sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O AFETO NA RELAÇÃO TRANSFERENCIAL ENSINANTE-APRENDENTE NA ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL

A relação ensinante-aprendente na Escola Bíblica Dominical precisa ser claramente percebida, caso contrário será confundida com a tradicional perspectiva professor-aluno. Na perspectiva professor-aluno, o quadro é o seguinte:


- O Professor: É aquele que ensina, que sabe, único detentor do conhecimento, agente ativo e ator do processo ensino-aprendizagem. O trabalho do professor é ensinar, no contexto de uma relação imaginária, narcísica e alienante que sustenta o seu saber e o seu fazer (GONÇALVES).


- O Aluno: É aquele que apenas recebe, que não sabe, agente passivo e expectador no processo de ensino-aprendizagem;


A relação professor-aluno é centralizada na aprendizagem de conteúdos, e na firmação de um contrato didático, onde um conjunto de comportamentos do professor são esperados pelos alunos e um conjunto de comportamento dos alunos são esperados pelo professor. Cada um, dessa forma, tem o seu papel pré-estabelecido (BRUSSEAU, 1998 apud SALGADO, 2005).


Em se tratando da relação ensinante-aprendente, ambos são sujeitos compromissados com a transferência de saberes. Andrade (2002 apud SALGADO, idem) vê o sujeito aprendentes e ensinantes da seguinte forma:


Entendo que o sujeito aprendente e o sujeito ensinante têm garantido pelo objeto de demanda, ou seja, o conhecimento, a repartição de papéis assegurando que seja preservada uma diferenciação de suas identidades respectivas. Neste sentido falamos de uma posição aprendente e ensinante intercambiáveis e alternáveis, num jogo dialético instaurado pelo conhecer/desconhecer definido em função daquilo que o sujeito tem, daquilo que ele dá e daquilo que cobiça”


Acontece, desta formar, um jogo transferencial. Laplanche (2001 apud GONÇALVES) diz que “Designa em Psicanálise o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação analítica”. A partir deste conceito, em psicopedagogia, o sujeito ensinante-aprendente tornou-se objeto de estudo.


Como um vocábulo utilizado em diversos campos, “transferência” denota uma idéia de transporte, de deslocamento, de substituição de um lugar para o outro.


Freud aponta-o como um fenômeno psíquico que se encontra presente em todos os âmbitos das relações com nossos semelhantes. Ele reconheceu a possibilidade de que a transferência acontecia na relação professor-aluno. [...] A noção de transferência pode contribuir para entender esta relação que envolve interesses e intenções, pois a educação é uma das fontes mais importantes do desenvolvimento comportamental e agregação de valores nos membros das espécies humanas. (Artigo Brasil Escola)


Dessa forma, o conceito de transferência assumido pela psicopedagogia, de forma geral pode-se resumir na possibilidade de um vínculo antigo e um novo. Trata-se de um ato amoroso entre duas pessoas, capaz de abrir espaços de mudanças. Essa possibilidade da transferência em termos psicopedagógicos se sustenta naquilo que Alícia (1994 apud GONÇALVES) afirma “[...] a transferência é um fenômeno psíquico que se encontra presente em todos os âmbitos das relações com nossos semelhantes, a situação analítica constitui-se apenas em seu modelo exemplar, tomando-a em sua dimensão clínica”.


Em termos pedagógicos, bem coloca Gonçalve (ibdem) que


o professor assume o lugar de ‘suposto saber’ no imaginário do aluno e da própria sociedade e esta é a condição básica de seu trabalho. Seu discurso ganha sustentação e autoridade pelo saber de que é investido socialmente e reconhecido individualmente, por cada um daqueles que recebem seus ensinamentos. É desta suposição que depende a possibilidade de o professor ensinar.


Percebe-se em psicopedagogia que o que se transfere é a modalidade de aprendizagem, ou seja, o modo de ser do ensinante e aprendente. “Transfere-se o modo de se relacionar com o conhecimento, estruturado pelo sujeito, desde muito cedo, na relação com as figuras parentais” (ibdem). É reproduzido, dessa forma, a maneira de vincular-se com os pais ou responsáveis enquanto seus primeiros ensinantes, sobre a relação ensinante-aprendente atual.


Nesta relação ensinante-aprendente, é necessário considerar o lugar do afeto. Do latim affectu, o termo nos fala àquilo que toca, atinge e afeta. Do ponto de vista da psicologia, “é um fenômeno psíquico que se manifesta sob a forma de emoções, sentimentos e paixões” (FORTUNA, idem).


Na relação professor-aluno, está implicada uma relação de amor, uma relação afetiva. Uma relação de confiança de valorização do conhecimento, da revelação das habilidades e potencialidades do outro, só é possível através da afetividade. Com afeto a criança se redescobre, se percebe, se valoriza, aprende a se amar transferindo este afeto em suas vivências e conseqüentemente na aprendizagem escolar. (Artigo Brasil-Escola)


Na medida em que percebemos o afeto nas relações aprendente-ensinante, acontece uma transferência positiva no processo de ensino-aprendizagem, o que possibilita a superação de conflitos internos, a possibilidade do aprender e crescer.


Para Fortuna (ibdem) os processos educativos, “comportam uma forte dimensão afetiva que não sendo a única nem a mais importante, é tão definitiva quanto as demais dimensões – socioeconômicas, ideológica, filosófica, entre outras – na consumação de seu objetivos, por mais diversos e desencontrado que sejam ao longo da história do homem”. Esta declaração consolida a importância da não supervalorização de um determinado aspecto ou dimensão da educação. São os vínculos afetivos que possibilitam a relação transferencial, responsável por transformar o desejo de ensinar e o desejo de aprender em conhecimento, através da permissão mútua que se efetua entre os sujeitos aprendente-ensinante.


Em termos afetivos, a significação do professor para o aluno supera os conteúdos ensinados, tornando-se a base das relações ensinante-aprendente na Escola Bíblica Dominical.


É de grande importância que o professor da Escola Bíblica Dominical compreenda o seu lugar na sua relação com os alunos, percebendo-se muito mais como aquele que apenas ensina, mas que também aprende enquanto assim o faz.


Na medida em que os conceitos de transferência e afeto são conhecidos dos professores, melhor clareza terão no entendimento de sua relação com o aluno. Os aspectos transferenciais e afetivos, facilitarão ou bloquearão a possibilidade da aprendizagem de conteúdos.


Pode-se perceber claramente, que em sua prática Pedagógica, Jesus nos deixou o grande exemplo em termos de afetividade na relação mestre-discípulo, quando as Escrituras nos dizem que:


“[...] tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.” (João 13.1b)


REFERÊNCIAS


OLIVEIRA, Maria Helena Peixoto. A Importância da Transferência na Relação Professor-Aluno como Elemento Facilitador, ou não, da Aprendizagem no Ensino Médio. PUC RIO, Nova Friburgo-RJ, 2007.


LAPLANCHE, Jean. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.


GONÇALVES, Júlia Eugênia. O Processo de Transferência em Psicopedagogia. in http://fundacaoaprender.org.br, acesso em 21/08/2009.


www.psicopedagogia.com.br/artigos/, acesso em 21/08/2009.


www.meuartigo.brasilescola.com/psicologia/conceito-transferencia-relacao-professoraluno.htm, acesso em 21/08/2009.


FORTUNA,Tânia Ramos. Afeto e Trabalho do Educador: a dimensão humana da docência.http://www.educarede.org.br/educa/index.cfm?pg=revista_educarede.especiais&id_especial=267, acesso em 21/08/09.



3 comentários:

Angeline disse...

Parabéns...acho que se todos os professores da EBD principalmente de crianças, soubessem 10% da importância do afeto pra aprendizagem do aluno, e não so visse a EBD como uma passatempo, tudo seria mais fácil. O poder de um abraço, de um sorriso não tem preço pra uma criança... que pena que vejo que muitos "professores" não demonstra nenhum tipo de afetividade com seus respectivos alunos e com isso, o que o aluno aprenderá??? mas isto esta mudando e vamos mudar ainda mais! a paz!!!

Deloni disse...

Caro Pastor e Professor,

Os Coordenadores das EBD, bem que poderiam transmitir esses conhecimentos, tambem, para aqueles que ministram para a Classe de Adultos. Há "ensinantes" que não admitem seus aprendentes exporem suas idéias, o que tornaria a classe mais interessante e enriquecedora em relação ao ensino e aprendizado, pois, tambem estudamos as lições.
Em tempo: dia 11 postei um comentário referente ao promotor da prosperidade e fiz comentários sobre "IGREJAS COM PROPÓSITOS" referindo-me a uma denominação na qual permaneci por quase 20 anos. Sabemos que seu tempo é escasso, mas precisamos de verdadeiros "Atalaias" para avisar as Igrejas do Senhor sobre mais essa heresia. Aguardamos.


Santa Maria RS

Elisomar disse...

Ensinar vai além de palavras.