domingo, 15 de abril de 2012

ORDENAÇÃO DE EVANGELISTAS E PASTORAS NAS ASSEMBLEIAS DE DEUS NO BRASIL: FORTALECIMENTO DA ORTODOXIA BÍBLICA OU RENDIÇÃO AO LIBERALISMO TEOLÓGICO? (4)


São duas as posições dos evangélicos em torno da ordenação de mulheres ao ministério: os igualitaristas e os diferencialistas. Conforme Lopes:

Os igualitaristas afirmam que Deus originalmente criou o homem e a mulher iguais; a subordinação feminina foi parte do castigo divino por causa da Queda, com consequentes reflexos sócio-culturais. Em Cristo, essa punição (e seus reflexos) é removida; assim, com o advento do evangelho, as mulheres têm direitos iguais aos dos homens de ocupar cargos de oficialato na Igreja. Os diferencialistas, por sua vez, entendem que desde a Criação – e portanto, antes da Queda – Deus estabeleceu papéis distintos para o homem e a mulher, visto que ambos são peculiarmente diferentes. A diferença entre eles é complementar, ou seja, o homem e a mulher, com suas características e funções distintas, se completam. A diferença de funções não implica em diferença de valor ou inferioridade de um em relação ao outro. Semelhantemente, as consequentes diferenças sócio-culturais nem sempre refletem a visão bíblica da funcionalidade distinta de cada um. O homem foi feito como cabeça da mulher – esse princípio implica em diferente papel funcional do homem, que é o de liderar. Não implica que o homem é superior à mulher, em qualquer sentido. Assim, os diferencialistas mantêm que a diferença de papéis e igualdade ontológica (do ser) são duas verdades perfeitamente compatíveis e bíblicas, enquanto que os igualitaristas afirmam que diferença de papéis implica inevitavelmente em julgamento de valor.[1]

Várias alegações são colocadas pelos igualitaristas, no sentido de fundamentar biblicamente suas posições acerca da ordenação de mulheres ao ministério.[2] Observemos algumas:

Argumentação: Em Gênesis 1 Adão e Eva forma criados iguais, dessa forma, não deveria existir diferença de papel ou de autoridade entre eles.

Refutação: Ter os mesmos valores não significa ter os mesmos papéis. Homens e mulheres foram criados ontologicamente iguais, para hierarquicamente exercerem papéis diferentes. Ter igual valor, igual honra, igual pessoalidade e igual importância não exigem que as pessoas tenham iguais papéis nem igual autoridade.[3]

Argumentação: Em Gênesis 1-3, o governo masculino só se manifestou depois da Queda e é, por isso, produto do pecado.

Refutação: Grudem apresenta dez argumentos que comprovam que o governo masculino já existia antes da queda[4];

- A ordem. Adão foi criado primeiro e Eva, depois (Gn 2.7; 18-23; 1 Tm 2.13)

- A representação. Era Adão, não Eva, quem tinha o papel especial de representar a raça humana (1 Co 15.22-45, 49; Rm 5.12-21).

- A nomeação da mulher. Adão deu nome a Eva; Eva não deu nome a Adão (Gn 2.23).

- A nomeação da raça humana. Deus deu à raça humana o nome de “Homem”, na o de “Mulher” (Gn 5.2).

- A responsabilidade primária: Depois da Queda, Deus chamou primeiro a Adão para que lhe prestasse contas (Gn 3.9).

- O propósito. Deus criou Eva para ser a auxiliadora de Adão, não Adão para ser auxiliador de Eva (Gn 2.18; 1 Co 11.9).

- A restauração. A salvação em Cristo no Novo Testamento reafirma a ordem da criação (Cl 3.18, 19).

- O mistério. O casamento desde o princípio da criação era uma figura da relação de Cristo com a Igreja (Ef 5.32,33).

- O paralelismo com a Trindade. Igualdade, diferenças e unidade entre homens e mulheres refletem igualdade, diferenças e unidade na Trindade (1 Co 11.3).

Argumentação: A liderança de Débora em Israel (Jz 4) revela que Deus pode chamar mulheres para papéis de liderança.

Refutação: Embora a contribuição de Débora deva ser considerada em alta importância, ela confirmou a liderança masculina sobre o povo de Deus, quando diante da hesitação de Baraque (Jz 4.8) ela o repreendeu (Jz 4.9). Baraque por fim assumiu o comando da investida (Jz 4.14-16), tanto que nas passagens bíblicas subsequentes que lembram este episódio somente a liderança de Baraque é evidenciada (1 Sm 12.11; Hb 11.32).[5]

Argumentação: O fato de Jesus ter designado somente homens para o apostolado foi uma simples concessão à cultura de seus dias; não é normativo para nós hoje.

Refutação: O Senhor Jesus nunca fez concessão à cultura do seu tempo quanto ao que é moralmente certo e errado, ao contrário, ele confrontou o sistema e a tradição religiosa, e a prova disso é que conversou com mulheres em público, inclusive com uma samaritana (Jo 4.5-30) e uma cananeia (Mt 15.21-28). Os próprios igualitaristas reconhecem isso;

Jesus, talvez de modo extremamente notável, apartou-se das normas culturais quando incluiu as mulheres entre os seus seguidores [...] Em contraste com muitos rabinos que consideravam inadequado instruir mulheres, Jesus estava pronto a ensinar-lhes [...] [Ao responder a Marta do povoado de Betânia em Lucas 10.41] Jesus transtornou as prioridades culturais determinadas para as mulheres. [...] O nosso Senhor pôs de lado os preceitos costumeiros da sua época e restaurou a determinação do Antigo Testamento de que homens e mulheres se aplicassem ao aprendizado da lei de Deus (Lc 11. 27, 28).[6]

Particularmente, não acredito que Jesus se dobrou diante do modelo cultural implantado, não separando mulheres ao apostolado. O fato não se tratou de uma convenção cultural, mas da observação de um princípio natural e espiritual. O restante do Novo Testamento consolida esta ideia.

Argumentação: Assim como no caso de Priscila que ensinou Apolo (At 18.26), as mulheres podem ensinar aos homens na igreja.

Refutação: Neste e em outros pontos que abordaremos a posição complementarista se divide entre moderados e radicais. Os moderados admitem que em alguns casos uma mulher pode ensinar a homens (e até liderar), desde que tenha sobre ela uma liderança masculina maior. Como exemplo pode-se citar uma missionária, que prega e ensina publicamente a homens, mas que não é ordenada, e que tem sobre ela a autoridade de um pastor/presbítero/bispo. No caso de Priscila o ensino foi pessoal (tomaram-no consigo), e ela não exercia o ofício de presbítera/bispa. Assim como no caso de Priscila, há na atualidade milhares de mulheres que cooperam com o ensino da Palavra na igreja, das mais diversas formas e maneiras, sem necessariamente precisar de ordenação para isso, estando sempre em última instância sob uma liderança masculina. O fato do nome de Priscila aparecer em algumas passagens antes do nome de seu marido Áquila, não significa que ela exercia autoridade sobre ele. Como muitos comentaristas já observaram, a ordem dos nomes pode se referir a uma variação textual estilística, a uma posição social de Priscila diferenciada (origem nobre) e até a uma personalidade mais forte que a do seu marido. A verdade é que ninguém tem plena convicção sobre a alteração na ordem dos nomes.[7]

Continua...



[1] LOPES, Augustus N. Ordenação de Mulheres: que diz o Novo Testamento? São Paulo: PES, p. 5 e 6

[2] GRUDEM, Wayne. Confrontando o feminismo evangélico. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

[3] Ibid., p. 59.

[4] Ibid., p. 61.

[5] Ibid., p. 72.

[6] GRENZ, Stanley. Whomen in the church, p. 74-75 apud GRUDEM, ibid., p. 76.

[7] Ibid., p. 87.

2 comentários:

Newton Carpintero, pr. e servo. disse...

Caro pr. Altair Germano,

A paz amado!

Excelentes matérias. Estou aguardando a continuação...

Penso que da mesma forma que o diabo enganou uma mulher no iníco, ele, o diabo, tentará enganar a milhares no final dos tempos. E o Senhor cobrará dos homens que se conformaram com este século presente.

O Senhor seja contigo,

O menor

António Jesus Batalha disse...

Irmão Altair. estive a ver algumas coisas em seu blog, e dou graças por haver homens que se interessam em divulgar a Palavra de nosso Deus. Desejo deixar um convite, tenho um blog com o nome de Peregrino e Servo, se desejar fazer parte, eu ficaria radiante em tê-lo como meu amigo virtual, isto é se desejar, se não ficamos amigos na mesma. Decerto irei retribuir seguindo o seu blog também. Um obrigado e muita paz e graça do Senhor Jesus.