogância, revela também o nosso auto-engano. Precisamos sim um dos outros. Não podemos negar isto com ações ou palavras. Isolados não iremos longe. Isolados morreremos.

e) Contentemo-nos com a posição que ocupamos no corpo (v. 18 e 24). É necessário saber que é Deus quem dispõem, coloca, coordena e concede lugares, funções e honras no corpo. Não é simplesmente uma escolha pessoal, antes, se trata de uma determinação soberana e graciosa. Soberana, pois tudo é de Deus, e graciosa, pois não é meritória, não é fruto de nossas obras ou méritos pessoais ocupar este ou aquele lugar, esta ou aquela função, receber esta ou aquela honra. Tudo é dele e para Ele.

f) Cuidemos uns dos outros com igual cuidado (v. 25). É preciso entender que somos como membros do mesmo corpo e portadores dos dons do Espírito, cuidadores. Cuidar implica em nutrir, suster, socorrer, ajudar, ouvir, apoiar e outras ações. Mas, não devemos apenas ser cuidadores. Precisamos cuidar de todos sem acepção, sem preferencialismos. É fazer o bem sem ver a quem. Trata-se de ação misericordiosa e desinteressada. Cuidar é amar. Cuidar é fazer o que deve ser feito, norteado pelos mais nobres sentimentos e objetivos.

g) Soframos com o sofrimento alheio (v. 26a). A indiferença para com o sofrimento dos outros órgãos do corpo, por suas disfunções, enfermidades, carências ou doenças, não é uma atitude esperada ou desejada de quem está comprometido com o todo. Chorai com os que choram. Se coloque no lugar do outro. Tente perceber suas dores, medos, temores, ansiedades, angústias e frustrações.

h) Alegremo-nos com a alegria alheia (v. 26b). A inveja, conceituada como “profunda tristeza com o sucesso, conquistas, vitórias, bênçãos e felicidade dos outros” pode impedir, de alegrarmo-nos com a alegria do no nosso irmão, do outro membro. Celebremos, festejemos, regozijemo-nos, alegremo-nos quantas vezes for necessário com a forma de Deus honrar o nosso próximo.

i) Tenhamos uma visão geral do corpo (v. 27a). Uma visão geral nos possibilita uma compreensão macro da unidade, da comunhão, da interdependência, da grandeza, da beleza, da magnitude, da força, da vitalidade, do crescimento, da força, da inteireza de ser corpo de Cristo, onde os dons se manifestam. Trata-se de uma visão onde o “eu” se funde com o “tu” formando um “nós”.

j) Tenhamos uma visão sistêmica do corpo (v. 27b). Tal visão nos proporciona uma percepção mais apurada e individualizada da multiplicidade dos dons, das funções (multifuncionalidade) dos órgãos e membros, das suas particularidades, atribuições e interligações. Das nossas possibilidades de agregar valor ao corpo, e do valor que os demais membros agregam a este corpo.

Uma compreensão da unidade orgânica do corpo que opera através dos dons do Espírito é vital para o seu próprio crescimento, para a manutenção de sua saúde e funcionalidade, tanto numa perspectiva do todo, como na perspectiva de cada membro deste corpo. Cresçamos cada vez mais em unidade para a glória de Deus.

- Edificação (1 Co 14.1-5; 26-28). O termo grego oiokodome (edificação), originado de oikos (casa) e dymeo (construir), fala de progresso, crescimento na vida cristã pessoal e comunitária em sua com relação com Deus e com o próximo. Paulo utiliza bastante o termo edificação de maneira metafórica com referência à edificação do caráter cristão.[15] A edificação através dos dons pode ser pessoal ou congregacional. Como exemplo, o que fala em línguas edifica-se a si mesmo, enquanto o que profetiza edifica a igreja (1 Co 14.4). As línguas somente promoverão edificação se houver interpretação (1 Co 14.5).

Conforme nota de rodapé da Bíblia de Estudo Pentecostal:

O propósito principal de todos os dons espirituais é edificar a igreja e o indivíduo (VV. 3, 4, 12, 17, 26). “Edificar” (gr. oikodomeo) significa fortalecer e promover a vida espiritual, a maturidade e o caráter santo dos crentes. Essa edificação é uma obra do Espírito Santo através dos dons espirituais, pelos quais os crentes são espiritualmente transformados mais e mais para que não se conformem com este mundo (Rm 12.2-8), mas edificados na santificação, no amor a Deus, no bem-estar do próximo, na pureza de coração, numa boa consciência e numa fé sincera [...].[16]

A edificação no contexto do culto esta diretamente relacionada com a ordem do mesmo. Quando há caos no culto, os adoradores não recebem benefício espiritual algum, pois a desordem atrapalha o modo de ouvir, aprender e crer.[17]

Quando conhecemos os propósitos dos dons do Espírito, nos tornamos aptos a exercê-los biblicamente para a glória de Deus e edificação dos homens.
 


[1] HORTON, Stanley M. O que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo. 5. Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p. 225.
[2] PRIOR, David. A mensagem de 1 Coríntios: a vida na igreja local. 2. Ed. São Paulo: ABU Editora, 2001, p. 210-211.
[3] FOSTER, K. Neill. Um caminho melhor: uma terceira perspectiva sobre línguas. Belo Horizonte: Aliança Cristã e Missionária, 1987, p. 30.
[4] Ibid., p. 31.
[5] Bíblia de Estudo Palavra-Chave Hebraico e Grego. Rio de Janero: CPAD, 2011, p. 2408.
[6] RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 317.
[7] GEE, Donald. A respeito dos dons espirituais. Miami, Flórida: Editora vida, 1987, p. 27.
[8] CALVINO, João. 1 Coríntios. 2. Ed. São Bernardo do Campo, SP: Edições Parakletos, 2003, p. 377-378.
[9] KISTEMAKER, Simon. 1 Coríntios. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 582.
[10] MORRIS, Leon. I Coríntios: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1981, p. 136-137.
[11] LOPES, Hernandes Dias. 1 Coríntios: como resolver conflitos na igreja. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 229.
[12] BRAKEMEIER, Gottfried. A primeira carta do apóstolo Paulo à comunidade de Corinto: um comentário exegético-teológico. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2008, p. 160-161.
[13] HORTON, Stanley M. I e II Corintíos: os problemas da igreja e suas soluções. Rio de Janeiros: CPAD, 2012, p. 113.
[14] CONDE; Emílio. Pentecoste para todos. Rio de Janeiro: CPAD, 1985, p. 100.
[15] MORRIS, Leon. Ibid., p. 100.
[16] Bíblia de Estudo Pentecostal. Flórida, EUA: CPAD, 1995, p. 1762.
[17] KISTEMAKER, Simon. Ibid., p. 702.

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