sexta-feira, 4 de abril de 2014

E DEU DONS AOS HOMENS - SUBSÍDIO PARA LIÇÃO BÍBLICA



Iniciaremos no presente trimestre o estudo sobre os dons Espirituais e Ministeriais com uma introdução geral sobre o assunto.

TERMOS ORIGINAIS

O termo grego para “dom” no sentido em que estamos estudando é charisma. Barclay afirma que no NT a palavra ocorre dezessete vezes, catorze nas epístolas paulinas gerais, duas nas pastorais e uma vez em 1 Pedro. O termo, segundo Barclay[1];

(1)  É usado para aquilo que podemos chamar de “dádivas da graça”, e envolve também as charismata (dons espirituais), conforme 1 Co 12.31.
(2)  É usado para “graça e perdão” de Deus na situação em que o julgamento e a condenação teriam sido a perfeita justiça (Rm 5.15-16; Rm 6.23).
(3)  É usado em relação aos “dotes naturais” que o homem possui (1 Co 7.7; 1 Pe 4.10).
(4)  É usado como “dom que é implantado no homem quando é ordenado ao ministério” (1 Tm 4.14; 2 Tm 1.6).
(5)  É especialmente utilizado para todos “os dons especiais que podem ser exercidos no serviço da Igreja” (Rm 12.6-8; 1 Co 12.8-10, 28-30).

A ideia básica da palavra é a de um dom gratuito e imerecido, alguma coisa dada ao homem sem trabalho nem merecimento, algo que vem da graça de Deus e que nunca poderia ter sido realizado, galgado ou possuído pelo esforço do próprio homem.

Não apenas a graça, mas também a soberania de Deus se relaciona com a concessão dos dons (1 Co 12.11; Ef 4.11; Atos 13.1-4; 20.24, 28; 2 Tm 1.8-11)

CONCEITOS  E CONSIDERAÇÕES SOBRE OS DONS

Os dons (gr. charismata), podem ser considerados como manifestações do Espírito, concedidas pela graça de Deus, como expressões do poder de Deus, como atos de serviço que promovem prioritariamente (e quase que exclusivamente) o bem comum, a edificação da Igreja, e que nunca devem ser instrumentos para ao engrandecimento do eu, de qualquer tipo de promoção pessoal. Os charismata não devem ser restringidos em seu alcance e expressão (1 Co 12.7; Ef 5.18-19; 1 Ts 5.19-20), nem devem ser objeto de abusos por meio de exageros, ou pela falta de discernimento crítico aplicado a eles (Rm 12.3; 1 Co 2.12-14; 1 Ts 5.19-22; cf. 1 Co 12.3; 2 Ts 2.2).[2]

Na perspectiva pentecostal clássica, na qual se enquadra as Assembleias de Deus, temos algumas posições citadas abaixo:

Os dons espirituais, que são pela graça, mediante a fé, encontram-se na palavra grega mais usada para descrevê-los: charismata, “dons livre e graciosamente concedidos”, palavra esta que se deriva de charis, graça, o imerecido favor divino. Os carismas são dons que recebemos sem merecermos. Dão testemunho da bondade de Deus, e não da virtude de quem os recebem. Uma falácia que frequentemente engana as pessoas é a ideia de como Deus abençoa ou usa alguém; isso significa que Ele aprova tudo o que a pessoa faz ou ensina. Mesmo quando parece haver uma “unção”, não há garantia disso. (Stanley M. Horton).[3]

A observação de Stanley Horton de que os dons não são atestados de integridade de caráter, e nem de compromisso ortodoxo encontra seu fundamento, por exemplo, em Mateus 7.15-27.
Os dons do Espírito são os meios pelos quais os membros do corpo de Cristo são habilitados e equipados para a realização da obra de Deus. Sem os dons do Espírito, ao invés de a Igreja ser um organismo vivo e poderoso, seria apenas mais uma organização humana e religiosa. [...] A manifestação dos dons na igreja sempre dependeu de suas condições espirituais. Em períodos esporádicos, num lugar ou noutro, os dons têm desaparecido, não porque Deus os retirasse da Igreja e, sim, por falta de condições apropriadas para a operação divina. É no ambiente de pureza, de santidade, de temor a Deus, de simplicidade, de humildade e de obediência à sã doutrina que o Espírito Santo realiza a sua bendita obra de distribuição dos dons. (Estevam Ângelo de Souza).[4]

As observações de Estevam Ângelo são da perspectiva coletiva da igreja, e não individual, como a ênfase dada por Horton. O fundamento para a possibilidade do comprometimento da manifestação dos dons se encontra em 1 Tessalonicences 5.19.

Há muitos que extinguiram a operação dos dons na atualidade por não crerem na sua contemporaneidade, ou em nome de uma ordem litúrgica (culto) engessada, fossilizada e formalizada. É preciso que haja ordem no culto, mas é preciso também que o Espírito opere com liberdade, e para a glória de Deus (1 Co 14.39-40)

Agora podemos compreender melhor quão glorioso é ser batizado com o Espírito Santo e receber os dons que o Espírito reparte a cada um, como ele quer. Deus não nos chamou somente para sermos membros do seu corpo, mas para que sejamos membros em ação, mas isso só pode acontecer com a capacitação dada pelo Espírito Santo. [...] É verdade, existem igrejas cristãs que vivem sem o poder sobrenatural, e fazem todo o seu trabalho usando meios humanos. Apesar disso, os seus membros estão satisfeitos com tal situação e crêem que deve ser assim, pois nunca tiveram os seus olhos abertos nem provaram das coisas celestes. (Lewi Petrus).[5]

Comparo as observações de Petrus com a cura do cego realizada em dois estágios (Mc 8.22-26). É fato de que muitos crentes e igrejas estão se privando da maravilhosa e poderosa ação de todos os dons do Espírito por não enxergarem a necessidade, possibilidade e realidade em recebê-los.

Raimundo de Oliveira cita o pastor Antonio Gilberto ao definir os dons do Espírito Santo como:

Uma dotação ou concessão especial e sobrenatural de capacidade divina para serviço especial na execução do propósito divino para a Igreja e através dela”.[6]

Afirma ainda que:

A Igreja de Cristo da nossa geração possui uma responsabilidade apostólica, e, para cumpri-la, necessita dos grandes recursos espirituais, que são os dons do espírito Santo.[7]

Sem dúvida alguma, a obra de Deus não poderá ser realizada sem o poder de Deus operando em nós e através de nós.

Tomando por base o texto de Atos 19.6, Donald Gee considera que:

Esta passagem, como as passagens paralelas, mostra que existe uma ligação íntima entre os dons sobrenaturais do Espírito e o batismo inicial com o Espírito Santo. Os dons espirituais constituíam um dos resultados esperados daquela bênção na vida e atividade das assembleias. Estes dons enriqueciam as reuniões das igrejas, sendo o resultado de os crentes estarem individualmente cheios do Espírito Santos.[8]

É interessante perceber que a afirmação de Gee “ligação íntima” não parece implicar em algo imprescindível. Declaro isto pelo fato de muitos entenderem que sem o batismo com o Espírito Santo nenhum dom “sobrenatural” pode ser manifesto na vida, ou através da vida de um cristão. Vale lembrar que desde o Antigo Testamento milagres, curas e maravilhas acontecem no poder de Deus e do seu Espírito, mesmo sem haver um “batismo com o Espírito Santo” nos moldes de Atos dos Apóstolos. Até mesmo em igrejas e na vida de crentes chamados de “tradicionais” ou o agir sobrenatural do Espírito se faz presente. Nem tudo que se chama tradicional é sinônimo de “cessacionista”, ou seja, uma crença de que os dons “sobrenaturais” já não operam mais.

Jack Deere é enfático ao tratar sobre as tradições e os dons do Espírito Santo ao escrever que:

Se você trancasse um crente recém-convertido em uma sala, com uma Bíblia, e lhe dissesse para estudar o que as Escrituras dizem sobre curas e milagres, ele jamais sairia daquela sala como um cessacionista. Sei disso por experiência própria. Esse (o cessacionismo) não é um sistema doutrinário que se adota espontaneamente. Foi preciso que me ensinassem que os dons do Espírito haviam passado. [...] Estou absolutamente convencido de que as Escrituras não ensinam que os dons do Espírito passaram com a morte dos apóstolos. Não é o ensino bíblico que tem levado pessoas a desacreditarem no ministério miraculoso contemporâneo. [...] É comum acusar-se os pentecostais de edificarem sua teologia sobre a experiência pessoal. Entretanto, os cessacionistas, em última análise, edificam sua teologia a respeito dos dons miraculosos sobre sua falta de experiência.[9]

A CLASSIFICAÇÃO DOS DONS

Para efeito de estudo (didática), algumas terminologias e classificações são utilizadas para descrever os dons do Espírito Santo, tais como “dons espirituais”, “dons sobrenaturais”, “dons ministeriais”, “dons de liderança”, “dons de serviço”, etc. Entendo ser importante afirmar que em última instância todos os dons do Espírito são “ESPIRITUAIS” (pneumatikôn)e “MINISTERIAIS” (diakonían), pelo simples fato de que todos são concedidos pelo Espírito  e para o serviço  ao próximo em todas as suas variadas formas ou manifestações.

Existe ainda o equívoco de reduzir os dons do Espírito a apena nove, com base apenas no texto de 1 Coríntios 12.8-10. É preciso considerar outras listas, tais como a de Romanos 12.6-8, Efésios 4.11, e ainda 1 Co 12.28-30.

Em seu livro “Descubra seus dons espirituais”, Peter Wagner identifica vinte e sete dons espirituais (obviamente nem todos concordam com a lista, que deve ser analisada criticamente), que merecem nossa atenção e consideração. São eles: 

1 – Profecia
2 – Serviço
3 – Ensino
4 – Exortação
5 – Contribuição
6 – Liderança
7 – Misericórdia
8- Sabedoria
9 – Conhecimento
10 – Fé
11 – Cura
12 – Milagre
13 – Discernimento de Espíritos
14 – Línguas
15 – Interpretação de Línguas
16 – Apóstolo
17 – Socorro
18 – Administração
19 – Evangelista
20 – Pastor
21 – Celibato
22 – Pobreza Voluntária
23 – Martírio
24 – Hospitalidade
25 – Missionário
26 – Intercessão
27 – Exorcismo ou Libertação

No Brasil a obra de Peter Wagner foi prefaciada pelo pastor Eude Martins (pastor pentecostal), que na época era o Diretor da Editora Vida e Vice-Presidente da ABEC. Em seu prefácio quero destacar as seguintes afirmações:

Ele (Peter Wagner) não se identifica nem com os pentecostais, nem com os carismáticos, nem com os movimentos neo-pentecostais, nem com a teologia tradicional. [...] Trinta anos atrás a atualidade dos Dons Espirituais em sua plenitude, era uma crença exclusiva das igrejas pentecostais e considerada pelos demais grupos evangélicos como resultado de um conhecimento superficial da teologia bíblica. Desde então, a convicção bíblica dos Dons Espirituais são também para os nossos dias alicerçou-se de tal forma entre os crentes, que hoje é quase impossível encontrar uma comunidade evangélica onde os Dons Espirituais estejam completamente banidos da fé de todos os seus membros.[10]

O comentário do pastor Eude Martins aponta para a busca de certa neutralidade por parte do autor ao tratar sobre o assunto, ao mesmo tempo em que confirma uma clara realidade acerca da manifestação dos dons do Espírito nas igrejas evangélicas no Brasil.

Sigamos adiante e nos aprofundemos no estudo de tão “fervoroso” tema.
 

[1] BARCKAY, William. Palavras Chaves do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000, p 40.
[2] COENEN, Lothar; BROW, Colin. Dicionário Internacional do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 736, v. 1.

[3] HORTON, Stanley M. O que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo. 5. Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p. 225.
[4] SOUZA, Estevam Ângelo de. Nos domínios do Espírito: defendendo e compartilhando a experiência pentecostal. 4. Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1998, p. 121 e 123.
[5] PETRUS, Lewi. O vento sopra onde quer. 3. Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p. 75-78.
[6] OLIVEIRA, Raimundo F. A doutrina pentecostal hoje. 3. Ed. Rio de Janeiro: CPAD 1982, p.87.
[7] Ibid.
[8] GEE, Donald. A respeito dos dons espirituais. Miami, Flórida: 1987, p. 11.
[9] DEERE, Jack. Surpreendido pelo poder do Espírito. 9. Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 57-59.
[10] WAGNER, C. Peter. Descubra seus dons espirituais. 5. Ed. São Paulo: Abba Press, 2009, p. 10.

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