quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A PROSPERIDADE NO ANTIGO TESTAMENTO. Subsídio para Lição Bíblica - 1º Trimestre/2012


A prosperidade, como já foi ensinado na primeira lição do trimestre, é uma verdade bíblica que não se limita a visão reducionista do sucesso financeiro. Observaremos através de alguns textos, a maneira como no Antigo Testamento o tema prosperidade foi exposto.

Ele, porém, lhes disse: Não me detenhais, pois o SENHOR tem prosperado o meu caminho; deixai-me partir, para que eu volte a meu senhor. (Gn 24.56, ARC)

Ele, porém, lhes disse: Não me detenhais, pois o SENHOR me tem levado a bom termo na jornada; permiti que eu volte ao meu senhor. (Gn 24.56, ARA)

O termo hebraico traduzido por “prosperado” ou “levado a bom termo” é hotselih, que transmite a ideia de ser bem sucedido numa tarefa ou missão. As palavras são do servo de Abraão, ao cumprir a missão de encontrar e tomar uma esposa para o filho de seu senhor. Diante de todos os acontecimentos, o servo de Abraão creditou a sua prosperidade ao Senhor, tributando a Ele toda honra glória e louvor.

Vendo, pois, o seu senhor que o SENHOR estava com ele e que tudo o que ele fazia o SENHOR prosperava em sua mão, (Gn 39.3, ARC)

Vendo Potifar que o SENHOR era com ele e que tudo o que ele fazia o SENHOR prosperava em suas mãos, (Gn 39.3, ARA)

O termo hebraico traduzido por “prosperava” é matselih, e transmite aqui a ideia de ser bem sucedido na administração de negócios e empreendimentos. José, de quem o texto fala, é descrito como aquele através de quem Deus abençoava a casa e as posses de Potifar. Havia nisso tudo um soberano propósito em andamento (Gn 37.6-11), que conduziria José ao cargo de governador do Egito (Gn 41.38-44).

E apalparás ao meio-dia, como o cego apalpa na escuridade, e não prosperarás nos teus caminhos; porém somente serás oprimido e roubado todos os dias; e não haverá quem te salve. (Dt 28.29, ARC)

Apalparás ao meio-dia, como o cego apalpa nas trevas, e não prosperarás nos teus caminhos; porém somente serás oprimido e roubado todos os teus dias; e ninguém haverá que te salve. (Dt 28.29, ARA)

O hebraico welo’ thatselih (não prosperarás), é aqui contrário às bênçãos descritas em Deuteronômio 28.1-14, que estavam condicionadas ao “ouvir a voz do Senhor” e “guardar todos os seus mandamentos” (Dt 28.1), o que implicava em não se desviar de todas as palavras ordenadas, nem para a direita, nem para a esquerda (28.28-14). As bênçãos (hb. haberakoth), falam do favor de Deus para com os justos, e no presente contexto envolvia benefícios e abundância sobre a produção agrícola e pecuária, vitória sobre os inimigos, posição de proeminência, etc. A prosperidade de Israel seria o sinal visível da obediência deste povo ao seu Senhor. No Antigo Testamento é comum a realidade visível (concreta) apontar para a realidade invisível (abstrata).

Não se aparte da tua boca o livro desta Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo quanto nele está escrito; porque, então, farás prosperar o teu caminho e, então, prudentemente te conduzirás. (Js 1.8, ARC)

Não cesses de falar deste Livro da Lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido. (Js 1.8, ARA)

O “fazer prosperar” (hb. tatselih) o caminho, implicava em Josué transmitir, refletir e cumprir as palavras do livro da Lei, o que não significava a ausência de adversidades e lutas (Js 1.9, 14, 15ss ), mas que garantiria uma cautela, habilidade, prudência e entendimento (hb. tasekil), necessários para superar os obstáculos e alcançar o sucesso.

É importante perceber, que ao tratar de prosperidade, o Antigo Testamento não apresenta a ideia de mera barganha, mas de obediência incondicional a Deus, mediante a sua vontade manifesta (oral ou escrita). Numa barganha, as partes se nivelam na troca de favores. Com Deus, não há possibilidade alguma de nivelamento, por ser Ele quem é (Soberano e Santo), e por sermos nós quem somos (servos e pecadores).

Bem-aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e cujas folhas não caem, e tudo quanto fizer prosperará. (Sl 1.1-3, ARC)

Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido. (Sl 1.1-3, ARA)

Mas uma vez temos na tradução “prosperará” a raiz hebraica tsalah. Utilizando-se da metáfora da árvore plantada junto a corrente de águas, o salmista condiciona a prosperidade ao prazer (hb. hephetso) na lei do Senhor, que protege e afasta o indivíduo do conselho dos ímpios, do caminho dos pecadores e da roda dos escarnecedores, na medida em que este prazer à lei é seguido de meditação (hb. hagah, considerar,) na própria lei.

Pois eu tinha inveja dos soberbos, ao ver a prosperidade dos ímpios. (Sl 73.3, ARC)

Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos. (Sl 73.3, ARA)

Neste salmo, a possibilidade de prosperidade (o termo hebraico aqui é shelom, de shalom, ganhos financeiros e materiais, saúde, bem-estar, etc.,) por parte dos ímpios (hb. rasha`, perverso, injusto, malfeitor, transgressor) é exposta (v. 4-12). Fica agora evidente, que nem toda prosperidade é resultado da bênção proveniente da obediência a Deus. Por desconhecer até então esta possibilidade, o salmista Asafe ficou confuso ao ponto de quase se desviar e escorregar (v. 2).

Na condição de justo (v. 13), Asafe sofria constantes aflições (v. 14). Quando tentava entender, segundo a lógica humana, a sua própria condição, ainda perturbado, entrou no santuário de Deus e percebeu o fim (hb. ‘aharith, futuro, posteridade) deles (v. 17). Asafe pôde compreender que a aparência nem sempre manifesta a essência das coisas e das pessoas, que o ter não revela necessariamente o bom caráter do ser e que o bem-estar nesta vida não garante uma eternidade de gozo, paz e alegria na presença de Deus (v. 20).

Mesmo desfalecido em seu próprio ânimo, o salmista não abre mão da presença de Deus, do seu conselho, direção e força (v. 23-26), e diante da realidade da glória futura (v.24) encontra motivação para aproximar-se, confiar e anunciar as obras do Senhor (v. 28).

Com Asafe, aprendemos que é possível ter abundância de saúde, bens e riquezas materiais, sem ter a bênção decorrente da obediência a Deus. Aprendemos também, que é possível ter a bênção de Deus (presença, conforto, força, esperança e graça), decorrente da obediência a Ele, sem ter abundância de saúde, bens e riquezas materiais nesta vida.

É aqui que os fundamentos teóricos da Teologia da Prosperidade (ou da Vitória Financeira) começam a “ruir”, pois ela não consegue associar a prosperidade bíblica com a ausência de bens terrenos, nem com qualquer outro tipo de aflição temporal (inclusive problemas de saúde) experienciada pelo justo (o crente sincero, obediente, temente e confiante em Deus).

Que a prosperidade bíblica seja buscada e ensinada, ao mesmo tempo em que a Teologia da Prosperidade (ou da Vitória Financeira) seja combatida, abominada e extirpada de nosso meio.

2 comentários:

Jaime Alves disse...

Pr. Altair,
Pelo que pude perceber ao ler sua matéria, além da obvia obediência a Deus existe uma linha muito tênue a respeito de prosperidade.
Falo por mim, vivo um antagonismo subjetivo a este respeito, repudio este mercantilismo exacerbado que permeia a liturgia das igrejas, mas ao mesmo tempo tenho sonhos e necessidades.
E acredito sim na lei da semeadura, assim como também que o capitulo três de Malaquias transcende o que é temporal...
Sou fiel, não por ambição, não por imposição, mas verdadeiramente por amor, não cometo exageros, mas trago um coração liberal.
E no entanto as vezes sinto-me como Asafe...

MARIA disse...

Jaime,
Isso acontece com muitos de nós. O importante é que tenhamos firme em nossos corações que aconteça o que acontecer jamais deixaremos no Nosso Deus, porquanto sabemos quão grande salvação Ele nos concedeu. "Para onde iremos nós? Somente Jesus tem as palavras de vida eterna." No tempo do Senhor, Ele satisfará os desejos dos nossos corações. Deus o abençõe!