sábado, 4 de julho de 2009

"HÁ ABUSOS EM NOME DE DEUS": MINHAS CONSIDERAÇÕES


Como anunciei, passarei a tecer algumas considerações sobre a entrevista feita com a jornalista Marília de Camargo César, pela e Revista Época. Os comentários abaixo estão na ordem das perguntas e respostas publicadas na matéria:

1. Há abusos religiosos de certas lideranças? Sim. Podem causar marcas e danos morais, emocionais e espirituais? É claro. Dependendo de quem cause os danos, pode haver uma ação não intencional, por desconhecimento de alguns princípios na área do aconselhamento pastoral, ou na aplicação de verdades bíblicas. Por outro lado, há realmente aqueles que abusam, manipulando a Bíblia e as pessoas, de maneira irresponsável e intencional, para fins reprováveis;

2. O caso da moça que largou os remédios por orientação pastoral, é típico de líderes que aderiram a Confissão Positiva, que faz parte da Teologia da Prosperidade. Certa vez, fui comunicado por uma família da igreja que pastoreava, sobre o caso de uma jovem senhora que estava com uma crise nervosa. Já tinham, sem o meu conhecimento, levado pastores para ungir a casa, ungir a jovem senhora, e como no caso aqui citado, mandaram que ela parasse de tomar os remédios, alegando que era caso "espiritual" e ação de "encostos". O quadro se agravou, e a família me procurou pedindo ajuda. Me desloquei até a residência da jovem senhora, acompanhado de seus pais. Ao chegar lá, a mesma se encontrava pulando em cima da cama. Ao me ver, me saudou com a paz do Senhor. Me aproximei e perguntei se ela podia sentar um pouco e me ouvir. Ela disse que sim, manifestando sinais de descontrole psicomotor, ansiedade e pertubação mental. Disse para ela o seguinte: vim fazer duas coisas por você nesta tarde, a primeira é uma oração e a segunda um pedido. Ela me respondeu que receberia a oração e atenderia o pedido. Orei e logo após lhe pedi que voltasse a tomar os medicamentos conforme a prescrição médica, afirmando que Deus usa também a medicina para curar os seus filhos. Com dois dias após a minha visita, aquela jovem senhora já estava na igreja, com sinais de uma grande recuperação da crise, que com o tempo foi definitivamente curada;

3. No caso de mulheres que apanham dos maridos e são aconselhadas a submeter-se a tal abuso, reitero que tais conselhos partem de obreiros despreparados. Um pastor não pode apoiar nenhum tipo de violência doméstica. Ele deve orar e pedir orientação a Deus em como deve proceder em cada caso, pois cada caso é um caso, mas nunca ser conivente com qualquer tipo de assédio moral e violência doméstica. O pastor, havendo a possibilidade, deve aconselhar o marido violento a tratar a sua esposa com amor e respeito, conforme a prescrição bíblica. Se precisar, em casos extremos, a mulher deve prestar uma queixa contra o marido na delegacia da mulher. O grande problema ainda no Brasil, é que as mulheres se sentem insegura em denunciar o marido, com medo de retaliações e ameças, inclusive de morte. Em alguns casos (parece-me que é maioria), o marido fica solto durante o inquérito policial, ficando a mulher exposta e passível de uma violência mais extrema;

4. Sobre o questionamento da autoridade pastoral, há realmente verdadeiros "controladores" e "fiscais" da vida alheia. Mas não são apenas nas igrejas neopentecostais, citadas pela jornalista, que o fenômeno acontece. Há casos também nas chamadas igrejas históricas e reformadas, que aliás, muitas já aderiram à chamada renovação carismática, se desviando inclusive para longe do pentecostalismo sadio e equilibrado. A inscidência de casos pode ser até maior nas igrejas neopentecostais, mas precisaríamos de um maior rigor científico para falar em termos quantitativos e estatísticos. É verdade pura, que tem líder "ungido" querendo escolher o emprego, o namorado(a), aprovando ou não casamento, em vez de apenas aconselhar, deixando a decisão por parte do membro, congregado ou discípulo;

5. A transferência de responsabilidades também existe, e é alimentada por líderes inexperientes, imaturos, faltos de sabedoria ou não preparados teologicamente para a função pastoral. O pastor é responsável por cooperar para o crescimento e maturidade espiritual da ovelha. Apoiando-a e aconselhando-a sabiamente, cumprirá tal propósito (Efésios 6. 11-16). O pastor não deve decidir pela ovelha;

6. Há dois extremos presentes na prática pastoral em termos de posicionamento quanto ao valor das terapias ou psicoterapias. De um lado estão aqueles pastores que usam a terapia, confiando e aplicando apenas os princípios científicos e pragmáticos da mesma, enquanto do outro lado, estão aqueles que ignoram os seus benefícios, demonologizando a prática da mesma. Assim como os medicamemtos podem ajudar os enfermos do corpo, a psicoterapia pode ajudar os enfermos da alma. Freud, parece-me, que em virtude das questões contextuais de sua época, só conseguiu enxergar coisa ruim na igreja (religião). Não devemos cair no mesmo erro, achando que na psicanálise nada se aproveita;

7. A promiscuidade manifesta no ato de dar e receber presentes, é um claro sinal de uma prática pastoral antibíblica e interesseira. O pastor é responsável diante de Deus para orientar o novo convertido neste particular, não tirando proveito de sua inesperiência na vida cristã. Ofertas e presentes podem ser dados ou recebidos, desde que não haja abusos, explorações ou barganhas;

8. Pastor não tem vantagem espiritual, mas tem autoridade espiritual. É bíblico o fato de grandes líderes serem usados por Deus com sinais e maravilhas (Atos 3.1-10; 5. 12 ss). Acontece que os sinais e maravilhas não são uma exclusividade da liderança (1 Co 12.6-11). É equivocada a tentativa de passar a idéia de uma certo monopólio espiritual por parte da liderança de certas igrejas;

9. A prática cristã precisa sim, ser questionada e pensada. Precisamos adotar a postura dos crentes bereianos (At 17.10-11). O cristão é um ser pensante e crítico. Vivemos dias difíceis, com mercenários e bandidos transfigurados de "pastor", enganando a muitos, com uma falsa teologia e com um evangelho distorcido. Quem tem compromisso com Deus e testemunho público, não precisa temer nenhum tipo de criticidade, observação, análise ou investigação. Antes de procurar uma igreja, o cristão deve pedir a orientação de Deus em oração, procurar conhecer a história daquela igreja, saber quem é o pastor, quem são os líderes etc. É duro mais é verdade, é duro mais é necessário;

10. Nossas raízes culturais e religiosas (indígina, europeia e africana), nos passaram uma herança religiosa "mística" e uma certa vulnerabilidade a materialização da fé, fato este que gerou no Brasil um tipo de igreja evangélica sinclética, que usa e abusa da cristianização de rituais e de objetos pagãos. A Igreja Universal, sem dúvida é um exemplo deste tipo de igreja;

11. Nos dias atuais, todo cuidado é pouco. Ainda assim, é preciso deixar bem claro, que no Brasil há milhares de pastores e igrejas sérias, compromissadas com o Senhor Jesus e com a sua Palavra.

Não tenho o livro, mas vou adquirí-lo para uma melhor "análise" dos fatos citados na entrevista.

Abraços!

Ilha de Fernando de Noronha, 04/07/2009.

7 comentários:

Matias Borba disse...

Estou lendo o livro e o mesmo é uma excelente obra, claro que ao fazer uma leitura crítica iremos constatar alguns pontos diferentes do que acreditamos, mas o tema e cerne do assunto é ótimo.

Quanto a suas considerações, muito bem elaboradas, expostas e equilíbradas.

Deus abençoe!

Sarah Farias WatchGirl disse...

Bem, concordo com suas considerações.

Ma-as, cuidado para não supervalorizar uma obra que não "ajunta" no Reino. Muito me admira uma mulher com tão exímio currículo como a srª escritora, tenha conseguido ficar 10 anos neste enganoso ciclo religioso.

Sempre vai existir o joio no meio do trigo.E as pessoas só atraem o que ela são: doentes emocionais.

Nunca fui lesada espiritaualmente, porque sempre busquei a verdade em lugares seguros. Essa senhora não pode ter espaço em nosso meio, visto que, de maneira sutil promove porfia na Igreja, um fruto da carne.

E fala tanto em Frueid, um faltoso falando de faltosos. Como morreu esse senhor?

Juízo, pessoal!

ALTAIR GERMANO, disse...

Nobre Matias,

a leitura crítica é extremamente necessária e fruto de mentes treinadas para examinar tudo e reter que é bom.

Abraços!

ALTAIR GERMANO, disse...

Olá Sarah,

a prudência e a maturidade que nos isenta de sermos lesados, infelizmente não está presente na vida de muitos.

Sem dúvida alguma, os erros, quaisquer que sejam, não devem ser supervalorizados.

Não sei da intenção da escritora, O Senhor sabe. Que os fatos narrados possam abrir os olhos e desviar os que são ludibriados ou vitimados por posturas tão equivocadas, como as citadas na matéria.

Shalom!

Sarah Farias WatchGirl disse...

Amém!

Anônimo disse...

Infelizmente tem supostas igrejas com supostos missionarios vendendo até RESTITUIÇAO DE VIRGINDADE


http://exejegues.blogspot.com/2009/07/uncao-da-virgindade-pensei-que-tinha.html

Anônimo disse...

Em ela ter escrito o livro e publicado por uma ed. evangélica, tubem. Apesar de não ter lido.
Porém, questionaria ela ter dado uma entrevista para as organizações globo. O que ela quer com isso?