quinta-feira, 25 de março de 2010

PRINCÍPIOS TEOLÓGICOS, ÉTICOS, MORAIS E ESPIRITUAIS DA REFORMA PROTESTANTE (1)

O presente texto foi publicado na apostila elaborada para a 1ª Conferência de Educação Teológica e Encontro de Diretores, Professores e Estudantes de Teologia, realizada pelo Conselho de Educação e Cultura da CGADB, como apoio do Conselho de Doutrina, Comissão de Apologética e da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), na Assembleia de Deus Ministério do Belém em Santos-SP.

Originalmente teve o título "Princípios Teológicos da Reformar Protestante". Devido a sua extensão, aqui neste blog ele será postado em três partes.

Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.” (Jd 3)


1. OS ANTECEDENTES HISTÓRICOS E AS CAUSAS DA REFORMA PROTESTANTE


Conforme Cairns (p. 221, 1988), um conjunto de fatores tornou inevitável a Reforma. Em torno do ano de 1500, os fundamentos da velha sociedade medieval estavam ruindo diante das transformações geográficas, políticas, econômicas, intelectuais e religiosas. Pode-se observar (idem, p. 221-223) de forma mais específica, os seguintes fatores :


1.1. Fatores Geográficos


Entre 1492 e 1600, houve mudanças fundamentais no conhecimento geográfico pelo homem medieval. A civilização antiga era basicamente potâmica, ou seja, estavam ligadas aos sistemas fluviais do mundo antigo. Na Idade Medieval a civilização desenvolveu-se em torno dos mares Mediterrâneos e Bálticos. Em 1517 os mares do mundo tornaram-se as estradas do mundo, tudo isso devido às descobertas de Colombo e de outros exploradores.


Os novos continentes do hemisfério ocidental se abriram à exploração pelo Velho Mundo. Espanha e Portugal deteram o monopólio na América Central e na América do Sul, mas a maior parte da América do Norte, depois de um embate entre França e Inglaterra, tornou-se a nova terra dos anglo-saxões.


Espanha, Portugal e França exportaram uma cultura latina com o catolicismo da Contra-reforma levado por conquistadores e clérigos ao Canadá, América Central e do Sul. O povo do noroeste europeu exportou a cultura Anglo-Saxônica, e o Protestantismo pluralista para formar a cultura dos Estados Unidos e do Canadá.


1.2 Fatores Políticos e Legais


A idéia medieval de um estado universal começava a dar lugar ao novo ideal de nação-estado. A partir da Idade Média os estados começaram a se organizar em bases nacionais. Estabelecidas com um poder central, fortes governantes, força militar e civil, caracterizadas por um sentimento nacionalista, logo passaram a se opor a um domínio de um governo religioso universal. A substituição da unidade política do mundo medieval pelas nações-estados encontrou na Reforma uma forte aliada, pois possibilitava o controle efetivo das igrejas nacionais. Segundo Duran (2002, p. 13):


Cada vez mais os homens da lei e dos negócios substituíam os homens da Igreja e os nobres na administração do governo. A própria lei, recuperando triunfante suas tradições e seu prestígio da Roma Imperial, conduzia a marcha da secularização, e dia após dia invadia a esfera da regulamentação eclesiástica da vida pela lei canônica. Os tribunais seculares estendiam sua jurisdição; os episcopais declinavam.


1.3 Fatores Econômicos


Na Idade Média a economia dos países europeus baseva-se na agricultura, sendo o solo a base de toda riqueza. Em

torno de 1500, o ressurgimento das cidades, a abertura de novos mercados e a descoberta de fontes para matéria-prima nas novas terras descobertas, promoveram o surgimento de uma nova era de comércio, onde a classe média mercantil tomou a frente da nobreza feudal na liderança da sociedade. O que era interurbano tornou-se internacional. O dinheiro tornou-se importante. Sobre os fatores econômicos, comenta Durant (Idem):


A religião, normalmente, prospera em um regime agrícola, a ciência, em uma economia industrial. Cada seara é um milagre da terra e um capricho do céu; o camponês humilde, sujeito ao tempo e consumido de trabalho, vê forças sobrenaturais em toda a parte, reza por um céu propício, e aceita um sistema feudal-religioso e fidelidades gradativas subindo através do vassalo, do senhor feudal e do rei até Deus. O trabalhador da cidade, o negociante, o industrial, o financista vivem em um mundo matemático de quantidades e processos, de causas materiais e efeitos regulares: a máquina e a tábua de calcular predispõem-nos a ver, por sobre espaços abertos, o domínio da “lei natural”. O crescimento de indústria, do comércio, e da finança no século XV, a passagem do trabalho do campo para a cidade, a elevação da classe comerciante, a expansão da economia local, nacional e internacional – foram todos presságios maus para uma fé que se amoldara tão bem ao feudalismo e às sombrias vicissitudes dos campos. Os homens de negócio repudiaram as restrições eclesiásticas, tanto quanto os direitos feudais; a Igreja teve de submeter-se, por um malabarismo teológico transparente, à necessidade de cobrar juros sobre empréstimos se o capital era expandir a empresa e a indústria; em 1500 a velha proibição da “usura” era ignorada universalmente.


A Reforma, desta maneira, atraiu a classe média capitalista, visto que a mesma não estava interessada no envio de suas riquezas à igreja universal sob a liderança do papa.


1.4 Fatores Sociais


A horizontalização que impedia a mobilidade social foi substituída por uma sociedade verticalizada. Era possível agora sair da classe baixa para a alta. Por volta de 1500, os negócios proporcionaram a ascensão social de muitos. A servidão entrou em declínio e uma nova classe média, que inexistia na sociedade medieval, formada principalmente por proprietários livres, pela pequena nobreza da cidade e pela classe mercantil começou a surgir. Para Cairns (Idem, p. 223) “Em linha gerais, foi essa classe média fortalecida que garantiu as mudanças introduzidas pela Reforma no noroeste da Europa”.


1.5 Fatores Intelectuais


O desenvolvimento do protestantismo foi influenciado pelo clima intelectual provocado pelo Renascimento Num aspecto amplo:


[...] a Renascença pode ser definida como aquele período de reorientação cultural em que os homens trocaram a compreensão corporativa, religiosa e medieval da vida por uma visão individualista, secular e moderna. [...] A concepção teocêntrica medieval do mundo, em que Deus era a medida de todas as coisas, foi substituída por uma interpretação antropocêntrica da vida, em que o homem se tornava a medida de todas as coisas. (CAIRNS, Ibidem, p. 212)


Os humanistas cristãos, interessados nas fontes originais, promoveram uma mudança bastante significativa no estudo da Bíblia. O interesse pela investigação do passado revelou as diferenças entre a Igreja do Novo Testamento e a Igreja Católica Romana.


A ênfase renascentista no sujeito pensante e livre, contribuiu para a ênfase na responsabilidade pessoal em termos de salvação e relacionamento com Deus. A idéia de um mediador humano ficou bastante enfraquecida.


1.6 Fatores Religiosos


Os historiadores são praticamente unânimes em afirmar que os papas e os clérigos foram responsáveis por uma série de abusos religiosos que contribuíram para o advento da Reforma. Como exemplo, pode-se citar:


- Corrupção e suborno nas eleições e indicações para os cargos eclesiásticos. Alexandre VI foi eleito pelo colégio de cardeais por meio de suborno e Leão X teve a sua eleição comprada a peso de ouro (DREHER, 2006, p. 17). Sisto IV financiou suas guerras vendendo os cargos da Igreja para os compradores que mais pagassem (DURANT, 2002, p. 11). Os cardeais raramente eram escolhidos por sua piedade, mas em geral por sua riqueza ou relações políticas ou capacidade administrativa (Idem, p. 15). Na Igreja do século XV quase todas as indicações exigiam a compra de superiores. “Uma medida papal muito usada para arranjar dinheiro era vender cargos eclesiásticos, ou (segundo o ponto de vista dos papas) indicar para sinacuras ou honrarias, até para cardinalato, pessoas que fizessem uma contribuição substancial para as despesas da Igreja” (Ibidem, p. 16). O nepotismo esteve também presente. Alexandre VI logo após a instalação, cumulou seu filho de benefícios, que aos 16 anos foi nomeado arcebispo de Valência. Após um ano fê-lo cardeal.


- Envolvimento com a política secular. Leão X, o terrível, era mais comandante de tropas do que líder espiritual. “Para ele, a salvação da Igreja estava na política e na guerra, uma eclesiologia altamente questionável” (DREHER, Idem). A diplomacia inescrupulosa de Alexandre VI e o militarismo cruel de seu filho César Bórgia reconquistaram os Estados Papais para o papado e acrescentaram rendas e forças à Sé Apostólica, escandalizando com os seus métodos a Europa (DURANT, Idem, p. 11). O Papa Júlio II superou a postura e ação militar de César Bórgia realizando guerra contra a rapace Veneza e os franceses invasores. “A Europa ficou chocada ao ver o papado não somente secularizado como também militarizado” (Idem, p. 17). O Papa Sisto IV atirou-se avidamente ao jogo da política (DURANT, Ibidem, p. 11). Muitos bispos eram, ao mesmo tempo, governadores eclesiásticos e civis (Ibidem, p. 15).


- O esbanjamento dos recursos. Leão X foi leviano gastando fortunas para saciar o seu hedonismo. Logo após a sua eleição escreveu a seu irmão Giuliano de Médicis: “Curtamos o papado, já que Deus no-lo concedeu!” (DREHER, Ibidem, p. 18). A Igreja esqueceu a pobreza dos Apóstolos nas necessidades e gastos do poder (DURANT, Ibidem, p. 16). Os impostos papais para manter o luxo tornaram-se uma carga pesada para o povo da Europa (CAIRNS, 1988, p. 201). “Para a maior parte do clero, a Igreja era vista como sendo de sua propriedade” (DREHER, Ibidem).


- A força da tradição. Um conjunto de tradições religiosas, ao passar dos séculos, ganhou preeminência em relação à Palavra de Deus. Assim, como nos dias de Jesus, a tradição passou a invalidar o mandamento divino (Mt 15.1-6). Como bem coloca Maia (2007, p. 42):


A tradição nunca foi rejeitada pelo simples fato de ser tradição. Nas próprias Escrituras encontramos ênfase e crítica à tradição (2 Ts 2.15). A questão básica é: A que tradição estamos nos referindo? R.C. Sproul esclarece: “Lutero e os reformadores não queriam dizer por Sola Scriptura que a Bíblia é a única autoridade da Igreja. Pelo contrário, queriam dizer que a Bíblia é a única autoridade infalível dentro da Igreja.


O que não se pode negociar e aceitar é o fato de que nenhuma tradição, por “boa” que seja, tenha autoridade acima da Palavra de Deus.


- Outras queixas. Conforme Durant (Ibidem, p. 21), outros fatores contribuíram para o anticlericalismo da Europa Católica Romana. Foram eles: A ênfase na fé ortodoxa mais do que na boa conduta, a absorção da religião pelo ritual, a ociosidade e a esterilidade espiritual dos monges, a exploração da credulidade popular através da venda de indulgências, do suposto poder miraculoso das relíquias, do abuso da excomunhão, da censura pelo clero às publicações, a crueldade da inquisição, o desvios de recursos destinados às cruzadas, e mais a afirmação de que um clero corrompido era o único ministrador de todos os sacramentos, com exceção do batismo.


Este conjunto de fatores promoveu um total descrédito na liderança da Igreja. O título de clérigo, padre ou monge era um termo de insulto pesado. “Em Viena, o sacerdócio, em tempos a mais desejada de todas as carreiras, não recebeu qualquer noviço nos 20 anos que precederam a Reforma (DURANT, Ibdem, p. 21)”.


Um comentário:

DG Jem disse...

Olá Pr. Altair, ótimo blog, já faz parte da minha lista de leituras diárias.

Deus abençoe, abraços.

Diego guedes

www.prefacioaopensamento.blogspot.com