quarta-feira, 8 de junho de 2011

UMA IGREJA AUTENTICAMENTE PENTECOSTAL. Subsídio para Lição Bíblica da CPAD - 2º Trimestre/2011

A lição bíblica desta semana trata sobre as características de uma igreja autenticamente pentecostal, e ressalta os aspectos da evangelização, do ensino e da ajuda aos necessitados.

Tenho insistido no fato de que o Centenário das Assembleias de Deus no Brasil é um momento não apenas para celebração, mas, propício também para a reflexão. Precisamos analisar criticamente o presente, corrigir as falhas, contextualizar (sem secularizar) os métodos e avançar em direção ao futuro, com uma mensagem e práticas relevantes.

EVANGELIZAÇÃO PENTECOSTAL

"E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura." (Mc 16.15)

"[...] mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra." (At 1.8)

O principal objetivo do batismo com o Espírito Santo foi o de capacitar a Igreja para pregar o Evangelho de poder, com poder. Na Bíblia, temos a mensagem do Evangelho, que deve ser pregada em todos os lugares e a toda criatura. Mas, como pregar o Evangelho? Quais os métodos e estratégias? Um olhar sobre os evangelhos e sobre o livro de Atos, nos revela que várias foram as maneiras pelas quais o Evangelho foi anunciado, pregado, proclamado e testemunhado.

No que se refere a Assembleia de Deus no Brasil enquanto denominação pentecostal, dois métodos de evangelização foram bem marcantes ao longo dos seus 100 anos de existência: o evangelismo de abordagem pessoal e as cruzadas ou concentrações evangelísticas.

No caso do evangelismo pessoal, ele sempre foi realizado em praças, ruas, presídios, hospitais, etc. Já as cruzadas ou concentrações, foram e são marcadas em locais estratégicos, que comportam um número considerável de pessoas.

Não temos dúvidas de que estes métodos colaboraram, e ainda colaboram para o crescimento da igreja nos dias atuais. A questão é a seguinte: Estes métodos estão conseguindo manter os índices de crescimento e dando os resultados de outrora? Me parece que não.

É visível e notória a diminuição da presença de crentes no evangelismo pessoal da igreja (em alguns locais já não existe evangelismo). Por muitos anos, a tarde do domingo foi "sacralizada" como o momento para o evangelismo pessoal da comunidade cristã local. Alcancei o tempo em que crentes eram ameaçados com a possibilidade de "castigos divinos", "punições do alto" e outras mazelas, caso não evangelizassem no domingo à tarde. Alguns foram severamente estigmatizados, mesmo quando a falta no evangelismo era justificável. De uma forma tímida, algumas igrejas, percebendo os baixos resultados do evangelismo "tradicional", resolveram mudar (ou dar outras alternativas) o dia do evangelismo. Acontece que a questão do evangelismo pessoal não se limita ao dia ou ao horário, mas, e principalmente, ao método.

O tema "missões urbanas" está em voga nos centros acadêmicos teológicos, em palestras e na literatura evangélica. Qual a razão? A nova realidade brasileira. Aquele "saudoso" tempo de pessoas nas calçadas e ruas, sem pressa, disponíveis para ouvir, já é quase parte apenas de nossa memória e lembranças. As grandes massas estão concentradas nas cidades, e vivenciando novas realidades. Condomínios fechados, prédios de luxo inacessíveis, pressa, indisponibilidade para ouvir, estresse, trabalho exaustivo e outras questões, mudaram a rotina e o comportamento das pessoas. As igrejas que mais crescem na atualidade são aquelas que percebendo a realidade e os desafios dos novos tempos, procuram adequar seus métodos de evangelismo, sem abrir mãos dos princípios bíblicos. Hoje, tem dado muito certo a evangelização através de reuniões e estudos bíblicos nos lares. Alguns líderes olham com desconfiança esta prática, associando-a equivocadamente ao G12 e às igrejas em células. A igreja primitiva usou o método de reuniões domésticas com sucesso (At 2.46; 20.20; 1 Co 16.19 etc.).

Deus tem uma direção para cada época, basta que oremos e analisemos a situação, dependendo em tudo da direção e orientação do Espírito. Alguns parecem estar tão ocupados, que em vez da oração, análise e discussão de ideias, preferem comprar livros com "fórmulas de crescimento", tipo receita pronta, para aplicar e "funcionar".

Em relação às cruzadas ou concentrações evangelísticas, que em boa parte dos casos são concentrações apenas de crentes, onde a pipoca, o refrigerante, o cachorro quente e o espetinho chamam mais a atenção do que a pregação da Palavra, os baixos resultados são alarmantes. Neste caso, penso que em alguns lugares falta um planejamento estratégico, do tipo que víamos nas cruzadas do saudoso pastor e missionário Bernhard Johnson. Outro grande problema é a falta de acompanhamento e discipulado dos novos convertidos. Observem a discrepância do número daqueles que atendem ao apelo nas cruzadas, em relação ao número daqueles descem às águas batismais.

É tempo de repensar os nossos métodos de evangelização, sem necessariamente descartar os "tradicionais".

EDUCAÇÃO CRISTÃ PENTECOSTAL

"Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século." (Mt 28.19-20)

Tratantando-se de "educação pentecostal", quero destacar aqui dois espaços educativos: a Escola Teológica e a Escola Bíblica Dominical.

Apesar da grande euforia provocada pelo crescimento e aberturas de instituições de educação teológica mantidas e de alguma forma ligadas às Assembleias de Deus no Brasil, nem sempre a qualidade oferecida em termos de estrutura, conteúdo, grade curricular e professores é a mesma.

Nos dias atuais, em muitas instituições de ensino teológico, o que vemos ainda é a simples reprodução de doutrina e de teologia, sem nenhum pensamento ou argumento crítico, aliás, quando alguém esboça tal iniciativa corre o risco de ser enquadrado no rol dos hereges ou dos subversivos. "É proibido pensar", eis o lema nos muitos espaços do saber e fazer teológico das Assembleias de Deus no Brasil.

O interessante (ou grave) é que professores das mais diversas disciplinas não conseguem chegar a um acordo sobre algumas questões presentes no conteúdo programático do curso e da disciplina. Em certos casos, numa mesma instituição, um professor acaba desfazendo o que o outro ensinou. Essa realidade já saiu das salas das instituições de ensino teológico, e já se encontra presente nos púlpitos das igrejas e nas salas da Escola Dominical.

Os grande desafios para o futuro da educação teológica nas Assembleias de Deus são:

- Primar por uma formação acadêmica presencial, por extensão e a distância de qualidade;
- Combater a mercantilização e a banalização dos cursos teológicos (que em alguns casos viraram simplesmente "negócio");
- Incentivar a produção e a publicação acadêmica (a Casa Publicadora das Assembleias de Deus, na condição de editora oficial, teria uma importância fundamental neste processo);
- Promover o equilíbrio entre ortodoxia (doutrina correta), ortopatia (sentimento correto) e ortopraxia (prática cristã correta).
- Valorizar as orientações, buscar credenciamento e assessoria junto ao Conselho de Educação e Cultura da CGADB.

O principal espaço educativo nas Assembleias de Deus no Brasi, sem dúvida alguma, continua sendo a Escola Bíblica Dominical (já com sinais de decadência e falência em alguns lugares). Ela também deve ser objeto de nossa reflexão neste Centenário. Seus principais desafios, em meu entendimento são:

- Perceber as transformações educacionais e culturais, adequando-se à novas realidades;
- Promover a inclusão daqueles que gostariam de frequentá-la, mas que se encontram impossibilitados pelas mais diversas razões;
- Oferecer uma melhor estrutura física;
- Disponibilizar material didático para professores e alunos;
- Utilizar as novas tecnologias de comunicação e informação a seu favor;
- Investir na formação inicial e continuada de professores, dirigentes e demais colaboradores.

Vejo com otimismo o crescimento e a multiplicação de conferências, simpósios, seminários e outros eventos voltados para a promoção e crescimento da ED, realizados pela CPAD ou pelas igreja locais.

PRÁTICA SOCIAL PENTECOSTAL

"Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta." (Tg 2.14-17)

Sempre que o tema "Ajuda aos Necessitados" é abordado, observamos algumas reações e atentamos para alguns fatos no meio assembleiano. Observemos alguns deles:

1. Um Grande número de alunos, professores, dirigentes e superintendentes de ED questionam as poucas ações concretas nesta área (chamada de "social");

2. Líderes de igrejas, aproveitando o tema da lição bíblica, resolvem fazer campanhas de doações e socorro aos necessitados, mas logo após o estudo da lição abandonam a prática;

3. Se percebe que muitas igrejas nunca vão além da simples distribuição aleatória e desorganizada de cestas básicas, sem nenhum levantamento das reais necessidades dos beneficiários;

4. Uma ênfase num certo socialismo ou comunismo cristão, fruto de uma interpretação equivocada do tema "Comunidade dos Bens". Interessante é que os que defendem teoricamente esta ideia não a colocam em prática, partilhando todos os seus bens com os necessitados;

5. Irmãos, individualmente ou em "grupos", diante do descaso da "instituição" ou da "comunidade cristã" com a ajuda aos necessitados, acabam se achando no direito de administrarem os próprios dízimos e ofertas, não levando em consideração as recomendações (determinações) da liderança;

6. Igrejas se mobilizam para prestar socorro às vítimas de grandes catástrofes naturais em outras regiões, mas no seu cotidiano esquecem de socorrer os seus necessitados (Gl 6.10), e os que vivem em situação de miséria na localidade onde está estabelecida;

7. Para dizer que socorrem os necessitados, algumas igrejas afirmam manter hospitais, escolas, creches, orfanatos, abrigos de idosos funcionando, casas de recuperação etc. Acontece que em alguns casos, as condições de atendimento e assistência são muito precárias. As pessoas lá atendidas sofrem de um grande descaso e desumanização;

8. É afirmado ainda, que a igreja faz o trabalho social muito bem, mas sofre por não divulgá-lo. Entendo que pelo menos os membros deveriam tomar conhecimento das ações em favor dos necessitados;

9. A calamidade dos necessitados se acentuam diante da ostentação e da vida regalada de algumas lideranças, através da aquisição e exibição dos símbolos capitalistas de "poder" e "status ministerial". Na versão e lógica "espirituosa" deste capitalismo selvagem (Teologia da Prosperidade), quanto mais o pastor ou líder ficar rico (ou pelo menos parecer), mas demonstrará o quanto o seu ministério é abençoado por Deus. Obviamente esta lógica acaba trazendo problemas para alguns líderes de igrejas na atualidade. Por exemplo, podemos citar a necessidade de um pastor precisar de "seguranças". Tal necessidade é resultado direto da ostentação já citada. Citamos ainda o receio que alguns possuem de terem seus filhos ou parentes sequestrados. Não consigo imaginar Jesus, Pedro, Paulo, João, Tomás de Aquino, Agostinho, Lutero, Calvino e outros ícones da fé precisando de seguranças particulares. Alguma (ou muita) coisa está errada. Viver dignamente do evangelho foi trocado por viver explendorosamente, ou regaladamente do evangelho;

10. É interessante também afirmar, que diante do exposto no ponto acima, dentro de um mesmo ministério, há líderes que abusam das regalias enquanto outros passam extrema necessidade. A ideia, volto a deixar claro, não é a de um socialismo ou comunismo ministerial cristão, falo sim (pois há uma série de fatores e variantes aqui envolvidos) da necessidade de diminuir a distância "econômica", promovendo um viver digno para todos.

Se a sua igreja mantém instituições sociais, faça visitas periódicas ao local, e verifique se as condições oferecidas são humanizadoras. Suas doações, ofertas e dízimos devem ser administrados com responsabilidade.

Não vai adiantar muita coisa (ou nada) estudarmos mais uma vez esses temas (evangelização, educação e ajuda aos necessitados), sem refletir sobre a nossa atual condição (cada um deve assumir a sua responsabilidade), sem discussão, sem propostas de mudanças, sem planos e ações concretas.

Saber sobre, e perceber como as coisas estão não é o suficiente. Necessário é mobilizarmo-nos, agirmos, tomarmos uma iniciativa, para que o nosso discurso religioso, piedoso e pentecostal se concretize, agora no Centenário, e até a volta de Jesus.

11 comentários:

SETEQUE disse...

É assim mesmo que vejo esse assunto.
Boa abordagem. Bem direta e concisa.
Eu mesmo, ao ler, me envergonhei de alguns pensamentos mesquinhos que me vieram à mente.
Bom é estar na direção de Deus.
Deus nos abençoe.
Continue com o trabalho.
Graça e paz.

ALTAIR GERMANO, disse...

Amados do SETEQUE,

conto com as vossas orações. Obrigado pelas palavras de incentivo e pela participação.

Abraços,

Só Coisas que Edificam disse...

A PAZ DO SENHOR, Pr. Altair!


Excelente abordagem! Infelizmente isto muitas tem deixado de cumprir o “Ide”, e como o senhor disse algumas estratégias precisa ser seguida para que o povo volte a praticar a evangelização “institucional”.
Onde congrego a forma tradicional foi mudada. Atualmente as evangelizações pessoais, são da seguinte forma: Fazemos cultos relâmpagos nas casas dos membros da congregação e evangelizamos aos seus vizinhos, e quando os irmãos moram com pessoas que ainda não se converteram, nós evangelizamos para elas.
Graças a DEUS tem dado resultado. E aí fica o exemplo para os irmãos que quiserem adotar em suas evangelizações. Que DEUS nos ajude e dê da sua graça a todos nós.
A PAZ DO SENHOR! Que Deus continue lhe usando.
Abraços!

lilian disse...

Parabéns pela coragem e capacidade de sintetizar com muita profundidade um assunto delicado para muitos lideres, que se falado em um púlpito certamente a pessoa será desligado da Igreja, muitos não gostam de pessoas esclarecidas, preferem neófitos na fé para servirem como massa de manobra, não se preocupam de forma discípulos maduros, porque preferem seguidores.

Carlos disse...

A paz, sou professor da escola dominical e toda semana visito seu blog abençoado antes de prepara minhas aulas, Deus tem usado o senhor como vaso de bênçãos no ministério do ensino, como comenta a lição(ensino ortodoxo) parabéns pela abordagem dinâmica, diferenciada e comprometida com o reino, fica c Deus. SG-Rio.

ALTAIR GERMANO, disse...

Só coisas que edificam,

parabéns pela iniciativa em vossa igreja.

Abraços,

ALTAIR GERMANO, disse...

Lilian,

é preciso coragem para falar, e é preciso mais coragem ainda para mudar.

abraços,

ALTAIR GERMANO, disse...

Carlos,

grato pelas palavras de incentivo. Conto com suas orações.

Abraços,

Ivanildes disse...

Prof. Altair,
Gostaria de parabenizá-lo pela pertinente reflexão acerca da evangelização, educação cristã e prática social pentecostal e corroboro que deveríamos neste centenário, ponderar profundamente sobre o principal espaço educativo nas Assembléias de Deus no Brasil, a Escola Bíblica Dominical.
Sei que muitos eventos (conferências, simpósios, congressos, etc) de EBD estão acontecendo em todo País, mas sei também que muitos dos nossos professores (voluntários) não têm condições de participar.
Há de se convir que uma Política Pública Educativa (Cristã) não suscita resultados sem planejamento, investimento (humano e material), acompanhamento e avaliação. Sou adepta ao Planejamento Estratégico, pois o vejo como uma ferramenta eficaz de gerenciamento, tendo em vista que parte de um diagnóstico real, elaboração de metas a serem alcançadas gerando resultados concretos.
Que Deus lhe abençoe e lhe conceda sempre assim cheio de :
Fé, coragem, ousadia, convicção.
Ivanildes
Bacabeira-Ma

elionézio disse...

Paz do Senhor...
Trabalho no departamento missionário da minha congregação em Boa Vista-Roraima,e ao mesmo tempo com evangelismo,a respeito de arrecardações me vejo com um trabalho proveitoso conforme o ensino aqui prestado,(lógico tenho que melhorar mais),e quanto ao evangelismo,com este ensino e comentário de: Coisas que edificam,abri meus olhos para um novo plano de evangelismo,pois através desta lição e comentários,percebi que nosso evangelismo era algo que "forçado","sem bom planejamento" senão o "rotineiro"...
Obrigado por compartilhar,que Deus continue lhe dando forças,e retribua a sua humildade,por não ser orgulhoso e guardar bons ensinos só contigo!
Ass:elionézio dhosaf
boa vista-RR

Ângelo dos Santos Monteiro, disse...

Prezado Pr. Altair Germano,

Gostei muito dessa sua postagem, e a considero de caráter extremamente relevante para reflexão e retomada de atitudes frente ao atual contexto religioso e eclesiástico que estamos vivendo.
Comungo da mesma opnião que você, e meu mais sincero desejo é que Deus possa suscitar nos nossos guetos evangélicos pessoas com uma mentalidade e visão tão coerente como a sua. Que Deus possa continuar lhe abençoando ricamente, e usando como instrumento para edificação da Igreja do Senhor Jesus Cristo, que por enquanto ainda está presente neste planeta.


Fraternalmente em Cristo,

Pb. Ângelo dos Santos Monteiro
http://pbangelo.blogspot.com