quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A ATUALIDADE DOS CONSELHOS PAULINOS - SUBSÍDIO PARA LIÇÃO BÍBLICA

A presente lição divide-se basicamente em duas questões: O alegrar-se no Senhor, e o cuidado com os maus obreiros e os seus falsos ensinos.

ALEGRAI-VOS NO SENHOR

[...] fazendo sempre, com alegria, súplicas por todos vós, em todas as minhas orações [...]” (Fp 1.4)

“[...] completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento.” (Fp 2.2)

Entretanto, mesmo que seja eu oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, alegro-me e, com todos vós, me congratulo.” (Fp 2.17)

Por isso, tanto mais me apresso em mandá-lo, para que, vendo-o novamente, vos alegreis, e eu tenha menos tristeza.” (Fp 2.28)

Quanto ao mais, irmãos meus, alegrai-vos no Senhor. A mim, não me desgosta e é segurança para vós outros que eu escreva as mesmas coisas.” (Fp 3.1)

Portanto, meus irmãos, amados e mui saudosos, minha alegria e coroa, sim, amados, permanecei, deste modo, firmes no Senhor.” (Fp 4.1)

Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos.” (Fp 4.4)

Alegrei-me, sobremaneira, no Senhor porque, agora, uma vez mais, renovastes a meu favor o vosso cuidado; o qual também já tínheis antes, mas vos faltava oportunidade.” (Fp 4.10)

A alegria é um tema recorrente na carta de Paulo aos filipenses. Regozijar-se no Senhor é uma exortação, uma ordem, um mandado. Não é algo que experimentamos passivamente. Temos que fazer algo para que nos regozijemos, e é algo que somos capazes de fazer.[1]

Lloyd-Jones nos alerta para o fato que a alegria no Senhor não significa “entreter” as emoções com música, ou qualquer outro tipo de coisa que proporcione algum tipo de sentimento bom. Também não significa forjar uma aparência de alegria, quando interiormente não se está alegre (manter as aparências).[2]

A expressão grega chaírete en kyrío (alegrai-vos no Senhor), implica em se alegrar em comunhão com ele ou por causa dele, ou com a alegria dada por ele.[3]

Alegrar-se no Senhor é uma condição que depende de nossa percepção daquilo que somos em Cristo, de nossa posição nele, e daquilo que disto resulta, como por exemplo o fato de nada poder nos separar do seu amor (Rm 8.38-39). A alegria no Senhor é algo possível de ser vivenciado em meio às aflições, quanto temos consciência de sua vitória sobre o mundo (Jo 16.33).[4] É por esta razão, que mesmo em meio à aflição, Paulo faz dezesseis referências a “alegria” ou “regozijo” nesta epístola.[5]

Devemos nos alegrar no Senhor por aquilo que Ele é, por causa de sua bondade, santidade e verdade. Devemos nos alegrar no Senhor, pois isto colabora para esperança daqueles que em meio às aflições, decepções, calamidades, tragédias e infelicidade, buscam respostas confortantes. Devemos no alegrar no Senhor, pois isto nos beneficia, promovendo fortalecimento e encorajamento em meios às nossas próprias lutas.[6]

É preciso fazer uma distinção entre “alegria” e “felicidade”:

Feliz e afortunado são termos paralelos. Afortunado vem da palavra latina “fortuna” que tem a ver com situações externas mas que afetam a você pessoalmente. Poderíamos chamá-la de emoção circunstancial. Se suas circunstâncias são favoráveis, então sua reação para com elas é positiva e você fica feliz. Mas alegria é outra coisa bem diferente porque tem haver com as profundezas de seu ser. Compare tal estabilidade com o mar. A poucos quilômetros de profundidade no oceano, a milhares de metros abaixo da superfície, você descobre que nenhum efeito é causado por qualquer circunstância que ocorra na superfície. Nas profundezas a temperatura permanece constante. Nenhuma tempestade ou bater de ondas perturba o fundo do mar. Como nas camadas inferiores dos oceanos, é a alegria inspirada por Deus.[7]

Que bela ilustração. Podemos sofrer no corpo e na alma, sem que tais sofrimentos abalem as estruturas de nossa fé e confiança em Deus. Podemos derramar lágrimas, e ao mesmo tempo sentirmos o gozo da alegria no Senhor!

Regozijar-se no Senhor é a única alegria que jamais falhará conosco.[8]

GUARDAI-VOS DOS CÃES E DOS MAUS OBREIROS

No comentário de Hernandes Dias Lopes sobre Filipenses lemos:

Ralph Martin diz que os cães eram considerados animais imundos na sociedade oriental. Werner de Boor ainda diz que no antigo Oriente o cão não era o companheiro fiel e amado do ser humano, mas um animal semi-selvagem que vagueava em matilhas, caçando a presa aos latidos. É assim que Paulo vê seus adversários metendo o nariz e latindo suas heresias em todas as regiões. [...] Agora, porém, Paulo inverte os papéis e se refere aos falsos mestres como cães, ou seja, aqueles que viviam perambulando ao redor da igrejas gentias, tentando “abocanhar” prosélitos, ganhar novos adeptos para seu modo de pensar e viver (Mt 23.15). Tais cães e maus obreiros prejudicavam a boa causa.[9]

Para um judeu os cães eram as mais miseráveis e desprezíveis de todas as criaturas, e usavam o termo para se referir aos gentios. É bem provável que tal pensamento foi concebido por causa das matilhas de cães que perambulavam pelas cidades orientais, sem lar e sem dono, alimentando-se nos lixos das ruas, lutando entre si mesmos e atacando os passantes.[10]

Martin acha plausível a ideia de que Paulo estivesse, ironicamente, utilizando um termo que seus inimigos judeus usavam para injuriar os convertidos das igrejas gentias - crentes gentios não circuncidados (cães), em Filipos e na Galácia – e devolvendo-o furiosamente.[11]

O termo grego traduzido por “maus” em Filipenses 3.2, que se refere aos obreiros (gr. ergatas) citados por Paulo, é kakous, derivado de kakós, que significa literalmente “de má qualidade, desprezível, impostor, perverso, mau, de coração, conduta e caráter.[12] Trata-se aqui de indivíduos que trazem prejuízos e danos à obra e ao Evangelho.[13]

Nos dias atuais, assim como entre os filipenses dos tempos de Paulo, temos maus obreiros (cães) rodeando e se infiltrando na igreja. Eles promovem o legalismo (ênfase em normas e tradições que não se sustentam e contradizem a Palavra), o liberalismo (ideias teológicas heréticas e racionalistas), o relativismo moral (postura ética e comportamental inadequada) e o mercantilismo (fazem da igreja e do ministério uma atividade comercial com fins lucrativos).
A questão é tão grave que Paulo utiliza por três vezes o termo “acautelai-vos” ou “guardai-vos” (gr. blépete), que significa “precaver-se”, “cuidar-se”, “preocupar-se”, “vigiar”, “estar atento”.[14]

Sigamos prudentemente os conselhos do apóstolo Paulo!


[1] LLOYD-JONES, Martyn. A vida de paz: comentário sobre filipenses. Tradução de Odayr Olivetti. São Paulo: PES, 2008, p. 10.
[2] Ibid., p. 10-14.
[3] HAUBECK, Wilfrid; SIEBENTHAL, Heinrich Von. Nova chave lingüística do Novo Testamento Grego: Mateus-Apocalipse. Tradução de Nélio Schneider.  São Paulo: Targumim/Hagnos, 2009, p. 1124.
[4] Ibid.
[5] SHEED, Russel P.; MULHOLLAND, Dewey M. Epístolas da prisão: uma análise de Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 161.
[6] LLOYD-JONES, Martyn. Ibid., p. 15-17.
[7] SHEED, Russel P.; MULHOLLAND, Dewey M. Ibid., p. 161.
[8] LLOYD-JONES, Martyn. Ibid., p. 18.
[9] LOPES, Hernandes Dias. Filipenses: a alegria triunfante no meio das provas. São Paulo: Hagnos, 2007, p. 186-187.
[10] RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave lingüística do Novo Testamento Grego. Tradução de Gordon Chow e Júlio Paulo T. Zabatiero. São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 412.
[11] MARTIN, Ralph P. Filipenses: introdução e comentário. Tradução de Oswaldo Ramos. São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 139.
[12] ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento. Tradução de Paulo Sérgio Gomes. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 465.
[13] LOUW, Johannes; NIDA, Eugene. Léxico grego-português do Novo testamento: baseado em domínios semânticos. Tradução de Vilson Scholz. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasi, 2013, p. 671.
[14] ROBINSON, Edward. Ibid., p. 159-160.

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