quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A JUSTIÇA DOS ESCRIBAS E FARISEUS E SUA IMPLICAÇÃO PARA A IGREJA NA ATUALIDADE


"Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus." (Mt 5.17-20)

O texto acima faz parte do clássico Sermão da Montanha (ou Monte), onde a ética do Reino de Deus foi claramente exposta por Jesus.

Nos chama a atenção, o fato de que em meio ao seu enunciado ético, Jesus resolve abordar questões morais, culminando com a seguinte declaração: "se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus". O que Jesus pretendia afirmar ou revelar com isto? Quais as implicações para nós, discípulos seus na atualidade? Para tais respostas, algumas considerações são importantes.

OS ESCRIBAS E FARISEUS

Devido ao papel central da Lei no Antigo Testamento, no período pós-exílico, os escribas (ou doutores e mestres da lei) surgiram como uma classe especial de especialistas e intérpretes (teólogos e exegetas). Em sua grande maioria eram fariseus. Mediante seus estudos, buscavam sempre adaptar e atualizar a Lei às novas demandas da vida social e religiosa.

Seus ensinamentos eram oriundos da mera "reprodução" das opiniões de mestres anteriores, apoiados na tradição e autoridade rabínica. Investigando a Lei, chegaram a descobrir nela 613 mandamentos divinos, onde 365 eram de proibição (negativos) e 248 de orientação (positivos). A obsessão pela guarda destes mandamentos deu origem ao legalismo e ao moralismo dos tempos de Jesus.

A formação dos escribas acontecia mediante intenso estudo da Lei. Recebiam, após completarem quarenta anos, uma ordenação que os habilitava para o exercício de seu magistério e para as funções judiciais.

Já os fariseus ("os separados"), grupo religioso ao qual boa parte dos escribas pertenciam, de origem incerta (provavelmente a expressão de uma rígida abstenção dos costumes pagãos do período de Esdras e Neemias), constituíam um segmento do judaísmo que se propunha em levar as observâncias religiosas até às últimas consequências e minúcias da vida. Na época de Jesus eram uns 6 mil. Eram também obsessivos em alcançar a perfeição espiritual e moral, afirmando ser a mesma possível nesta existência. Sua aparente virtude impressionava o povo, e eram o instrumento para sustentação de prestígio e influência. Escribas e fariseus foram grandes opositores do ministério e ensino de Jesus (Mt 7.29; Jo 8.1-11).

MORAL E ÉTICA

O não entendimento dos conceitos de "moral" (lt. mores) e "ética" (gr. ethos), tem sido motivo para a prática moralista de lideranças e igrejas cristãs na atualidade. No presente contexto, moral e ética falam de costumes.

Buscando um melhor entendimento sobre o tema, estudos recentes estabelecem uma distinção (tênue) entre moral e ética. Ives de La Taille (2002, p. 30 apud MORETTO, 2009, p. 56), faz a seguinte consideração:

"[...] entendo por moral tudo o que fazemos por dever (como em Kant), ou seja, submetendo-nos a uma norma de vivida como coação ou mandamento; e entendo por ética tudo o que fazemos por desejo ou por amor (como em Spinoza), ou seja, de forma espontânea, sem nenhuma coação outra que aquela da adaptação ao real."

Esta definição nos permitel fazer uma comparação entre moral e ética:

Moral - Tem a ver com regras e normas
Ética - Tem a ver com princípios e valores

Moral - O que devemos fazer
Ética - Como devemos viver

Moral - Obedece as normas
Ética - Questiona as normas

Moral - Tem a ver com justiça
Ética - Tem a ver com generosidade

Moral - Se origina da Ética
Ética - É a origem da moral

Moral - Transfere responsabilidades
Ética - Assume responsabilidades

Moral - Postura necessária
Ética - Postura ideal

Moral - Imaturidade do ser humano em suas atitudes para com Deus, o próximo e consigo mesmo
Ética - Maturidade do ser humano em suas atitudes para com Deus, o próximo e consigo mesmo

Moral - Os Dez Mandamentos
Ética - O Sermão do Monte

Moral - Os escribas e fariseus
Ética - Jesus

Quando contemplamos estas diferenças, logo percebemos que "exceder a justiça dos escribas e fariseus" não deve ser compreendido em termos quantitativos, ou seja, Jesus não está ordenando uma vida meramente (e hipocritamente) pautada na observação de regras e normas (e quanto mais melhor). É exatamente desta maneira distorcida e equivocada, que se vivencia o Evangelho na grande maioria de nossas igrejas.

A orientação da vida dos crentes é geralmente fundamentada por regras e normas que fazem parte da tradição da igreja, tradição esta maior que a própria Escritura (Mt 15.1-20). A prova disto é o silêncio e os fracos argumentos das lideranças (católicas e evangélicas), diante de uma contestação bíblica e coerente.

Para exceder a justiça dos escribas e fariseus, a nossa justiça (moral) precisa estar, acima de tudo, fundamentada na generosidade (ética) do Reino. Não é da quantidade ou da rigidez das normas que Jesus fala, mas, da qualidade e da generosidade da ética.

Para sabermos se vivemos pela moral (justiça) ou pela ética (generosidade), algumas perguntas são necessárias:

- As disciplinas aplicadas aos membros e líderes, são geralmente fundamentadas na justiça da moral ou na generosidade da ética? Na quebra de normas ou de princípios?

- Os cultos de "doutrina" "instrução" ou "estudo bíblico", trazem em sua maioria, conteúdos morais (normativos) ou éticos (sugestivos)?

Como bem coloca Moretto (Idem):

"Moral e Ética são temos relacionados a hábitos e costumes que estabelecem valores e princípios, os quais originam as regras da boa convivência social. Sua aplicação não é simples, se quisermos ser aos mesmo tempo justos e generosos".

Jesus não veio acabar com a moral, mas veio combater o moralismo (ausência de generosidade na aplicação da justiça): "Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir" (Mt 5.17). A grande questão não é se cumprimos ou exigimos a Lei, mas, como cumprimos e a exigimos.

Para saber se cumprimos, a fala de Jesus ao intérprete da lei é pertinente:

"E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Então, Jesus lhe perguntou: Que está escrito na Lei? Como interpretas? A isto ele respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Então, Jesus lhe disse: Respondeste corretamente; faze isto e viverás." (Lc 10.25-28)

Perceba que não foi numa lista de normas (moral) em que a resposta do intérprete da lei, confirmada por Jesus, se fundamentou, mas, em princípios (ética).

Concluo citando o professor Marcelo Gusson:

"[...] não podemos ter somente a ética porque muitas pessoas são imaturas e não conhecem a grandeza de seus ensinamentos. Portanto, precisamos também da moral para orientá-las no processo de amadurecimento".

Na medida em que crescermos em maturidade cristã, teremos menos normas e mais princípios norteando a nossa existência e convivência. A nossa justiça excederá então a dos fariseus.

REFERÊNCIAS

MATEOS, J.; CAMACHO, F. Jesus e a sociedade de seu tempo. São Paulo: Paulinas, 1992.

MORETTO, Vasco Pedro. Planejamento: planejamento e educação para o desenvolvimento de competências. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

PFEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. Wycliffe: Dicionário Bíblico. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.

Um comentário:

Pensamentos diários sobre a vida Cristã disse...

Ola Pr Altair
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