segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A EDUCAÇÃO TEOLÓGICA NAS ASSEMBLEIAS DE DEUS NO BRASIL: RESISTÊNCIA E ASCENSÃO (1)


Estamos às vésperas das comemorações do centenário das Assembleias de Deus no Brasil, e percebo ser este um momento oportuno para revermos alguns aspectos desta história, marcada por grandes desafios e conquistas.

Uma das áreas que merece uma atenção especial nesse resgate histórico, diz respeito ao desenvolvimento da educação teológica formal, marcada por muita resistência em seus primórdios.

É importante nesta empreitada, analisar alguns fatores que contribuíram para que somente após 47 anos de fundação das Assembleias de Deus, o primeiro instituto bíblico fosse criado, e mesmo assim, sem a aprovação da maior parte da liderança nacional da denominação.

A PERSPECTIVA DOS MISSIONÁRIOS SUECOS SOBRE O PREPARO E A FORMAÇÃO DE OBREIROS

Os primeiros 50 anos da Assembleia de Deus no Brasil foram marcados pelo forte trabalho e presença dos missionários de origem sueca (ou escandinava).

Os pioneiros do trabalho no Brasil foram os missionários Gunnar Vingren e Daniel Berg, que aportaram em terras brasileiras em 19 de novembro de 1910. Eles vieram dos Estados Unidos com o propósito de pregarem a mensagem pentecostal. Não intencionavam abrir igrejas. O desejo dos missionários era que a mensagem pentecostal, com ênfase no batismo com Espírito Santo evidenciado pela manifestação do falar em outras línguas, fosse recebida pelas igrejas no Brasil, proporcionando dessa forma um grande despertamento espiritual.

O projeto dos missionários enfrentou uma tão grande resistência, que acabou promovendo uma divisão na Primeira Igreja Batista do Pará, vindo este fato a contribuir para o surgimento daquela que se tornaria a maior denominação pentecostal do mundo na atualidade, a Assembleia de Deus.

A data de 18 de junho de 1911, é tida como a data oficial da fundação da igreja, que inicialmente foi chamada de "Missão da Fé Apostólica". Em 11 d janeiro de 1918, Gunnar Vingren registrou em cartório a "Sociedade Evangélica Assembléia de Deus".

Dos dois missionários pioneiros, apenas Gunnar Vingren tinha formação teológica. Ele realizou seus estudos na Faculty of the Divinity School, de 1904 a 1909, sendo diplomado pela Swedish Theological Seminary, da University of Chicago (USA).

Com o passar dos anos, outros missionários suecos vieram para o Brasil, no sentido de cooperar com a evangelização da nação. Entre estes podemos citar, por ordem de chegada: Otto Nelson (25/10/1914), Samuel Nyström (18/08/1916), Joel Carlson (12/01/1918), Nils Kastberg (07/06/1928), Gustav Bergstrom (11/1933).

O preparo teológico dos missionários suecos acontecia em escola bíblicas, que duravam três meses, num curso intensivo que objetivava a formação de pregadores pentecostais, onde recebiam ao final um certificado de participação, e o título de "evangelistas". O curso era de caráter informal, mais servia de pré-requisito para a ordenação ao ministério ou para o envio ao campo missionário, como era o caso dos obreiros filiados à Igreja Filadélfia, liderada pelo pastor Lewi Petrus. Na Suécia, eram também realizadas conferências anuais, tidas como importantes para a formação dos obreiros, que duravam uma semana.

Um sistema similar de preparo informal para obreiros foi sugerido durante a Convenção Geral de 1935, para ser implantado no Brasil a partir de 1936, onde deveria acontecer anualmente três grandes Escolas Bíblicas de Obreiros das Assembleias de Deus no Brasil, sendo uma no Norte, outra no Nordeste e outra no Sul (Sul-Sudeste). A decisão não foi levada adiante, voltando a ser discutida em 1937, por ocasião da Convenção Geral em São Paulo. Neste ano, o missionário Gustav Bergström pediu a criação de uma Escola Bíblica anual, com duração mínima de dois meses, para todos os obreiros do Brasil e aspirantes ao ministério. Foi resolvido diante do pedido, que a Assembleia de Deus no Rio de Janeiro, liderada por Nils Kastberg, realizaria essa primeira Escola Bíblica especial, que deveria durar um mês ou, no mínimo, 15 dias. As igrejas custeariam as passagens despesas dos alunos, que deveriam ser irmãos vocacionados e desejosos de aprender. A proposta foi aprovada por unanimidade.

A CHEGADA DOS MISSIONÁRIOS NORTE-AMERICANOS, COM UMA OUTRA PERSPECTIVA SOBRE O PREPARO E A FORMAÇÃO DE OBREIROS

Com a perspectiva escandinava de formação de obreiros, a ideia da criação de institutos bíblicos para a educação teológica formal nas Assembleias de Deus só começou a ser discutida após a chegada dos primeiros missionários norte-americanos, entre os anos 30 e 40. Dentre eles, podemos destacar John Peter Kolenda, formado pelo Instituto Bíblico em Pasedena, Califórnia, que chegou ao Brasil em outubro/1930, e Lawrence Olson, formado pelo Central Bible College, Springfield, Missouri, que aportou em terra brasileiras em 07 de setembro de 1938.

Os missionários norte-americanos, diferentemente dos escandinavos, optavam pela criação de institutos bíblicos, caracterizados pelo ensino formal das Escrituras, através de cursos de longa duração. Nos EUA, era comum o fato de um obreiro precisar se submeter, antes da sua ordenação, a um preparo médio de quatro anos em um instituto bíblico.

Em 1943, na 4ª Semana Bíblica das Assembleias de Deus no Brasil, realizada em São Cristovão-RJ, surge os primeiros debates convencionais sobre o ensino teológico formal, tendo como apresentador do assunto o pastor e missionário norte-americano John Peter Kolenda. Na discussão sobre o tema, o pastor Paulo Leivas Macalão falou da possibilidade de se criar uma escola bíblica noturna para obreiros, com aulas semanais fixas nos dias em que os obreiros tivessem as noites livres dos cultos principais. Um plano de estudo por correspondência foi também apresentado. O missionário norte-americano Lawrense Olson foi mais além, propondo que as Assembleias de Deus no Brasil abrissem institutos bíblicos, escolas teológicas e seminários pelo país. A proposta encontrou forte resistência, tendo em vista a forte influência da perspectiva escandinava de formação de obreiros, herdada pelos obreiros nacionais dos primeiros missionários.

Rompendo com a tradição escandinava, e a contra-gosto da Convenção Geral, os missionários João Kolenda Lemos (sobrinho de J. P. Kolenda) e sua esposa, Ruth Doris Lemos, fundam no dia 15 de outubro de 1958, na cidade de Pindamonhangaba-SP, o IBAD (Instituto Bíblico das Assembleias de Deus. O IBAD adotou o regime de aulas presenciais e o regime de internato, com uma grande ênfase missionária. Em 18 de março de 1959 as aulas foram iniciadas.

Dois anos após a criação do IBAD, seguindo na mesma direção, o missionário norte-americano Lawrence Olson, auxiliado pelo pastor Gilberto Gonçalves Malafaia, fundam em 4 de dezembro de 1961, na cidade do Rio de Janeiro, o IBP (Instituto Bíblico Pentecostal). A primeira turma tinha 90 alunos, dos quais 62 concluíram o curso, participando assim da primeira formatura, em 5 de dezembro de 1964, na Assembleia de Deus da Penha. As aulas funcionavam à noite para pastores, obreiros em geral e jovens. os primeiros professores foram os missionários N. Lawrense Olson e Alice Olson, Gilberto Malafaia, João Farias da Silva, Maria Aparecida, Adalberto Arraes e Antonio Gilberto da Silva. O pastor Antonio Gilberto me relatou, que por ocasião da aceitação do convite para ensinar no IBP, quase foi excluído da igreja onde na época servia.

Após os fatos acima citados, somente no ano de 1973, durante a Convenção Geral em Natal-RN, é que o IBAD passa a ser reconhecido oficialmente pela CGADB. Em 1975, na Convenção Geral em Santo André-SP, o mesmo acontece com o IBP.

Continua...

Leia também: BREVE CRONOLOGIA E HISTÓRIA DO DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO TEOLÓGICAS NAS ASSEMBLEIAS DE DEUS NO BRASIL

Um comentário:

Blog da Assembléia de Deus Central-Cachoeiro/ES disse...

Pr. Altair

A Graça e a Paz de Cristo esteja sobre a sua vida.

Passei aqui para te saudar e parabenizar pela postagem que, vem em boa hora , trazer à lume, as dificuldades e desafios que os pioneiros da implantação dos cursos teológicos tiveram.

Há que se dar o devido valor a esses homens e mulheres intimoratos que fincaram os marcos da educação teológica nas AD's brasileiras, contra tudo e contra todos.

Milito como educador teológico, há 17 anos, como professor por 04 anos, no IBADES (Vila Velha-ES) e diretor desde 1997 do SEMEC (Vitória).

Graças a Deus que a cultura de nossos líderes mudaram, as convenções hoje não consagram sem a devida formação teológica, o povo tem recorrido aos vários seminários, institutos e centro teológicos para aprender sistematicamente a Bíblia e se aprimorar para exercer cabalmente o ministério lhe confiado, buscando cumprir o desígnio do Espírito Santo nas palavras do Apóstolo dos Gentios à Timóteo: "procura apresentar-te a Deus, aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a Palavra da Verdade."

Grande Abraço,
Pr. Ezequiel Silva
Cachoeiro de Itapemirim-ES