O estudo sobre os Doze Profetas Menores será relevante na medida em que aprendermos e aplicarmos aos nossos
dias as suas preciosíssimas lições.
O
HOMEM E A SUA VOCAÇÃO PROFÉTICA
Amós era natural de Tecoa, um
povoado que ficava ao sul de Jerusalém, a menos de 20 km da capital de Judá (Am
1.1). Sua atividade antes de exercer o ministério profético era a de boieiro (vaqueiro)
e de cultivador de sicômoros (Am 7.14). Não se sabe ao certo se na condição de
boieiro Amós era proprietário de um pequeno rebanho ou um assalariado. A atividade
de cultivador de sicômoros, fruto comestível, implicava em arranhar as frutas
com a unha ou com um objeto de metal antes que amadurecessem, para que dessa
forma ficassem doces.[1]
O
PROFETA, O LUGAR E A ÉPOCA EM QUE EXERCEU O SEU MINISTÉRIO
O ministério profético de
Amós foi exercido em Betel (hb. bet-’el, casa
de Deus). A cidade de Betel chamava-se Luza, mas os israelitas, ao se apropriarem
da região, passaram a chamá-la como o nome do santuário cananeu. A narrativa
histórica sobre Abraão e Jacó faz menção de Betel (Gn 12.8; 13.3-4; 28.10-22).
Após o cisma entre as tribos do norte e do sul, em aproximadamente 931 a.C.,
Betel foi transformado em santuário nacional pelo rei Jeroboão I, que aí
instalou a imagem de um touro (I Rs 12.26-33). Amós profetizou quando Uzias era
o rei de Judá, e Jeroboão II (filho de Joás, reinava em Israel, por volta de
760 a.C.
OS
DESTINATÁRIOS DA MENSAGEM PROFÉTICA DE AMÓS
As primeiras mensagens
proféticas de Amós são direcionadas a Damasco (1.3), Gaza (1.6), a Tiro (1.9),
a Edom (1.11), a Amom (1.13) e a Moabe (2.1). Como é de se esperar, quando as
profecias são juízos de Deus contra os inimigos de Israel, o povo se une e
aplaude o profeta. A sétima mensagem profética é também bem recebida, pois se
destina a Judá (2.4), cuja rivalidade com o reino do Norte era ainda grande.
Conheço “profetas” hábeis na
arte de profetizar contra os “inimigos” de uma instituição ou da liderança, mas
não se portam da mesma maneira quando as coisas na instituição para quem
profetizam, ou na liderança da mesma não vão bem. Amós não era esse tipo de
profeta, levado pela conveniência.
A oitava mensagem de Amós se
volta contra a própria nação de Israel, denunciando as mazelas da classe dominante, do
sistema vigente, injusto e opressor. Amós não recuou diante da difícil
e impopular tarefa de profetizar contra os seus ouvintes.
A
MENSAGEM PROFÉTICA DE AMÓS
Entre os pecados denunciados
por Amós estavam:
- O luxo das classes
dominantes:
Ai
dos que repousam em Sião e dos que estão seguros no monte de Samaria; que têm
nome entre as primeiras nações. E aos quais vem a casa de Israel. [...] que
dormis em camas de marfim, e vos estendeis sobre os vossos leitos, e comeis os
cordeiros do rebanho e os bezerros do meio da manada; que cantais ao som do
alaúde e inventais para vós instrumentos músicos como Davi; que bebeis vinho em
taças e vos ungis com o mais excelente óleo, mas não vos afligis pela quebra de
José. Eis que, agora ireis em cativeiro entre os primeiros que forem cativos, e
cessarão os festins dos regalados. (Am 6.1, 4-7)
Os pecados do tempo de Amós
não se repetem em nossos dias? Basta olhar para os líderes evangélicos que
multiplicam seu patrimônio através do uso indevido dos dízimos e das ofertas
das lavadeiras, pedreiros, ambulantes, viúvas pensionistas, e até dos mais bem
remunerados e posicionados socialmente.
Conheço líderes que possuem
um rico patrimônio, pois já eram bem sucedidos em suas atividades
profissionais. Outros enriqueceram “do dia para a noite”, se utilizando dos
recursos da igreja, alegando “autoridade dada por Deus para isso”. Que
vergonha, que vexame, que insensatez!
Como pode um líder cristão
adquirir apartamentos e coberturas em prédios de luxo, fazendas, gados, carros
luxuosíssimos e outros bens, e ainda assim ficar com a consciência tranquila
diante da condição da maioria? O Senhor julgará os que assim praticam.
E o que falar das “vacas de
Basã” (Am 4.1)? As mulheres em Samaria incitavam os maridos para manter a
opressão e o luxo, pois do mesmo também desfrutavam. Não nos parece as “vacas
de Basã” com as esposas de líderes cristãos inescrupulosos, aquelas que passam
o dia (e todos os dias) nos shoppings procurando as últimas novidades, os
recentes lançamentos? Que entregam o trabalho de oração às irmãs simples da
igreja, enquanto o seu próprio trabalho é gastar, gastar e gastar? Para as
vacas de Basã Amós profetizou:
Jurou
o Senhor Jeová, pela sua santidade, que dias estão para vir sobre vós, em que
vos levarão com anzóis e a vossos descendentes com anzóis de pesca. E saireis
pelas brechas, uma após outra, e vos lançareis para Hermom, disse o Senhor.
(Am 4.2-3)
- A injustiça social:
Portanto,
visto que pisais o pobre e dele exigis um tributo de trigo, edificareis casas
de pedras lavradas (casas luxuosas), mas nelas não habitareis; vinhas
desejáveis plantareis (sítios e fazendas), mas não bebereis do seu vinho.
Porque sei que são muitas as vossas transgressões e enormes os vossos pecados;
afligis o justo, tomais resgate e rejeitais os necessitados na porta. (Am
5.11-12)
Reparem na riqueza de
detalhes desta mensagem, e das suas similaridades com situações vivenciadas em
nossos dias. Líderes exigem tributos (dízimos e ofertas), como já falamos,
aumentam o patrimônio pessoal escandalosamente, enquanto irmãos necessitados
deixam de ser atendidos e socorridos pelos mesmos líderes nos seus gabinetes
pastorais. Os necessitados pedem socorro e ajuda, mas o líder nunca pode atendê-los,
sempre ocupado em reuniões para tratar dos “negócios”, ou desfrutando do
conforto e privilégios de suas riquezas injustas.
- A formalidade no culto e na
adoração a Deus
Aborreço,
desprezo as vossas festas, e as vossas assembleias solenes não me dão nenhum
prazer. E, ainda que me ofereçais holocaustos e ofertas de manjares, não me
agradarei delas, nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais
gordos. Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as
melodias dos teus instrumentos. (Am 5.21-23)
Assim como fez Isaías acerca
de Judá e Jerusalém (Is 1.1, 10-20), Amós também anuncia o aborrecimento de
Deus diante da hipocrisia manifesta nas festas e reuniões solenes de adoração.
Uma festa após outra, um
aniversário após outro, um culto após outro, e nada de mudança de atitude, de
submissão, de obediência à Palavra de Deus. Nunca se fez tanta festa em meio a
tanta injustiça: [...] os verdadeiros
adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque o Pai procura a tais
que assim o adorem. (Jo 4.23)
ACUSAÇÃO
E REJEIÇÃO DO MINISTÉRIO PROFÉTICO DE AMÓS
Como
era de se esperar, por não compactuar com os interesses dos poderosos e do “rei”,
Amós é acusado de conspiração contra o rei e “convidado” a se retirar de
Israel:
Então,
Amazias, o sacerdote de Betel, mandou dizer a Jeroboão, rei de Israel: Amós tem
conspirado contra ti, no meio da casa de Israel; a terra não poderá sofrer
todas as suas palavras. Porque assim diz Amós: Jeroboão morrerá à espada, e
Israel certamente será levado para fora de sua terra em cativeiro. Depois,
Amazias disse a Amós: Vai-te, ó vidente, foge para a terra de Judá, e ali come
o pão, e ali profetiza; mas, em Betel, daqui por diante, não profetizarás mais,
porque é o santuário do rei e a casa do reino. (Am
7.10-13)
Todo líder opressor e explorador possui
bajuladores a seu serviço. Amazias, o sacerdote de Betel, se enquadra perfeitamente
nesse perfil. Bajuladores estão sempre procurando “conspiradores”, ou seja,
aqueles que não se enquadram no “esquema” ou “sistema” do rei. Que na direção
do Espírito alertam e denunciam o pecado. Quando os bajuladores assim agem,
estão na verdade defendendo os seus próprios interesses e privilégios.
Bajuladores não são amigos do “rei”, são oportunistas descarados. Você conhece
algum?
“Foge para a terra de Judá [...] e ali profetiza”. Como já falamos,
é sempre mais confortável quando a profecia é direcionada para os outros.
Amazias manda que Amós retorne ao seu lugar de origem.
Outro fato é digno de nota
na fala de Amazias: “não profetizarás
mais, porque é o santuário do rei e a casa do reino”. Nos dias atuais, muitos
líderes cristãos estão fazendo da igreja propriedade particular. São os donos
do santuário. Governam como donos, e quando estão para jubilar ou morrer tratam
de transferir o “seu” ministério ou o “seu” campo (o santuário e a casa do
reino) para alguém da família.
Com certeza, como foi nos
dias de Amós, Deus julgará os que na atualidade rejeitam a advertência do
Senhor, e escolhem viver conforme as suas próprias concupiscências.
Para encerrar, penso que a
melhor maneira é usando uma das frases proferidas por Amós: “Bramiu o leão, quem não temerá? Falou o
Senhor Jeová, quem não profetizará?” (Am 3.8)
Jundiaí-SP, 22/10/2012
[1]
SILVA, Airton José. A voz necessária: encontro com os profetas do século VIII
a.C. São Paulo: Paulus, 1998, p. 51-52.

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