domingo, 25 de dezembro de 2011

O SURGIMENTO DA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE. Subsídio para Lição Bíblica - 1ª Trimetre/2012


O estudo sobre a Teologia da Prosperidade através das Lições Bíblicas chegou numa boa hora. Alguns televangelistas no Brasil, que outrora eram combatentes de tal heresia, hoje, para espanto de muitos propagam e defendem abertamente (ou sorrateiramente) os seus princípios.


Na condição de movimento doutrinário, a Teologia da Prosperidade se desenvolveu após os anos 70, encontrando espaço nos grupos evangélicos pentecostais. Sobre isto comenta Pieratt

[...] o pentecostalismo não foi o pai desse novo evangelho, embora talvez possa ser chamado de padrasto, por causa da forma como o abraçou e seguiu seus ensinos. Então, a primeira pergunta que se levanta é por que
as denominações pentecostais têm sido mais abertas a esse ensino do que qualquer outro grupo protestante. A resposta parece estar na tendência que elas têm de aceitar dons de profecia e profetas dos dias atuais que afirmam exercer esses dons. Por causa da abertura para visões, revelações e orientações espirituais contínuas fora da Bíblia, cria-se um espaço para a entrada das afirmações do evangelho da prosperidade.[1]

Uma afirmação muito interessante neste enunciado de Pieratt é o fato de que o evangelho da prosperidade não se sustenta na autoridade das Santas Escrituras, mas, na autoridade dos “profetas” da atualidade (ou dos carismas). O motivo disto é a sua fraca sustentação à luz de uma análise exegética e hermenêutica séria e ortodoxa, baseada numa interpretação histórico-gramatical da Bíblia.

Observe o que escreveu Hagin

O próprio Senhor me ensinou sobre a prosperidade [...] recebi isso diretamente do céu.” (in How God Taugh Me About Prosperith, 1991 apud ANKERBERG e WELDON, 1996, p. 32). Em Solving the Mystery of the Miracle Money (Resolvendo o Mistério do Dinheiro Milagroso), Robert Tilton afirma que: “As palavras deste livro não são minhas; são palavras do [...] Espírito Santo [...].[2]

Em qualquer época, toda reivindicação de autoridade profética, ou de veracidade da profecia, esteve relacionado à revelação de Deus em seus escritos inspirados

Quando profeta ou sonhador se levantar no meio de ti e te anunciar um sinal ou prodígio, e suceder o tal sinal ou prodígio de que te houver falado, e disser: Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los, não ouvirás as palavras desse profeta ou sonhador; porquanto o SENHOR, vosso Deus, vos prova, para saber se amais o SENHOR, vosso Deus, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma. Andareis após o SENHOR, vosso Deus, e a ele temereis; guardareis os seus mandamentos, ouvireis a sua voz, a ele servireis e a ele vos achegareis. (Dt 13.1-4, ARA)

Um texto muito utilizado para fortalecer a autoridade do “profeta” em detrimento das Escrituras é 2 Crônicas 20.20

E, pela manhã cedo, se levantaram e saíram ao deserto de Tecoa; e, saindo eles, pôs-se em pé Josafá e disse: Ouvi-me, ó Judá e vós, moradores de Jerusalém: Crede no SENHOR, vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas e prosperareis.

Observe que primeiro se deve crer em Deus. Crer no profeta e prosperar está condicionado ao fato do profeta estar em obediência à palavra de Deus. Um profeta herege é um profeta destituído de autoridade espiritual, pois esta depende da submissão ao Pai.

Profecia e teologia devem caminhar de mãos dadas, sendo toda profecia passiva de julgamento (1 Co 14.29) pela teologia (interpretação e sistematização dos mandamentos). A voz de Deus nos mandamentos (texto inspirado), não pode destoar da voz de Deus na profecia (carisma inspirado). Desta forma, teologia e profecia se complementam, em vez de serem entendidas como manifestações antagônicas.

Outro fato digno de nota foi que a doutrina da prosperidade em sua origem, esteve intimamente relacionada à expansão do televangelismo norte-americano

Foi o televangelista Oral Roberts quem criou a noção de "Vida Abundante" e deu início à pregação da doutrina da prosperidade, prometendo retorno financeiro sete vezes maior do que o valor ofertado. Roberts passou a dar maior ênfase a tal mensagem a partir de 1954, quando, ao ingressar na TV, suas despesas aumentaram consideravelmente. [...] Nos anos 70, essa doutrina ganharia maior projeção por meio do ministério de Kenneth e Gloria Copeland, que a radicalizaram prometendo retorno centuplicado dos dízimos e ofertas. [...] A origem das doutrinas sobre prosperidade manteve íntima conexão com a expansão do televangelismo norte-americano . [...] em função do aumento da competição entre os televangelistas, o tempo na TV tornou-se mais caro para eles. O custo dos programas subiu mais que a audiência. Pressionados pelas despesas crescentes de seus projetos, que foram se tornando cada vez mais ambiciosos, os televangelistas refinaram as formas de levantar fundos, integrando os apelos financeiros à teologia [...]. Não é à toa que a Teologia da Prosperidade ingressou no Brasil e se espraiou em diversos segmentos evangélicos por meio dos neopentecostais, justamente os mais ativos difusores do televangelismo entre nós.[3]

No Brasil, após encontrar bastante espaço em alguns segmentos do neopentecostalismo, a Teologia da Prosperidade achou guarida no pentecostalismo clássico, mais especificamente nas Assembleias de Deus, ultimamente travestida de “Vitória Financeira”, tendo como fundamento teórico as anotações do pastor Morris Cerullo na Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira (refutadas em meu livro Uma Igreja com Saúde), amplamente divulgada e recomendada pelo pastor assembleiano Silas Malafaia em seu programa de televisão, através de campanhas de “semeaduras” financeiras elitizadas, prometendo ganhos financeiros e materiais aos “semeadores”, repetindo desta maneira os mesmos lamentáveis fatos ocorridos entre os televangelistas americanos.

A prosperidade é uma verdade bíblica (Gn 39.23; Js 1.8; 2 Cr 20.20; 26.5; Sl 1.1-3; 122.6; 2 Co 9.10-11 ss), mas a Teologia da Prosperidade (ou da Vitória Financeira) é uma heresia perniciosa e oportunista. Com sua ênfase demasiada nas riquezas, suas exegese deturpada, seus métodos de levantamento de fundos agressivos e seus falsos profetas, a Teologia da Prosperidade não passa de uma corrupção doutrinária absurda, que deve ser veementemente combatida e repudiada no meio cristão.

Para finalizar, reproduzo abaixo o texto de um post que publiquei aqui no blog, intitulado “Nem Teologia da Prosperidade, nem Teologia da Miserabilidade”

E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia em abundância em abundância também ceifará. Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria. E Deus é poderoso para tornar abundante em vós toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, toda suficiência, superabundeis em toda boa obra, conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre. Ora, aquele que dá a semente ao que semeia e pão para comer também multiplicará a vossa sementeira e aumentará os frutos da vossa justiça; para que em tudo enriqueçais para toda a beneficência, a qual faz que por nós se dêem graças a Deus. (2 Co 9.6-11)

Tão nociva quanto a Teologia da Prosperidade (ou da Vitória Financeira), defendida pelos televangelistas aproveitadores da ingenuidade alheia, que apelam para a autoridade de falsos profetas importados, é também a Teologia da Miserabilidade.

Enquanto a Teologia da Prosperidade apela para o "dar tudo", a Teologia da Miserabilidade retém tudo.

O texto bíblico citado acima nos oferece uma base sólida e clara para a prática da contribuição financeira na igreja.

Em primeiro lugar, o apóstolo Paulo nos exorta a semear com abundância. Obviamente, tal abundância é proporcional à realidade financeira de cada um. Dessa forma, para alguns R$ 100,00 será uma oferta abundante, enquanto que para outros, o valor abundante será R$ 100.000,00.

Em segundo lugar, a contribuição é baseada numa decisão subjetiva e livre por parte do ofertante. Ninguém lhe propõe, nem estabelece valores ou quantidade. Não há desafios, não há apelações, não há manipulações, não há coações.

Em terceiro lugar, o ato livre e consciente de contribuir deve ser motivado pelo sentimento certo. É a alegria que norteia a liberalidade do ofertante. Nada de culpas, nada de tristezas, nada de medos, nada de barganhas.

Em quarto lugar, o propósito da abundância, da suficiência, da multiplicação e do enriquecimento precisa estar bem compreendido e definido pelo ofertante. Prosperamos para superabundarmos em toda a boa obra. Somos enriquecidos para toda beneficência.

Entendendo dessa forma os princípios norteadores da contribuição financeira à luz do Novo Testamento, abominaremos a Teologia da Prosperidade (ou da Vitória Financeira), rejeitaremos igualmente a Teologia da Miserabilidade e vivenciaremos a Teologia da Generosidade para a glória de Deus.



[1] Pieratt, 1993, p. 21.
[2] Apud, ibid., p. 33.
[3] Mariano, 1999, p. 152.

Referências Bibliográficas

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

Pieratt, Alan B. O evangelho da prosperidade: análise e resposta. São Paulo: Vida Nova, 1993.

7 comentários:

Douglas Fernando disse...

PR ALTAIR GERMANO
Paz do Senhor.

Gostei das tuas postagens.
Estaremos divulgando no FLICKR.

http://www.flickr.com/photos/ocristaonaculturadehoje

E para ver o link deste post

http://www.flickr.com/photos/ocristaonaculturadehoje/6562102193/in/photostream

Saudações

Jaime Alves disse...

[A TPM DO CRISTÃO]


Vejo tantos crentes tão equivocados
vivem tão alienados
com seus sonhos conturbados
onde eu envergonhado
não consigo mais ficar calado...

Hoje prega-se uma nova doutrina
que deturpa e alucina
verbalmente ela assassina
o conceito de um cristão

tira-nos os pés do chão
e nos enche de ambição
nos extorque a revelia
mas não fala de perdão
não nos leva ao compromisso
nos tornando tão omisso
mas eu digo nem por isto
vou calar a minha voz.

Esta maldita TPM
e não há quem a condene
pois se fazem tão solenes
entristecendo tanto a Deus

a teologia da prosperidade
dirimiu a idoneidade
pois esconde a verdade
ao prometer rios de ouro
e nos compra com tesouro
mas nos rouba a salvação.

Ela nos diz para ajuntar
todo ouro aqui na terra
em que a vida se encerra
esquecendo que a traça
convertida na desgraça
vem minar e corroer
nossa fé e sem querer
preterimos ao temor
já não temos tanto amor
para com Jesus nosso Senhor!

Vejo rios de dinheiro
ofertados no altar
mas as mãos cheias de pecados
que estão à barganhar
não se lembra que há o próximo
pois seu próximo é ele mesmo
vive olhando no espelho
e não chega da janela
para olhar para quem sofre.


E o tesouro que se herda
desta Teologia da Prosperidade
que é uma Merd...

a "TPM" do cristão
que se esquece do irmão
que se esqueça que o amor
fluiu em dor na cruz
quando nosso Deus Cristo Jesus
para emanar a sua luz
todo sangue derramou...

Não se fala em arrependimento
E promete maravilhas
pois só fala de dinheiro
o de como tornar-se rico.

Prosperidade sei que é bom
mas não aludida à ganância
onde o teor desta herança
é querer sempre ter mais
é tornar-se sempre menos...

Não andemos ansiosos
com o de comer ou de vestir,

mas ignoramos nossas aves
que voam livre lá no céu
abrilhantam o seu véu
elas não plantam e nem colhem
nosso Deus sei as acolhe,

esquecemos que os lírios
não se fartam no delírio
já que Deus de tudo cuida.

O evangelho não é isto
triunfalismo sem o compromisso
onde crentes tão omissos
vão fugindo ao compromisso
de uma vida com temor
converter-se por amor
numa essência com o teor
de Jesus nosso Senhor

e vão servindo a Mamom
e querendo sempre mais
até descer a sepultura
e seguir para o inferno.

tadeu disse...

A Teologia da Prosperidade está para os pentecostais assim como a Teologia Liberal está para as igrejas históricas. São dois extremos: O primeiro exagera; o segundo, despreza. Os pentecostais são mais sensíveis a essa "Teologia" porque a ênfase está no "Deus pode", "o Senhor é o mesmo", "Ele quer". Entretanto, a falta de ensino bíblico sistemático ou a má qualidade desse ensino é, na minha opinião, a causa de todo estrago feito às igrejas no Brasil.

Antonio Batalha disse...

É para mim uma grande alegria, acessar ao seu blog e ver o que escreve, continue a ser uma benção, e a escrever sempre mensagens de amor e esperança e de edificação, Deixo um faterno abraço e um desejo de um Ano Novo cheio de graça amor e paz, e que se possa lembrar sempre que o próximo precisa de si.

Elnatan Campos disse...

Entendo que as riquezas materiais, como também as espirituais, não são apenas para proveito próprio. Estas serão bem aplicadas e terão o seu objetivo pleno se acançarem outras vidas.

Tiago Rosas disse...

Amém, Pr. Altair

Parabenizo a CPAD pela iniciativa desta Lição. Com certeza entraremos em 2012 com uma lição sólida, que se propõe a corrigir erros gritantes e ascendentes em nossa igreja evangélica brasileira.

Num século onde tudo gira em torno do dinheiro, e o mercado gospel vive momento de ascensão televisiva, supervalorizando a fama em detrimento da pregação genuina do Evangelho, essa Lição irá ajudar muito nossas igrejas a voltarem a simplicidade do Evangelho.

Como Jesus disse, "não acumelem tesouros na terra onde o ladrão vem e rouba, a traça vem e rói; mas acumulem tesouros nos céus..."

claudiopimenta disse...

muito bom mesmo so lamento que o ensino em mutos entra num ouvido e sai no outro continuam desobedecendo a palavra mas creio que esta revista com esse trimestre vai esclarecer muito e tirar milhares de pentecostais das trevas espirituais e do falso ensino muito comum nestes dias