quinta-feira, 11 de outubro de 2012

FAMÍLIA: AGENTE DE PRESERVAÇÃO E TRANSMISSÃO DOS PRINCÍPIOS E VALORES BÍBLICOS (3)




Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o SENHOR, teu Deus, se te ensinassem, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir; para que temas ao SENHOR, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados. Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os cumprires, para que bem te suceda, e muito te multipliques na terra que mana leite e mel, como te disse o SENHOR, Deus de teus pais. Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas. (Dt 6.1-9, ARA)

O texto de Deuteronômio 6.1-9 é um clássico da educação que tem a Bíblia como referencial. Nele, de forma clara e objetiva se observa o privilégio e a responsabilidade da família na educação dos filhos. 

O Senhor estabeleceu mandamentos, estatutos e juízos, que deveriam orientar a vida do seu povo na terra que eles iriam possuir. O termo “mandamento” (hb. miswah), significa ordem, lei, ordenança, preceito, e tem haver com os aspectos legais da vida em sociedade. Os “estatutos” (hb. hoq), envolvem os costumes, que se relacionam estritamente com as questões culturais. Por “juízos” (hb. mispat) entende-se as sentenças judiciais, os julgamentos que deveriam estar fundamentados na retidão e justiça. 

Como podemos observar, as normas foram dadas pelo Senhor, e eram indispensáveis para uma boa convivência, uma boa ordem social, e para o temor e glória do seu próprio nome. As normas deveriam “ensinar” (hb. lamadh), ou seja, instruir ou educar o povo.

Uma vez aprendido, os mandamentos, estatutos e juízos deveriam ser compartilhados com as novas gerações, para que dessa maneira se perpetuassem. O bem comum da nação dependeria da sua determinação em atentar e guardar durante todo o tempo as ordens do Senhor, o que resultaria também no prolongamento de sua existência, crescimento e desenvolvimento:

“para que temas ao SENHOR, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados. Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os cumprires, para que bem te suceda, e muito te multipliques na terra que mana leite e mel, como te disse o SENHOR, Deus de teus pais.

A base da obediência do povo ao único Deus verdadeiro deve ser o amor:

Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força.”

O amor, mais do que mera verbalização, é sentimento que brota do mais profundo do ser, e que se manifesta de forma concreta em atitude, em obediência, em submissão incondicional a Deus.

Uma vez estabelecida a base teórica, normativa e legal que regeria o povo, faltava apenas especificar a maneira pela qual as gerações futuras receberiam tais conteúdos. O processo educativo seria agora especificado:

Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração;

Antes de ser compartilhada com as gerações futuras, a palavra do Senhor precisa ser guardada, observada e praticada pela geração presente. A autoridade de alguém para compartilhar conhecimentos depende da disposição em aplicá-los a si mesmo.

O ensino não deve ser uma mera demonstração arrogante e vaidosa de domínio didático, sapiencial ou persuasivo. O ensino deve ser uma demonstração de vida, de exemplo. A eloquência maior não é aquela que flui da fala, mas da existência, da vida. 

“tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.”

A palavra ordenada pelo Senhor deveria ser “intimada” ou “inculcada” (hb. sanan) aos filhos. O sentido de intimar e inculcar conforme o termo hebraico é afiar, apontar, amolar. Em sentido figurado é utilizado para denotar agudez, a capacidade da palavra em atingir de forma profunda o ouvinte ou aprendiz. A ideia em Deuteronômio 6.7 é a de que a palavra fosse gravada nos corações dos filhos, assim como foi gravada nas tábuas de pedra da Lei, mediante um objeto agudo.[1] O ato de falar (hb. dabhar) seria este objeto. A oralidade no ensino desempenhou um importante papel na antiguidade, e em especial na vida em família.

O espaço educativo onde o ensino aconteceria seria o ambiente familiar, a casa, o lar. No dia a dia das relações familiares o processo ensino-aprendizagem deveria fluir entre pais e filhos.

Analisando a sociedade contemporânea, e nela as relações familiares, percebemos o quanto se torna cada vez mais distante o ideal prescrito pelo Senhor para preservação e transmissão de sua Palavra no lar.

A família está cada vez mais dispersa, pai e mãe trabalham fora, os filhos ficam em creches, escolas de tempo integral, com os avós, babás ou outros cuidadores. Quando conseguem estar debaixo do mesmo teto, em casa, os membros da família ficam enclausurados em seus aposentos, ou em seus mundos virtuais particulares, através da internet, tv, etc. No caminho para a igreja, escola ou lazer, as coisas não são diferentes, dentro do mesmo carro ninguém conversar, cada um fica na sua. 

A família raramente está junta, e quando assim está não interage, não se comunica, não se percebe, não se curte, e o pior, não compartilha a palavra de Deus, fundamento para uma vida familiar com qualidade, para uma vida cristã que em tudo exalta o Pai. 

Se desejarmos cumprir com a nossa missão doméstica de educar os filhos na Palavra do Senhor, e assim obedecê-lo em amor, é preciso sair do nível das intenções e caminhar em direção às ações concretas.

É preciso dedicar mais tempo à família. É preciso, além disso, dedicar mais tempo para ensinar a Palavra de Deus em família.

Abreu e Lima-PE, 10/10/2012


[1] Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.

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