quinta-feira, 7 de abril de 2011

O FOGO É SÍMBOLO DO ESPÍRITO SANTO? (MÁRCIO KLAUBER MAIA)

Os símbolos constituem um importante instrumento da revelação de Deus para os homens. Através dos símbolos Deus apresenta verdades espirituais importantes por meio de coisas naturais conhecidas, estabelecendo um paralelismo de idéias e significados.

Um estudo apropriado dos símbolos deve ser feito através do método histórico-gramatical, isto é, o princípio de interpretação literal ou textual da Bíblia, utilizado de forma sistemática, o qual permite que a própria Escritura interprete a si mesma, através da progressão da revelação, sem fantasias e simbolismos complexos. Não devemos, portanto, confundir o estudo dos símbolos com o método alegórico de interpretação da Bíblia, o qual pretende dar ao texto um significado que ele não possui. Sobre este assunto, Charles Ryrie [1] afirma:

“Os dispensacionalistas reclamam para si a interpretação literal na hermenêutica. Isso significa uma interpretação que dá o mesmo significado a toda palavra que teria em seu uso normal, quer empregado na escrita, fala ou no pensamento. Às vezes é chamado de interpretação histórica gramatical, pois o significado de cada palavra é determinado por considerações históricas e gramaticais. O princípio pode também ser chamado de interpretação normal, pois o significado literal das palavras é a abordagem normal para o seu entendimento em todas as línguas. Pode ser designado também de interpretação simples, já que ninguém recebe a idéia errada de que o princípio literal elimine o uso de figuras de linguagem. Símbolos, figuras de linguagem e tipos são todos interpretados de maneira simples neste método, e não são contrários à interpretação literal. Afinal de contas, a existência de uma figura de linguagem depende da realidade do significado literal dos termos usados. Muitas vezes as figuras tornam mais claro o significado literal, normal e simples que elas transmitem ao leitor”.

O uso do método histórico-gramatical para uma interpretação literal das Escrituras, portanto, não dispensa o uso de linguagem figurada ou simbólica, pois a mesma é um recurso de comunicação, apresentada no uso das figuras de linguagem. Roy Zuck afirma que [2] “o estilo figurado é uma forma colorida de comunicar a verdade literal… a linguagem figurada não é a antítese da interpretação literal; é sua componente“. A Bíblia Sagrada emprega muitas figuras de linguagem, tais como símile (Sl 102.6; Is 1.8), metáfora (Gn 49.9; Sl 71.3), metonímia (1 Ts 5.19; Lc 16.29; 1Co 10.21) e fábula (Jz 9.8-15; 2 Rs 14.9), entre outras.

Quando Jesus afirma que é a porta (Jo 10.9), ninguém deve pensar em Cristo como sendo uma chapa de madeira com dobradiças e fechaduras, mas no sentido figurado, através do qual ele fala do acesso que provê para Deus. Da mesma forma, quando a Bíblia diz que os montes pulam (Is 55.12), não se trata de um terremoto ou explosão, mas de um exercício de prosopopéia.

O símbolo não possui valor profético ou simbólico em si mesmo, mas somente o valor que é atribuído ao ser empregado, no texto, como tal. Os símbolos servem de sinal de algo que representam sem, necessariamente, ser semelhantes em qualquer respeito. O que precisamos identificar é o significado que é atribuído ao objeto (o símbolo) naquilo que ele representa (o referente). O azeite é símbolo do Espírito Santo e não devemos procurar semelhanças entre eles, pois o Espírito Santo não é líquido, nem viscoso, entre outras características do azeite. A referência do azeite ao Espírito Santo é, principalmente, no sentido da unção (1Jo 2.20, 27). E quando a Bíblia apresenta o Espírito Santo como referente do azeite, simplesmente apresenta o objeto (Zc 4.6). Do mesmo modo, a pomba é um símbolo do Espírito Santo e ele não possui penas ou bico, mas o simbolismo é no sentido da doçura e pureza.

O maior cuidado que devemos ter é o de não empregar o símbolo com o significado errado ou procurar muitas semelhanças entre o objeto e o seu referente. Roy Zuck exemplifica [3]:

“Um leão é feroz e forte, mas somente sua ferocidade é associada a Satanás (1 Pe 5.8) e apenas sua força refere-se a Cristo (Ap 5.5). As pombas são dóceis e estouvadas, mas em Mateus 10.16 apenas sua docilidade é associada aos cristãos, enquanto em Oséias 7.11 somente seu estouvamento é relacionado a Israel”.

Assim sendo, pelo menos duas observações precisam ser feitas: a) um referente pode ser representado por muitos objetos; o Espírito Santo, por exemplo, é representado por vários símbolos, tais como vento, fogo, e pomba, entre outros; b) um objeto pode ter diferentes referentes; o leão, já citado, pode referir-se a Cristo ou a Satanás, o cavaleiro sobre um cavalo branco do capítulo 6 de Apocalipse refere-se a Satanás, enquanto que o cavaleiro sobre um cavalo branco do capítulo 19, do mesmo livro, representa Cristo. Satanás é identificado como a “antiga serpente” (Ap 20.2), mas a serpente de bronze construída por Moisés, no deserto, a mando de Deus (Nm 21.8), é um tipo de Cristo (Jo 3.14,15).

O fogo é empregado na Bíblia para representar várias coisas: na aliança de Deus com Abraão, é instrumento de confirmação (Gn 15.17). Ele revelou-se a Moisés através do fogo, a fim de chamar a atenção através de um arbusto seco que não se consumia (Ex 3.2). Ele conduziu o povo pelo deserto por uma coluna de fogo, que representava a sua presença no meio deles (Nm 14.14). Severino Pedro [4] apresenta várias destas situações:

As manifestações de Deus algumas vezes faziam-se acompanhar pelo fogo (Êx 3.2; 13.21,22; 19.18; Dt 4.11), que tanto representa sua presença como sua glória (Ez 1.4,13), sua proteção (2 Rs 6.17), sua santidade (Dt4.24), seus juízos (Zc 13.9), sua ira (Is 66.15,16) e, finalmente, o Espírito Santo (Mt 3.11; At 2.3; Ap 4.5).

O fogo, portanto, possui muitos significados na Bíblia. Pode ser a proteção para o povo de Deus, como um “muro de fogo” (Zc 2.5), e também o juízo de Deus sobre os rebeldes (Nm 16.35). Pode ser um instrumento de purificação, como com o ouro (Ml 3.2,3; Zc 13.9) ou a penetrante visão de Cristo, que possui olhos “como chama de fogo” (Ap 1.14). Também é símbolo da Palavra de Deus (Jr 23.29).

Para fazer referência ao Espírito Santo, o fogo aparece nas “línguas repartidas, como que de fogo”, vistas sobre os discípulos, no derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecostes (At 2.3). É apresentado, também, nas sete lâmpadas de fogo que estão diante do trono do Cordeiro, “as quais são os sete Espíritos de Deus” (Ap 4.5). Há referência, ainda, na fala de João Batista, quando afirma que Jesus batizará “com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3.11).

Alguns estudiosos têm apresentado dificuldades de associar o fogo ao Espírito Santo pelo fato de entenderem que João Batista estaria falando de dois batismos diferentes: o batismo com o Espírito Santo, para os crentes fiéis, e o batismo com fogo, como um sinal do juízo de Deus, para os infiéis. Assim sendo, o fogo não estaria associado ao Espírito Santo.

Apesar da fala de João Batista fazer referência a um juízo de Deus, entendemos que ele falava de um só batismo, que seria aplicado por Jesus aos crentes; purificador para o que é precioso, mas destruidor para o que não é (1 Cor 3.12-15). William Hendriksen [5] faz o seguinte comentário:

“Calvino ao comentar Mt 3.11, chama atenção para o fato de que Cristo é quem concede o Espírito de regeneração, e que, como fogo, esse Espírito nos purifica retirando a nossa imundícia. Contudo de acordo com as próprias palavras de Cristo (At 1.5,8), lembradas por Pedro (At 11.16), num sentido especial dessa predição se cumpriu no dia de pentecostes e com a era que ela introduziu. Foi então que, pela vinda do Espírito, as mentes dos seguidores de Cristo foram enriquecidas com a iluminação sem precedentes (1 Jo 2.20); suas vontades se fortaleceram, como nunca antes, com uma animação contagiante (At 4.13,19,20,33; 5.29); e seus corações se inundaram com uma afeição ardente a um grau até então desconhecido (At 2.44-47; 3.6; 4.32).

A menção do fogo (”Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo”) ajusta essa aplicação ao pentecostes, quando “foram vistas por eles línguas repartidas como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles” (At 2.3). A chama ilumina. O fogo purifica. O Espírito faz as duas coisas. Não obstante, pelo contexto (anterior e posterior, ver vv.10 e 12) e pela profecia de Joel referente ao pentecostes (Jl 2.30; cf. At 2.19), considerada no contexto desse último, (ver Jl 2.31), parece que o cumprimento final das palavras de João aguarda a segunda vinda gloriosa de Cristo para purificar a terra com fogo (2Pe 3.7,12; cf. Ml 3.2; 2Ts 1.8).

Nas Escrituras com freqüência o fogo simboliza a ira. Mas o fogo também indica a obra da Graça (Is 6.6,7; Zc 3.9; Ml 3.3; 1Pe1.7). Portanto, não é estranho que esse termo possa ser usado num sentido favorável como indicativo das bênçãos do pentecostes e da nova dispensação, e num sentido desfavorável como indicativo dos terrores do futuro dia do Juízo. É Cristo quem purifica os justos e expurga a terra de suas escórias - os ímpios. Além disso, se os profetas do antigo testamento, por meio da perspectiva profética, combinam entre si eventos que correspondem a primeira vinda de Cristo (tomada em seu sentido completo, incluindo o pentecostes) com os da segunda, porque não se pode atribuir a mesma característica também ao estilo de João Batista, que de muitas formas se parecia com esse profeta? Portanto, é evidente que é forte o argumento em favor da interpretação segundo a qual a palavra fogo, aqui em 3.11, se refere tanto ao pentecostes como ao juízo final”.

Marc D. McLean [6] também comenta esta passagem, sob o mesmo ponto de vista:

“O aspecto mais amplo do fogo como elemento purificador encontra-se no pronunciamento - ou profecia - de João Batista: “ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará” (Mt 3.11,12; ver também Lc 3.16,17).

As palavras de João Batista aplicam-se mais diretamente à separação entre o povo de Deus e os que têm rejeitado a Ele e ao Messias. Os que o rejeitaram serão condenados ao fogo do juízo. Por outro lado, o fogo ardente e purificador do Espírito de Santidade também opera no crente (1 Ts 5.19)”.

Outros argumentam que o fogo é destruidor e, portanto, não pode representar o Espírito Santo. O que podemos perceber, entretanto, é que o mesmo fogo que destrói também é utilizado para purificar os metais nobres e na confecção de aços e vidros, por exemplo. Da mesma forma, a água, que lava e purifica, também afoga e destrói, como temos visto nestes dias de tsunamis, mas é um símbolo do Espírito Santo.

Conclusão

Não devemos buscar o significado do símbolo olhando para as características do objeto, mas para a característica e a mensagem que Deus quer transmitir através do referente. Neste caso, quem determina a referência do fogo como símbolo do Espírito Santo não são as características do fogo, mas o que Deus quer nos ensinar, através do fogo, sobre o Espírito Santo, e disto nos falou através das Escrituras.

Os que se baseiam nas características do fogo destacam que o fogo aquece, queima, purifica, ilumina, entre outras características. Outros elementos, porém, podem ter as mesmas propriedades (como o ácido e outros produtos químicos, por exemplo), mas não foram indicados por Deus como símbolos do Espírito Santo.

O fogo é apresentado, na Bíblia, em três situações específicas, em geral: juízo, purificação e demonstração de poder. Quando Deus utilizou o fogo para punir os maus e destruir os desobedientes, ele foi usado como sinal de juízo divino. Foi assim com a terra do Egito, quando Deus lançou saraiva e fogo (Ex 9.24), com Nadabe e Abiú, filhos de Arão, quando trouxeram fogo estranho perante o Senhor (Lv 10.1,2), com Coré e seus seguidores, quando foram rebeldes a Deus (Nm 16.35), com os soldados que buscavam prender Elias (2Rs 1.10), entre outros.

Quando a Bíblia aponta para o uso do fogo como elemento purificador, a finalidade não é destruir aquilo que é bom, mas eliminar o que não é bom, a fim de que o que é bom seja aperfeiçoado. É que representa quando a Bíblia compara a ação do Messias com a purificação do ouro e da prata (Ml 3.2,3; Zc 13.9), ou quando fala da provação dos crentes como o trabalho do ourives (1 Pe 1.6,7).

Em outras ocasiões, entretanto, o fogo representa a manifestação do poder e da glória de Deus e representa a sua presença no meio do seu povo. Nestas situações o fogo não queima, nem purifica, mas apenas apresenta o poder do Senhor. Foi assim na sarça de Horebe (Ex 3.2), na coluna de fogo (Nm 14.14) ou na manifestação de sua presença sobre o Monte Sinai (Ex 19.18).

Creio ser esta a principal característica do simbolismo do fogo, com referência ao Espírito Santo, que marca a manifestação do poder e da virtude de Deus sobre a vida dos crentes, intensificando a presença de Deus na vida de cada um.

Busquemos, portanto, uma compreensão correta do simbolismo bíblico e nos apropriemos dos seus ricos significados, a fim de conhecermos mais as profundas verdades bíblicas que nos são ensinadas, sem atropelar a interpretação correta do texto sagrado.

[1] Dispensacionalismo: ajuda ou heresia, Charles C. Ryrie, ABECAR, pág. 95, 96.

[2] A Interpretação Bíblica, Roy B. Zuck, Edições Vida Nova, pág. 171, 172.

[3] A Interpretação Bíblica, Roy B. Zuck, Edições Vida Nova, pág. 216.

[4] A Existência e a Pessoa do Espírito Santo, Severino Pedro da Silva, CPAD, pág 39.

[5] Mateus, volume 1, William Hendriksen, Editora Cultura Cristã, pág 294, 295.

[6], Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal, editada por Stanley M. Horton, CPAD, pág 388, 389.

REFERÊNCIAS

ZUCK, Roy B., A Interpretação Bíblica: meios de descobrir a verdade da Bíblia, Edições Vida Nova, São Paulo, 1ª edição, 1994.

HORTON, Stanley M., Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal, CPAD, Rio de Janeiro, 4ª edição, 1997.

RYRIE, Charles C., Dispensacionalismo: Ajuda ou Heresia?, ABECAR, Mogi das Cruzes-SP, 1ª edição, 2004.

HENDRIKSEN, William, Mateus, volume 1, Editora Cultura Cristã, São Paulo, 1ª edição, 2001.

CHAFER, Lewis Sperry, Teologia Sistemática, volume 5 e 6, Editora Hagnos, São Paulo, 2003.

SILVA, Severino Pedro da, A Existência e a Pessoa do Espírito Santo, CPAD, Rio de Janeiro, 1ª edição, 1996.

Márcio Klauber Maia é ministro do evangelho, diretor e professor do CETAD - Centro de Educação Teológica da Assembleia de Deus em Natal-RN e autor do livro O Caminho do Adorador.

Fonte: Escola Dominical na WEB

2 comentários:

Marcelo Lemos disse...

Muito bom, já quase apanhei no seminário por dizer tais coisas. Parabéns pela coragem de abordar a questão.

Assembleia de Deus de Água Azul do Norte-PA disse...

Posso copiar os seus artigos em meu blog: assembleiadedeusdeaguaazuldonorteblogspot? Djair