quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A “UNÇÃO DO RISO”: UMA ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O FENÔMENO À LUZ DAS EVIDÊNCIAS HISTÓRICAS



A “unção do riso”, “gargalhada sagrada” ou “bênção de Toronto”, é um movimento iniciado provavelmente na igreja Airport Vineyard, localizada numa área industrial perto do aeroporto Lester B. Pearson, na cidade de Toronto, no Canadá. O evangelista Rodney Howard-Browne, da África do Sul, é tido como o de maior destaque no movimento a partir da década de 90. [1] Muito embora os termos sejam novos, o fenômeno possui vários registros e evidências ao longo da história.

Manifestações da “Unção do Riso” no Movimento Holiness

Vinson Synan , respeitado pesquisador do movimento pentecostal e carismático, ao narrar o movimento holiness, que nos anos de 1870 reunia em média 20.000 pessoas em seus acampamentos, cita o relato de Barton W. Stone, uma testemunha ocular que descreve as formas de êxtase ocorridos nos primeiros acampamentos. Entre elas estava o que podemos entender como as primeiras manifestações registradas daquilo que hoje é chamado de “unção do riso”[2]

 Era uma risada alta e sincera, que não provocava risos em mais ninguém. A pessoa mostrava-se arrebatadamente solene, e sua risada despertava também um sentimento de solenidade em santos e pecadores. Verdadeiramente indescritível.

Gunnar Vingren e as manifestações da “Unção do Riso” no início do Movimento Pentecostal no Brasil

Neste ponto nossa ênfase recairá sobre os registros de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. A terminologia usada por Vingren para descrever o fenômeno aqui analisado é “rir debaixo do poder”. Em seu diário pessoal Vingren descreve os seguintes fatos:

2 de maio de 1913. Deus estava perto de nós hoje no culto. Durante a oração, o Espírito Santo se manifestou poderosamente. Alguns riam debaixo do poder de Deus, outros falavam em línguas, outros profetizavam, e todos se alegravam imensamente. Nunca vi o poder de Deus derramado com tanta intensidade num culto como hoje na Vila Correia.[3]

Hoje batizei quatorze novos convertidos. O poder de Deus veio tão forte sobre mim lá no rio que eu quase não pude mover-me. De noite terminei a minha pregação cantando um hino espiritual. O poder estava sobre toda a igreja. Uma irmã viu Jesus entre nós, através de uma visão. No fim do culto, vários irmãos profetizaram. Muitos tiveram o seu Pentecoste naqueles dias. Entre outros, um menino de treze anos recebeu a promessa a promessa na sua casa, de manhã, quando estava orando. Em seguida ele veio ao culto, e o poder de Deus foi muito grande sobre ele, levando-o a falar em línguas e a profetizar. Outro dia tivemos uma gloriosa experiência na casa da irmã Celina. Quando orávamos, o poder de Deus veio sobre nós. Começamos a rir, cheios de uma onda de gozo. Depois chegou outro irmão, e começou a alegrar-se conosco. Mas eu fiquei com medo. Não devemos alegrar no próprio poder, e sim em Jesus. São admiráveis as poderosas manifestações de poder que vemos nos nossos cultos.[4]

Durante a viagem para a Suécia, passando pelos Estados Unidos, encontramos o relato abaixo:

Num culto em Malden, quando falava sobre a obra missionária, o poder de Deus veio sobre Vingren tão poderosamente que ele teve que sentar-se um pouco para rir, e depois continuar a pregação. [...] Porém, de repente, o poder de Deus veio sobre mim de maneira maravilhosa. Os outros me deixaram para ir tomar café. Mas, eu nem me podia levantar; só depois fui à mesa tomar café com os outros. No dia 23 de outubro, Vingren voltou a Chicago [...] Em outra oportunidade, eu tive de rir o quanto pude sob o poder de Deus e depois chorar muito, enquanto orava para que Deus abençoasse os irmãos no Brasil. Depois do culto, ficamos todos ali, em pé, cheios de júbilo, regozijando-nos na presença do Senhor.[5]

As manifestações de poder relatadas por Vingren em seu diário foram evidenciadas na continuidade do movimento pentecostal no Brasil, e até os dias de hoje continuam sendo motivos de debates quanto à autenticidade das mesmas, fora e dentro do pentecostalismo clássico.

As atuais manifestações da “Unção do Riso” à luz das evidências históricas

Quando se analisa as “risadas” ou o “rir debaixo do poder”  à luz das narrativas históricas, algumas diferenças do atual movimento “unção do riso” são evidentes e  dignas de consideração:

- As manifestações das “risadas” ou “rir debaixo do poder” não eram manipulações psicológicas;

- Não se marcava culto para “rir debaixo do poder”;

- “Rir debaixo do poder” era uma manifestação espontânea;

- Não se idolatrava “pregadores” ou “mestres” por serem portadores de uma especial  “unção do riso”;

- O culto não girava em torno da manifestação do “rir debaixo do poder”;

O “rir debaixo do poder” experienciado nos Grandes Despertamentos e por Gunnar Vingren, é uma experiência ainda vivenciada por muitos pentecostais nos dias atuais. Sou testemunha disto, e pessoalmente, em momentos de oração, já fui envolvido por tal sensação (ou seja, assim como Vingren, já “ri debaixo do poder”). 

Creio que as manifestações do poder do Espírito e as reações humanas resultantes são as mais diversas possíveis, e não estão limitadas ou presas ao registro bíblico. Contudo, a Palavra de Deus será sempre instrumento de aferição e julgamento dos fenômenos espirituais, no sentido de analisar o quanto o fenômeno quebra princípios e mandamentos bíblicos, se indivíduos e a Igreja são edificados por tais manifestações, e o quanto o Senhor é nisto glorificado.

O que de fato na atualidade é manifestação do poder do Espírito, o que é reação humana à manifestação do poder do Espírito, o que é abuso e o que é pura imitação ou falsa manifestação do poder do Espírito, são questões que devem ser consideradas e discernidas para que a questão não seja polarizada. Repudiar ou aceitar totalmente a legitimidade de um fenômeno, por mais estranho que o mesmo pareça, sem que seja feita uma análise crítica bíblica-histórica livre de preconceitos sobre o mesmo, são atitudes que devem ser repensadas e observadas por todos. 

É preciso ter cuidado para não cair no mero empirismo pentecostal, nem no equivocado formalismo cessacionista.



[1] Romeiro, 1997, p. 77-78.
[2] Synan, 2009, p. 53-54.
[3] Vingren, 2010, p. 63.
[4] Ibid., p. 67-68.
[5] Ibid., p. 78-79

Bibliografia


ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em crise: decadência doutrinária na igreja brasileira. 3. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1997.

SYNAN, Vinson. O século do Espírito Santo: 100 anos de avivamento pentecostal e carismático. São Paulo: Vida, 2009.

VINGREN, Ivar. Diário do pioneiro. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. 

7 comentários:

Jaime Alves disse...

A grande verdade é que Deus é superlativo e agi de forma soberana, o que não se pode e sobrepujar a hegemonia do evangelho criando ondas que acabam escandalizando...
Na verdade é por isto que existe as sagradas escrituras e com elas a sã doutrina e ainda que toda regra tenha a sua exceção, deve-se respaldar no paradigma que homologa as normas que regem a doutrina.
Porém é muito comum fazer da exceção uma regra e na maioria das vezes estas exceções acabam discrepando da hegemonia da são doutrina...
O germina estas celeumas que vem solapando a estrutura da igreja, principalmente quando se refere ao neo pentecostalismo ou mesmo o próprio pentecostalismo de onde temos vivenciado as maiores disparidades...

blog do Pr Pedro Pereira disse...

Parabéns Pr Altair Germano pelo comentário imparcial, equilibrado e instrutivo. Que Deus continue te usando. Gostei do artigo e principalmente da sua conclusão final, precisamos tomar cuidado com os extremos e buscarmos o equilibrio bíblico.

Emmanuel Martins disse...

Muito bom querido pastor!
Gostei pois o senhor foi profundo e ao mesmo tempo conciso em sua defesa, expondo os dois lados da historia e extraindo uma verdade central.
Eu quero pedir ao senhor que quando for possivel, faça uma análize sobre o "movimento reteté", muito popular inclusive aquí no nordeste.
Muito obrigado pela atenção e desde já também por que sei que o senhor vai fazer o que puder para atender minha solicitação.
Obs: Dias 15-19 de Janeiro estão chegando. Estou ansioso para lhe ouvir aqui em Campina Grande.
Abraços.

Ev.Jailson Trajano disse...

Parabéns Pastor pela abordagem e a exposição do tema.
Abraços, Paz e até breve.

Ev. Anderson Ferreira disse...

Parabens Pastor Altair!É muito bem algum lider assembleiano falar com imparcialidade sobre alguns fenomenos comuns entre nós.Infelizmente alguns, em nome de "defesa da bíblia" saem atirando pra todo lado e criticando tudo com o que eles não concordam.O seu artigo foi bastante esclarecedor.Fico pensando em como Gunnar Vingren ficaria se sentindo se entrasse em algumas AD´s hoje. Não profetizaria na hora da pregação, não cantaria em linguas estranhas, não "riria no poder"...Não devemos viver de esperiencias, com certeza, mas também não podemos desprezar todas elas!

MAX REYS disse...

E ago indescritivel a experiencia que tive lagrimas e riso ao mesmo tempo,nao extravagante mas moderado,e conciente de tudo ao meu redor..FIQUEI FELIZ EM LER QUE UM ERUDITO COMO O SENHOR TAMBEM JA TEVE TAL EXPERIENCIA..COMO E MARAVILHOSO DEUS TE ABENÇOE MUITO MAIS

LILIANE CAMARGOS disse...

Eu assisti a um culto em que o pregador dava gargalhadas, extremamente feliz. Interessante que a alegria dele me contagiou, pois estava deprimida e fui liberta. Se quando somos movidos por Deus, podemos nos manisfestar chorando, porque não podemos nos manifestar rindo? O mundo está cheio de depressão e falsos prazeres. Acredito que chegou o tempo em que Deus derramará o dom da Alegria sobre seu povo.