sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A RESPONSABILIDADE MORAL DO LÍDER


Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1.26-27; Ef 4.24). Como bem afirmou Hodge (2001, p. 555), conforme os teólogos reformados e a maioria dos teólogos de outras divisões da Igreja, a semelhança do homem com Deus incluía, dentre outros pontos, sua natureza intelectual e moral.


Como ser moral entende-se que o homem é dotado de uma natureza com poderes que o capacita a agir de maneira certa ou errada. Esses poderes são o intelecto ou razão, o sentimento e a vontade. Em conexão com estas faculdades humanas está a atividade da consciência, que envolve todos os poderes, e sem a qual não pode haver nenhuma ação moral (STRONG, 2003, p. 64-65; THIESSEN, 1988, p. 158). O homem, desta forma é considerado um sujeito moral, na medida em que preenche as condições abaixo (CHAUÍ, 1997, p. 337-338):


· Ser consciente de si e dos outros, isto é, ser capaz de reflexão e de reconhecer a existência dos outros como sujeitos éticos ou morais iguais a ele;


· Ser dotado de vontade, isto é, de capacidade para controlar e orientar desejos, impulsos, tendências, sentimentos (para que estejam em conformidade com a consciência) e de capacidade para deliberar e decidir entre várias alternativas possíveis;


· Ser responsável, isto é, reconhecer-se como autor da ação, avaliar os efeitos e consequências dela sobre si e sobre os outros, assumi-la bem como às suas consequências, respondendo por elas;


· Ser livre, isto é, não estar submetido a poderes externos que o forcem e o constranjam a sentir, a querer e a fazer alguma coisa (autonomia e heteronomia).


Como agente ou sujeito moral, o indivíduo pode ser:


· Sujeito Passivo: aquele que se deixa governar e arrastar por seus impulsos, inclinações e paixões, pelas circunstâncias, pela boa ou má sorte, pela opinião alheia, pelo medo dos outros, pela vontade de um outro, não exercendo sua própria consciência, vontade, liberdade e responsabilidade;


· Sujeito Ativo ou Virtuoso: aquele que controla interiormente seus impulsos, suas inclinações e suas paixões, discute consigo mesmo (reflete, pensa criticamente) e com os outros o sentido dos valores e dos fins estabelecidos, indaga se devem e como devem ser respeitados ou transgredidos por outros valores ou fins superiores aos existentes, avalia sua capacidade para dar a si mesmo as regras de conduta, consulta sua razão e sua vontade antes de agir, tem consideração pelos outros sem subordinar-se nem submeter-se cegamente a eles, responde pelo que faz, julga sua próprias intenções e recusa a violência contra si, e contra os outros.


Estes poderes ou faculdades humanas atuam da seguinte forma:


- O intelecto ou razão habilita o homem para discernir, avaliar entre o certo e o errado;

- A sensibilidade ou sentimento o inclina, o move para o certo ou o errado;

- A vontade livre concretiza, faz.


Um claro exemplo da atividade destas faculdades humanas operando, conforme Leite Filho (1997, p. 62) pode ser vista no filho pródigo (Lc 15.11-32):


- A consciência o acusou (v. 17a);

- O intelecto o fez refletir (v. 17b);

- O sentimento o inclinou (v. 18, 19);

- A vontade o fez agir (v. 20);


Vale lembrar, que em razão de sua falibilidade, a consciência humana não é o árbitro final do julgamento de suas ações. O que é direito, o que é justo, em última instância, é determinado pelo caráter de Deus, manifesto em sua Palavra.



O homem, criado a imagem e semelhança de Deus, é um agente racional, moral e, portanto, também um agente livre e responsável pelos seus atos.


Como um ser livre e responsável por seus próprios atos, o líder deve assumir responsabilidades e ser responsabilizado.


REFERÊNCIAS


BONHOEFFER, Dietrich. Ética. 6. ed. São Leopoldo-RS: Sinodal, 2002.

CABRAL, Elienai. A síndrome do canto do galo: consciência cristã. Um desafio à ética dos tempos modernos. Rio de Janeiro: CPAD, 2000.

CHAUÍ, Marilena Chauí. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática 1997.

DANTAS, Anísio Batista. O pastor e o seu ministério: manual do obreiro. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: HAGNOS, 2001.

KESSLER, Nemuel. Ética pastoral: o comportamento do pastor diante de Deus e da sociedade. 6. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000.

LEITE FILHO, Tácito da Gama. O homem em três tempos: uma introdução à antropologia teológica. 3. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1997.

STRONG, Augustus Hopkings. Teologia Sistemática. São Paulo: HAGNOS, 2003.

SWINDOLL, Charles R. Davi: um homem segundo o coração de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 1998.

THIESSEN, Henry Clarence. Palestras introdutórias à Teologia Sistemática. São Paulo: IBRB, 1987.


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