sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A CONVERSÃO DE PAULO. Subsídio para Lição Bíblica - 1º Trimestre/2011.

Lição 9 - 1º Trimestre de 2011
Texto Bíblico
: Atos 9.1-9
Texto Áureo: Atos 9. 15-16

Paulo, sua origem e família


Para satisfazer as exigências e qualificação de propriedade exigida aos cidadãos de Tarso, subentende-se que a família de Paulo se enquadraria naquilo que chamamos hoje de classe média alta (SANDERS, 1999, p. 14). De origem benjaminta, recebeu o nome de Saulo (hb. Sha'ul). Nascido em Tarso, orgulhava-se de sua cidade: "Respondeu-lhe Paulo: Eu sou judeu, natural de Tarso, cidade não insignificante da Cilícia; e rogo-te que me permitas falar ao povo." (At 21.39). O nome latino Paulus lhe foi acrescentado em razão da cidadania herdada do pai (At 22.28). Tinha uma irmã que habitava em Jerusalém (At 23.16). Herdou, tudo indica do pai, a profissão de fabricante de tendas (At 18.3).

Paulo, sua educação religiosa e secular

A formação educacional religiosa de Paulo aconteceu, como todo garoto hebreu, no lar ou em uma escola ligada à sinagoga. Numa perspectiva bíblica judaico-cristã, observamos este tipo de educação nos seguintes textos:

"E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas." (Dt 6.6-9)

Percebe-se neste texto do Antigo Testamento, a participação e a importância da família na preservação dos valores espirituais e morais do povo judeu, valores que foram zelosamente guardados por Paulo.

A figura dos agentes especialmente destinados para a tarefa de ensinar surge com a instituição do sacerdócio;

"E falou o Senhor a Arão, dizendo: Não bebereis vinho nem bebida forte, nem tu nem teus filhos contigo, quando entrardes na tenda da congregação, para que não morrais; estatuto perpétuo será isso entre as vossas gerações; E para fazer diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo, E para ensinar aos filhos de Israel todos os estatutos que o Senhor lhes tem falado por meio de Moisés." (Lv 10.8-11)

"No terceiro ano do seu reinado enviou ele os seus príncipes, Bene-Hail, Obadias, Zacarias, Netanel e Micaías, para ensinarem nas cidades de Judá; e com eles os levitas Semaías, Netanias, Zebadias, Asael, Semiramote, Jônatas, Adonias, Tobias e Tobadonias e, com estes levitas, os sacerdotes Elisama e Jeorão. E ensinaram em Judá, levando consigo o livro da lei do Senhor; foram por todas as cidades de Judá, ensinando entre o povo." (2 Cr 17.7-9)

Posteriormente, os profetas assumem também essa tarefa;

"E foram cinqüenta homens dentre os filhos (discípulos) dos profetas, e pararam defronte deles, de longe; e eles dois pararam junto ao Jordão." (2 Rs 2.7)

"Respondeu Amós e disse a Amazias: Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta, mas boieiro e colhedor de sicômoros." (Am 7.14)

Durante e após o período do cativeiro na Babilônia, surge a figura do escriba, uma classe de mestres especializados, que copiavam, interpretavam e ensinavam a Lei;

"este Esdras subiu de Babilônia. E ele era escriba hábil na lei de Moisés, que o Senhor Deus de Israel tinha dado; e segundo a mão de Senhor seu Deus, que estava sobre ele, o rei lhe deu tudo quanto lhe pedira. [...] Porque Esdras tinha preparado o seu coração para buscar e cumprir a lei do Senhor, e para ensinar em Israel os seus estatutos e as suas ordenanças." (Ed 7.6, 10)

Com o advento das grandes cidades, da escrita, das transformações técnicas, da produção excedente, da comercialização, dos inovadores pensamentos sobre política e democracia, a educação e a escola ganharam um novo formato. É no período da Grécia clássica que acontece algumas das grandes revoluções pedagógica. A pólis, no intuito de formar os seus cidadãos, criam escolas especializadas para atender as suas demandas. No geral, a criança permanece em casa, com a família, até os sete anos. Após esse período, o Estado assume a sua educação (preparo físico, educação musical, formação cívica e militar, leitura e escrita, gramática, retórica etc.).

Podemos observar, que apesar destas mudanças significativas, de onde surgem as nossas escolas modernas e as teorias pedagógicas, a Bíblia nos relata que a participação da família, em especial na formação dos valores espirituais e morais de seus filhos, ainda permaneceu nos dias de Paulo:

"trazendo à memória a fé não fingida que há em ti, a qual habitou primeiro em tua avó Loide, e em tua mãe Eunice e estou certo de que também habita em ti." (2 Tm 1.5)

"Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus." (2 Tm 3.14-15)

Sanders (idem, p. 15) sugere que devido ao fervor religioso de seus pais, sua educação não foi confiada a professores gentios. Paulo foi discípulo de Gamaliel (At 22.3), um respeitado rabino, dentre sete, aos quais era conferido o título honroso de doutores da lei. Gamaliel era da escola Hilel, que tinha um posicionamento moderado acerca de questões como às leis de sábado, o casamento e o divórcio (PFEIFFER; VOS; REA, 2006, p. 839). O doutor Gamaliel se interessava ainda pela literatura grega e incentivava os judeus a se relacionarem com os estrangeiros (SANDERES, ibid. p. 17). É provável que essa educação moderada tenha influenciado sua conduta junto as gentios após a sua conversão, tolerância essa que não foi vivida em seu trato com a igreja antes de seu encontro com Jesus (At 22.4-8).

Sua formação secular pode ter envolvido a educação filosófica normal e a retórica (CHAMPLIN, 2001, p. 121). Foi um poliglota, sendo conhecedor do hebraico, aramaico, grego e latim, podendo ter aprendido outras línguas em suas viagens missionárias.

Paulo, sua conversão

A história da conversão de Paulo é narrada em Atos 9.3-19; 22.6-21 e 26.12-18, com pequenas variações nos relatos. A data de 35 D.C. é sugerida por alguns (CHAMPLIN, idem, p. 122). Alguns críticos atribuem ao evento da conversão algum desequilíbrio mental, ataque de epilepsia, insolação ou algum tipo de transe (WILLIAMNS, 1996, p. 191; KISTEMAKER, 2006, 434). Conforme Champlin (ibdem, p. 122):

"Outros críticos supõem que o senso de culpa, reprimido durante anos, em face de suas perseguições e assassínios contra os cristãos, teria subitamente explodido em experiências pseudomísticas, o que resultou em vir a ser ele justamente o contrário do que vinha sendo, ou seja, a sua conversão. Assim sendo, ainda segundo esse ponto de vista, a experiência de Saulo poderia ter sido meramente psicológica, e não verdadeiramente mística. Ora, nesse caso, Lucas, o autor do livro de Atos, teria exagerado em suas narrativas, adornando com um colorido mais vivo a realidade da vida de Paulo."

Apesar dos questionamento de alguns críticos e eruditos modernos, a conversão de Paulo foi um fato histórico, uma realidade objetiva.

A conversão de Paulo, aparentemente súbita, teve algum evento anterior com precussor? alguns argumetam que sim:

"Enquanto as narrativas em Atos, assim como as notas nas cartas, parecem indicar sua 'súbita' conversão, alguns argumentam que certas experiências devem tê-lo preparado previamente. Seu consentimento na morte de Estevão (At 7.58-8.1), e o fervor da sua campanha de casa em casa contra aqueles do Caminho (At 8.3; 9.1-2; 22.4; 26.10, 11) dificilmente não o afetariam; sua furiosa jornada em direção a Damasco representou o clímax dos seus esforços." (PFEIFFER; VOS; REA, idem, p. 1475)

"Entretanto, creditar a conversão de Saulo à iniciativa de Deus pode, facilmente, causar mal-entendidos, e precisa receber dois esclarecimentos: a graça soberana que conquistou Saulo não foi repentina (no sentido de que não teria havido preparação anterior) nem compulsiva (no sentido de que ele não tinha opção)." (STOTT, 2003, p. 191)

Outros entendem o evento como um acontecimento súbito: "A conversão de Saulo é exclusivamente obra de Jesus por meio de súbita intervenção na vida de seu inimigo." (BOOR, 2003, p. 141)

Se súbita ou resultado de uma sequência de experiências e eventos, o fato é que a vida de Paulo foi mudada e transformada radicalmente pelo poder da Palavra do Senhor e do seu Santo Espírito.

Paulo, sua vocação e obra

"Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel;" (Atos 9.15)

Após convertido, Paulo tomou consciência de seu chamado para o serviço, Tal fato é testemunhado por ele próprio em 1 Coríntios 15.8-9, Gálatas 1.12-17, Fl 3.3-7 e 1 Timóteo 1.12-16. Sanders (idem, p. 29), compreende que "desde os primeiros dias de sua vida cristã, Paulo não somente sabia que era um veículo escolhido por meio de quem Deus comunicaria sua revelação, mas tinha uma ideia geral do que Deus havia planejado para o seu futuro [...]."

Kistemaker (idem, p. 447), nos apresenta cinco razões para a sua escolha nas tarefas que o Senhor lhe deu:

- Sua excelente instrução no judaísmo;
- Sua criação num ambiente de fala grega;
- Sua familiarização com a cultura helenista;
- Sua capacidade de contextualizar do Evangelho;
- Sua cidadania romana e conhecimento da vasta complexidade de estradas no império que facilitariam as suas viagens

M. Blaiklock (apud KISTEMAKER, idem), chega a afirmar:

"Nenhum outro homem conhecido na história daquele tempo possuía todas essas qualidades combinadas como Paulo de Tarso. É difícil imaginar algum outro lugar (além de Tarso) onde a atmosfera sadia e a História pudessem tão eficientemente produzi-las numa pessoa".

Apesar de questionado por muitos, o apostolado de Paulo foi legítimo (2 Co 11.5; G, 1.15-17).

Com um trabalho missionário de cerca de 10 anos, que alcançou a Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia, e com 13 epístolas compondo o cânon do Novo Testamento, a importância da obra de Paulo para o cristianismo é de um valor inestimável.

Deus tem o homem certo, para a obra certa.

Paulo, seu sofrimento

"pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome". (At 9.16)

A chamada para o ministério cristão é uma chamada para o sofrimento. Viver segundo a palavra de Deus e pregar esta palavra implica em muitas perseguições e dores. Paulo foi um claro exemplo dessa realidade. Em 2 Coríntios 11.24-28 alguns desses sofrimentos são listados:

- Muitos trabalhos

- Muitas prisões

- Açoites sem medidas

- Perigos de morte

- Trinta e nove chicotadas em cinco ocasiões

- Três pisas com vara

- Um apedrejamento

- Três naufrágios

- 24 hs boiando no mar

- Muitas jornadas

- Perigos de ladrões

- Perigos de rios

- Perigos de perseguições por judeus e não-judeus

- Perigos na cidade

- Perigos nos desertos

- Perigos em alto mar

- Perigos entre os falsos irmãos

- Muitos trabalhos e canseiras

- Muitas noites sem dormir

- Fome e sede muitas vêzes

- Falta de casa, comida e roupa

- Muitas preocupações com as igrejas do Senhor

Marshall (idem, p. 166) declara que "o Livro de Atos não esconde o fato de que o fiel testemunho a Jesus é uma tarefa custosa em termos do sofrimento que pode acarretar para quem leva as boas novas".

O conforto de Paulo estava em seu modo de lidar com o sofrimento: "Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós." (Rm 8.18)

Paulo, sua morte

Há praticamente unanimidade no fato de que Paulo terminou os seus dias em Roma (BRUCE, 2003, p. 429). Eusébio de Cesaréia (263-340 d.C.), em sua História Eclesiástica (2003, p. 76) escreve que:

Dessa maneira, aclamando-se publicamente como o principal inimigo de Deus, Nero foi conduzido em sua fúria a assassinar os apóstolos. Relata-se, portanto, que Paulo foi decapitado em Roma e que Pedro foi crucificado sob seu governo. E esse relato é confirmado pelo fato de que os nomes de Pedro e Paulo ainda hoje permanecem nos cemitérios daquela cidade.

O ano de 65 D.C., é uma data provável para a sua execução (CHAMPLIN, ibdem, p. 125).

Dessa forma, aquele que é considerado o maior e mais influente cristão da história, combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé (2 Tm 4.7).

A conversão de Paulo se reveste para mim de um caráter muito especial, uma vez que o ponto alto de minha conversão, no ano de 1988, aconteceu enquanto lia o capítulo 9 de Atos dos Apóstolos. Costumo dizer que juntamente com Paulo caí prostrado diante da voz, me redendo de joelhos aos pés daquele que é Senhor sobre tudo e sobre todos, que segundo a sua graça soberana escolhe os mais miseráveis pecadores para realizar a sua maravilhosa obra!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bíblia de Estudo Almeida. Barueri, SP. Sociedade Bíblica do Brasil, 2006.

BRUCE, F. F. Paulo o apóstolo da graça: sua vida, cartas e teologia. São Paulo: Shedd, 2003.

CESARÉIA, Eusébio de. História eclesiástica: os primeiros quatro séculos da igreja cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.

CHAMPLIN, R.N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. 5. ed. São Paulo: Hagnos, 2001. v. 5

KISTEMAKER, Simon. Atos. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. v.1

MARSHALL, I. Howard. Atos: Introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1982.

PFEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

SANDERS, J. Oswald. Paulo, o líder: uma visão para a liderança cristã hodierna. São Paulo: Vida, 1999.

STOTT, John R. W. A mensagem de Atos: Até os confins da terra. São Paulo: ABU, 2003.

WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo: Atos. São Paulo: Vida, 1996.

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