sábado, 26 de novembro de 2011

O EXERCÍCIO MINISTERIAL NA CASA DO SENHOR. Subsídio para Lição Bíblica

O texto de Neemias 13.4-31, de modo geral, apresenta as reformas no âmbito da instituição religiosa e na área da cultura e identidade do povo judaico no período pós-exílico.[1] As medidas de Neemias quanto ao funcionamento do templo envolve o seu uso adequado e purificação (Ne 13.4-9) e o restabelecimento da manutenção dos levitas.

CORRUPÇÃO NO SACERDÓCIO: O FAVORECIMENTO DE PARENTES

Com a ida de Neemias a Jerusalém o sacerdote Eliasibe resolveu privilegiar Tobias, com quem tinha se aparentado, dando-lhe permissão para usar uma das câmaras do templo. Sobre o aparentamento de Eliasibe com Tobias, Barber comenta

Durante a sua administração anterior, e enquanto Neemias permaneceu em Jerusalém, Eliasibe se conteve. Mas quando Neemias foi para a Babilônia, o sumo sacerdote tomou ares de diplomata. Um dos seus primeiros passos foi fazer com que um membro de sua família casasse com alguém da família de Tobias, Então, como símbolo de boa vontade, ele tomou certas salas de depósito do templo (câmaras sob sua supervisão direta) e as transformou em apartamento para Tobias.[2]

Tunnermann sugere que

[...] a referida câmara tenha sido usada como depósito de mercadorias, o que facilitava muito a vida, pois não era necessário carregar as mercadorias por longas distâncias. Também é possível que a câmara tenha sido o próprio local de comércio. Em todo caso, interesses comerciais como fornecedor ou intermediário devem ter sido a razão principal de Tobias querer se instalar no templo.[3]

Lopes, ao comentar o episódio, ressalta que a liderança espiritual não apenas se distanciou de Deus, mas aliou-se ao inimigo, para em seguida levá-lo para dentro da Casa de Deus e beneficiá-lo ilicitamente

Eliasibe fez uma câmara grande para Tobias exatamente no lugar onde eram depositados os dízimos e ofertas para os sacerdotes, levitas e cantores (13.5). Neemias diz que ele fizera isso para beneficiar Tobias (13.7). Os dízimos e as ofertas para o sacerdócio foram desviados para Tobias. Por isso, os obreiros da Casa de Deus, por falta de sustento, precisaram fugir para os campos e o inimigo instalou-se dentro da Casa de Deus e a profanou (13.10). [4]

Quais as lições que extraímos dos fatos narrados acima, para aplicá-las à nossa realidade?

Em primeiro lugar, assim como a instituição judaica foi vitimada pelas atitudes corruptas de sua liderança religiosa, em nossos dias, pastores e líderes repetem os mesmos erros. Observemos, com base nas questões aqui em discussão, alguns destes erros:

- Alianças (aparentamentos) ilícitas. Como já citado em meu subsídio da lição anterior, multiplica-se o número de líderes na igreja que se associam de todas as formas e maneiras com políticos e empresários que não são crentes, e isso com o objetivo de obter alguma vantagem pessoal. Essa vantagem pode ser material ou financeira (crescimento do seu patrimônio pessoal) ou política (fortalecimento de sua liderança). Há casos de líderes que recebem “ofertas” de políticos e empresários, e ficam com o “rabo preso” para apoiar futuras candidaturas e mandatos. Estas ofertas são em dinheiro ou em forma de “presentinhos”. Há políticos mundanos que apoiam de diversas formas e maneiras candidatos à presidência de convenções e igrejas. Há uma verdadeira prostituição e promiscuidade sendo vivenciada por algumas de nossas lideranças, que já comprometeram a sua integridade moral e autoridade espiritual. Foram seduzidos e se venderam pelo poder. Como possuem dinheiro e influência, tentam comprar e corromper outros com dinheiro, emprego, cargo e outros benefícios. Em boa parte dos casos, se aproveitando da ingenuidade, necessidade ou da malignidade de alguns obreiros, são bem sucedidos neste propósito diabólico.

- O favorecimento de parentes. Tobias, agora parente de Eliasibe, foi beneficiado pelo sumo sacerdote com algumas vantagens institucionais. Conseguiu um espaço privilegiado nas dependências do templo, onde, quer através do desvio dos dízimos e ofertas, ou mediante a prática de algum tipo de comércio, lucrava com o negócio. Este fato é outro que se repete e se multiplica em nossos dias. Há líderes na atualidade, que adotam a postura de donos dos templos que construíram (ou assumiram a administração), distribuindo cargos entre os seus parentes e familiares. Em todos os departamentos da igreja (instituição) tem um filho, uma filha, um cunhado, o sogro, a sogra, um primo, um tio, um genro, um neto, etc. A igreja (instituição) torna-se um negócio familiar, onde o grande objetivo da distribuição dos cargos entre os parentes é manter estrategicamente o poder e os benefícios dele derivados. Não estou aqui afirmando que familiares ou parentes não possam ocupar cargos de confiança na igreja, falo é dos abusos gritantes.

Além dos cargos, os espaços físicos são também distribuídos abusadamente entre a parentela. Observe e veja quem são os responsáveis pelas lanchonetes, cantinas, restaurantes, livrarias, e outros espaços “comerciais” em boa parte dos templos? Não são porventura, em sua maioria, os familiares ou aparentados do líder? Conheço casos de familiares e parentes de líderes que nem crentes são, e que recebem salário ou benefício da igreja através da criação de cargos fantasmas, ou da concessão de espaços comerciais. Assim como nos dias de Neemias, o povo vê os abusos, e em grande parte dos casos não pode fazer nada contra tais práticas. Há, em muitos lugares, uma rede de corrupção formada em torno do líder, com muita gente dependendo dele ou lhe devendo favores (lideranças subalternas), o que faz com que ele continue usando e abusando do poder que detém. Pobres e miseráveis líderes, em breve, caso não se arrependam dos seus pecados, o Senhor da Igreja julgará os seus atos abomináveis.

O pastor Elinaldo Renovato, falando de corrupção no ministério, narra o seguinte caso

Em um determinado Estado, o líder escriturava os imóveis, terrenos e templos em seu próprio nome. Quando foi disciplinado pelo ministério por ter caído em pecado, achou que os templos e os terrenos lhe pertenciam, pois estavam registrados em seu nome, mas, na verdade, foram adquiridos com as contribuições dos fiéis. Isso é corrupção, descalabro moral, além de pecado gravíssimo diante de Deus.[5]

Os casos se agravam, e a nova “onda” de corrupção na liderança institucional da igreja é a negociação (troca, compra e venda) de templos e do patrimônio da igreja local. São líderes querendo aumentar o seu “império” eclesiástico pessoal e familiar, atacando e saqueando o “império” do seu adversário político.

CORRUPÇÃO NO SACERDÓCIO: FALTA DE HONESTIDADE E TRANSPARÊNCIA NA ADMINISTRAÇÃO

Também entendi que o quinhão dos levitas se lhes não dava, de maneira que os levitas e os cantores, que faziam a obra, tinham fugido cada um para a sua terra.” Ne 13.10

O favorecimento pessoal e de parentes dos “donos” e “senhores” da igreja é uma das causas da precariedade do sustento daqueles que vivem integralmente da obra, quer seja no trabalho local ou fora do país (missionários transnacionais). A vida de alguns “sumo sacerdotes” e “Tobias” na atualidade é uma mordomia só, enquanto obreiros auxiliares de tempo integral vivem a pão e água, se humilhando de todas as formas e maneiras para receberem uma ajuda mensal que mal garante o básico. Quando alguém ousa questionar o líder, surge logo um profeta ou uma profetisa (geralmente assalariado ou que goza de algum privilégio) para defender o “santo ungido”, ameaçando o questionador com pragas e maldições. Se seguíssemos esta lógica capitalista da "bênção especial" sobre o ungido (em termos financeiros e materiais), Jesus e os apóstolos teriam sido os líderes mais ricos da história da Igreja. Entendo que em boa parte dos casos, apresentar a Deus a situação é o melhor caminho. Ele é o reto juiz.

É absurda em algumas administrações eclesiásticas (igrejas e convenções) a falta de transparência na apresentação dos relatórios de receitas e despesas da instituição. Os líderes fazem questão de dificultar o acesso às contas. Quando inquiridos, reagem das mais diversas formas e maneiras, fazendo drama por se sentir ofendido, implementando punições severas e perseguições implacáveis aos seus inquiridores (que passam a ser chamados e tratados como inimigos). Há quem contrarie o próprio estatuto da organização, ao indicar os seus próprios fiscais. Líder íntegro e reto “escancara” as contas para quem duvida de sua honestidade, e pede auditoria quando a sua administração é questionada, e tudo isso, sem revanchismos ou ressentimentos.

Temos situações em que o tesoureiro da instituição é mera figura simbólica, visto que os recursos (dízimos e ofertas) vão diretamente para as mãos e bolsos dos “donos” e “senhores” das igrejas, que os administram a seu bel prazer e conveniência. Os recursos da igreja, oriundos dos dízimos e ofertas dos irmãos, devem ser administrados com temor e tremor, e com toda a transparência necessária. É preciso investir com sabedoria, dando prioridade ao que é urgente e extremamente necessário ao Reino de Deus.

Se Deus não deixou encoberto e impune os pecados da liderança do Antigo e do Novo Testamento, expondo-os nas páginas da Bíblia, por que agiria diferente na atualidade? Quem escandaliza o Evangelho é quem comete o pecado, e não quem o denuncia.

Como sempre coloco, há ainda líderes cristãos sérios e comprometidos com Deus e com a sua Palavra neste Brasil, que ainda não se venderam, nem se dobraram diante da corrupção no atual sistema eclesiástico.

Ainda há, como Neemias, líderes que se indignam com o pecado, e corajosamente resistem a toda sorte de profanação e corrupção no ministério. Suas convicções estão firmadas sobre a rocha das Escrituras.[6] O pecado deve provocar em nós indignação. Apenas pessoas que tem capacidade de se indignar contra o mal podem fazer a diferença na História.[7] Contudo, devemos ter o cuidado necessário para não perdemos o controle emocional, e de não privarmos os acusados da possibilidade de se defenderem. Parece-nos que no caso que envolveu a ação enérgica de Neemias, o pecado era escancarado e gritante.

É tempo de restauração!


[1] TUNNERMANN, Rudi. As reformas de Neemias. São Leopoldo/São Paulo: Editora Sinodal/Paulus, 2001, p. 170.

[2] BARBER, Cyril J. Neemias e a dinâmica da liderança eficaz. São Paulo: Editora Vida, 1982, p. 148.

[3] TUNNERMANN, Ibid., p. 173.

[4] LOPES, Hernandes Dias. Neemias: o líder que restaurou uma nação. São Paulo: Hagnos, 2006, p. 206-207.

[5] RENOVATO, Elinaldo. Neemias: integridade e coragem em tempos de crise. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p. 122.

[6] BARBER, ibid., p. 148.

[7] LOPES, ibid., p. 207.

2 comentários:

klebersantos disse...

A Paz do Senhor Pastor Altair!!.

pastor,imagine que há muitos lideres que não tem o dicernimento que Pedro teve em relação a Ananias e Zafira.por causa de seus dizimos altos e suas ofertas dão-lhes cargos nas igrejas.

eu já presenciei isso[...]

em Cristo Jesus
kleber santos

Samuel Borges disse...

Pr. Altair,

Quantas verdades. Vejo-as como uma voz profética ecoando. Para quem quiser ler e refletir, escrevi no Samuca-borges.blogspot.com ideias por uma CGADB unida e mais relevante, no anseio de ver dias melhores e conservação da nossa AD Brasil, nos prumos do Senhor e Cristo.

Grande abraço!