sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A DESPENSA VAZIA. Subsídio para Lição Bíblica (3º Trimestre/2012)

Fui moço e agora sou velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar o pão.” (Sl 37.25)

PALAVRAS-CHAVE

‘azabh – Abandonado, desamparado.

tsadiq – Justo, reto, aqueles que se enquadra no padrão ético e moral de Deus (Gn 6.9; 2 Sm 23.3; Pv 29.2; Ez 23.45; Ml 3.18).

zera‘ – Semente, posteridade, descendentes.

baqas – Pedir, implorar, suplicar, desejar.

INTRODUÇÃO

A escassez de alimento é uma realidade que pode ser vivenciada pelo crente, sem que isso signifique que ele esteja em pecado ou que seja considera injusto por Deus.

O Salmo 37.25 precisa ser bem compreendido, pois tem sido interpretado e ensinado de maneira equivocada por muitos. Nas traduções da Bíblia em português o termo hebraico bagas é traduzido geralmente por “mendigar”, que para nós tem um sentido muito pejorativo, pois lembra a atividade de um mendigo, aquele indivíduo maltrapilho que anda de casa em casa, ou que se senta nas calçadas para pedir esmolas.

É preciso em primeiro lugar deixar claro que a declaração feita no Salmo 37.25 é de Davi, e não de Deus. É Davi quem afirma não ter visto um justo (aquele que anda conforme os padrões éticos e morais de Deus) desamparado, nem a sua descendência mendigando pão (pedindo, implorando, suplicando).

Em segundo lugar, pedir, implorar ou suplicar pelo atendimento e socorro de necessidades básicas não significa necessariamente adotar a postura do mendigo maltrapilho, embora no Novo Testamento temos o caso de um mendigo chamado Lázaro que ao morrer foi para o lugar dos justos, o seio de Abraão:

Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele. E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. E aconteceu que o mendigo morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico e foi sepultado. E, no Hades, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão e Lázaro, no seu seio. (Lc 16.19-23, ARC)

Deus garante o suprimento dos justos, dos que buscam em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça (Mt 6.25-34) , mas as formas de suprir tais necessidades é Ele quem em soberania e graça determina.

A PROVISÃO DE DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO

No Antigo Testamento podemos citar alguns exemplos da provisão de Deus das necessidades básicas;

- Provendo para o povo de Israel no deserto (Êx 15.23-27; 16.1-36; Dt 29.5-6)

- Estabelecendo leis de ajuda e socorro aos pobres (Êx 23.10-11; Lv 19.9-10; 23.22; Dt 15.7-8)

- Provendo para Elias junto ao ribeiro de Querite (I Rs 17.1-7) e em Sarepta (17.8-16)

- Provendo para uma viúva através do ministério de Eliseu (2 Rs 4.1-7)

Como se percebe, as maneiras de Deus suprir as necessidades de seu povo, filhos e criaturas são diversas.

A PROVISÃO DE DEUS NO NOVO TESTAMENTO

No Novo Testamento, onde a possibilidade de escassez de suprimento básico é também mencionada, encontramos outros exemplos da provisão de Deus, principalmente através da mobilização em favor dos necessitados, ou seja, da prática ou serviço social. Sobre isso, entendo ser interessante uma abordagem mais ampla, que segue abaixo, e que já foi publicada em outros subsídios de lições bíblicas anteriores, sobre o referido tema.

A COMUNIDADE DOS BENS

Existem evidências históricas de que a “comunidade dos bens”, entendida como a participação comum de um grupo em todos os bens dos membros deste grupo, foi idealizada por Pitágoras (Kenner, 2004, p. 345) como um modelo utópico e ideal de convivência. Williams (1996, p. 78) e Champlin (2001, p. 824) fazem referência citação de Filo louvando os essênios por esta prática. Josefo (2005, p. 827) relata sobre os essênios: “Possuem todos os bens em comum, sem que os ricos tenham maior parte que os pobres”. E ainda, “Assim, eles se servem uns dos outros e escolhem homens de bem da ordem dos sacerdotes, que recebem tudo o que eles recolhem de seu trabalho e têm o cuidado de fornecer alimento a todos” (Ibid.).

O Novo Testamento registra em várias passagens esta prática (Jo 12.6; Lc 8.3; At 4.36, 57 e 5.1), estando o principal episódio registrado em Atos 2.42-47. Para Champlin (Ibid.) “A a partilha informal, naturalmente alicerçada sobre o amor de um crente por outro, é o padrão das virtudes cristãs, mas isso não precisa transformar-se em uma partilha formal e obrigatória de bens”.

IGREJA E COMUNISMO

Alguns defendem a ideia de que Atos 2.42-47 é uma proposta bíblica para o comunismo: “Porém, não há qualquer dogma, no Novo Testamento, no sentido de que a experiência deveria ser universal, compulsória e permanente”. (Ibid., p. 826). Observemos a posição de outros estudiosos das Escrituras:

O fato de mais tarde Barnabé ser destacado por vender uma propriedade indica que esta prática não é algo que todos os crentes fazem (At 4.36,37). Os novos crentes estão dispostos a compartilhar suas possessões quando surgem necessidades (v. 45). O termo comunismo não descreve esta prática. Antes, eles estão expressando amor espontâneo, e é completamente voluntário”. (ARRINGTON, 2003, p. 640)

O amor cristão manifestou-se num programa social de assistência material aos pobres. Essa atitude cristã de partilhar com os outros parece que se limitou aos primeiros anos da igreja de Jerusalém e não se estendeu às novas igrejas conforme o Evangelho foi sendo levado através da Judéia.” (PFEIFFER; HARRISON, 1987, p. 245)

Um dos resultados foi a prontidão dos crentes em partilhar seus bens uns com os outros. Isto se tornou prática comum entre os crentes. O verbo está no imperfeito e podia ser traduzido assim: ‘continuavam a usar todas as coisas em comum’. Para esses cristãos a espiritualidade era inseparável da responsabilidade social (Dt 15.4s; At 6.1-6; 11.28; 20.33-55; 24.17 ss). Parece que o comunitarismo teria sido uma solução provisória neste caso, e necessário naquela circunstância”. (WILLIAMS, 1996, p. 77)

É verdade que Jesus ordenou a um jovem governante rico que vendesse os seus bens e desse o dinheiro aos pobres (Lc 18.18-30), mas a razão para a ordem era testar a fé, e não forçar um nivelamento social e econômico. [...] Jesus disse: ‘Porquanto sempre tendes convosco os pobres, mas a mim não me haveis de ter sempre’ (Mt 26.11). (PFEIFFER; VOS; REA, 2006, p. 440)

Que conclusões podem ser tiradas, então, com respeito à abordagem bíblica ao comunismo? Em primeiro lugar, A Bíblia certamente não apóia o Comunismo Marxista com sua filosofia anti-Deus e seu conceito de guerra de classes. Várias passagens (por exemplo Ef 6.5-9; Cl 3.22; 4.1) admoestam os trabalhadores a ter boas relações com os seus patrões e vice-e-versa. Segundo, a posse pública da propriedade entre os crentes parece ter sido restrita a Jerusalém. (Ibdem)

Entendo que tanto o Capitalismo Selvagem, quanto o Comunismo Utópico, são sistemas sócio-político-econômicos desprovidos dos princípios bíblicos de amor, comunhão, voluntariedade, generosidade e justiça.

Como bem colocam Pfeiffer, Vos e Rea (Ibid, p. 441) “Se os crentes hoje desejarem viver em um acordo onde os cristãos tenham a posse pública dos bens, eles devem se sentir livres para assim proceder; mas a Escritura não os obriga a viver desta maneira, e eles não devem julgar os outros crentes que preferem usufruir a posse privada da propriedade. Todos devem lembrar de que são meramente mordomos de tudo o que Deus lhes tem dado, e que são exortados a exercitar a mordomia fiel das posses que lhe foram confiadas.”

QUESTÕES CONTEMPORÂNEAS DA PRÁTICA SOCIAL NA IGREJA

"Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta." (Tg 2.14-17)

Sempre que o tema "Ajuda aos Necessitados" (Ponto III, subponto 3 da presente lição) é abordado, observamos algumas reações e atentamos para alguns fatos no meio evangélico assembleiano. Observemos alguns deles:

1. Um Grande número de alunos, professores, dirigentes e superintendentes de ED questionam as poucas ações concretas nesta área (chamada de "social");

2. Líderes de igrejas, aproveitando o tema da lição bíblica, resolvem fazer campanhas de doações e socorro aos necessitados, mas logo após o estudo da lição abandonam a prática;

3. Percebe-se que muitas igrejas nunca vão além da simples distribuição aleatória e desorganizada de cestas básicas, sem nenhum levantamento das reais necessidades dos beneficiados;

4. Uma ênfase num certo socialismo ou comunismo cristão é dada, fruto de uma interpretação equivocada do tema "Comunidade dos Bens". Interessante é que os que defendem teoricamente esta ideia não a colocam em prática, partilhando todos os seus bens com os necessitados;

5. Irmãos, individualmente ou em "grupos", diante do descaso da "instituição" ou da "comunidade cristã" com a ajuda aos necessitados, acabam se achando no direito de administrarem os seus dízimos e ofertas, não levando em consideração as recomendações (determinações) da liderança;

6. Igrejas se mobilizam para prestar socorro às vítimas de grandes catástrofes naturais em outras regiões, mas no seu cotidiano esquecem de socorrer os seus necessitados (Gl 6.10), e os que vivem em situação de miséria na localidade ou comunidade onde está estabelecida;

7. Para dizer que socorrem os necessitados, algumas igrejas afirmam manter hospitais, escolas, creches, orfanatos, abrigos de idosos funcionando, casas de recuperação etc. Acontece que em alguns casos, as condições de atendimento e assistência são muito precárias. As pessoas lá atendidas sofrem de um grande descaso e desumanização;

8. É afirmado ainda, que a igreja faz o trabalho social muito bem, mas sofre por não divulgá-lo. Entendo que pelo menos os membros deveriam tomar conhecimento das ações em favor dos necessitados;

9. A calamidade dos necessitados se acentua diante da ostentação e da vida regalada de algumas lideranças, através da aquisição e exibição dos símbolos capitalistas de "poder" e "status ministerial". Na versão e lógica "espirituosa" deste capitalismo selvagem (Teologia da Prosperidade), quanto mais o pastor ou líder fica rico (ou pelo menos parecer), mas demonstra o quanto o seu ministério é abençoado por Deus. Obviamente esta lógica acaba trazendo problemas para alguns líderes de igrejas na atualidade. Por exemplo, podemos citar a necessidade de um pastor precisar de "seguranças armados". Tal necessidade é resultado direto da ostentação já citada. Citamos ainda o receio que alguns possuem de terem seus filhos ou parentes sequestrados. Não consigo imaginar Jesus, Pedro, Paulo, João, Tomás de Aquino, Agostinho, Lutero, Calvino e outros ícones da fé precisando de seguranças particulares. Alguma (ou muita) coisa está errada. Viver dignamente do evangelho foi trocado por viver esplendorosamente, luxuosamente ou regaladamente do evangelho;

10. É interessante também afirmar, que diante do exposto no ponto acima, dentro de um mesmo ministério, há líderes que abusam das regalias enquanto outros passam extrema necessidade (contradição social). A ideia, repito, não é a de vivermos um socialismo ou comunismo ministerial cristão, falo sim (pois há uma série de fatores e variantes aqui envolvidos) da necessidade de diminuir a distância "econômica", promovendo um viver digno para todos.

Se a sua igreja mantém instituições sociais, faça visitas periódicas ao local, e verifique se as condições oferecidas são humanizadoras. Suas doações, ofertas e dízimos devem ser administrados com responsabilidade.

CONCLUSÃO

Não vai adiantar muita coisa (ou nada) estudarmos mais uma vez esse tema, sem refletir sobre a nossa atual condição (cada um deve assumir a sua responsabilidade), sem discussão, sem propostas de mudanças, sem planos e ações concretas.

Saber sobre, e perceber como as coisas estão não é o suficiente. Necessário é mobilizarmo-nos, agirmos, tomarmos uma iniciativa, para que o nosso discurso religioso, piedoso e pentecostal se concretize com a prática do Evangelho Integral.

É necessário que o crente busque trabalhar dignamente, que tenha cuidado com as dívidas, que procure viver dentro de sua realidade econômica, que tenha sempre uma reserva financeira, para que não venha a depender da ajuda social da igreja, ficando tal necessidade restrita para casos extremos, fatalidades, imprevistos ou calamidades sobre as quais nosso controle foge.

BIBLIOGRAFIA

ARRINGTON, French L; STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 5. ed. São Paulo: Hagnos, 2001. v. 1

JOSEFO, Flávio. História dos hebreus: de Abraão à queda de Jerusalém obra completa. 9. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.

PFEIFFER; Charles F.; HARRISON, Everett F. Comentário Bíblico Moody: os evangelhos e atos. São Paulo: IBR, 1997. v. 4

______; VOS, Howard F.; REA, John. Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

KEENER, Craig S. Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento. Belo Horizonte: Atos, 2004.

VINE, W. E.; UNGER, Merril F.; WHITE JR, William. Dicionário Vine. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Atos. São Paulo: Vida, 1996.

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