domingo, 3 de maio de 2009

GESTÃO DE TALENTOS NA EBD

Por Ev. Daladier Lima dos Santos


Introdução


A EBD é a forja de talentos da igreja. Não á toa grandes obreiros de nossas congregações são seus assíduos freqüentadores. Ás vezes invisível corre em suas veias o sangue do conhecimento. As pessoas dele se nutrem, alimentam-se, se fortalecem, compartilham e partem para novos desafios, muitas vezes retro-alimentando o sistema de ensino. O conhecimento é, portanto, um amálgama[1] de práticas, posturas, doutrinas, usos e costumes, procedimentos e atualizações em diálogo permanente com as transformações sociais. Gerir bem este processo de constante transformação é o desafio de quem lidera uma EBD. Para garantir sucesso precisamos, além da óbvia direção divina, afinal tudo que fazemos é para a glória do Senhor Jesus (I Co 10:31), descobrir, cultivar, avaliar e desenvolver nossos talentos. Não poderíamos avançar sem pensar no que a Bíblia diz sobre este assunto.


Definindo talentos


Antes, porém, precisamos definir alguns termos. Em primeiro lugar, precisamos perguntar: O que é talento? Podemos ter várias definições. Em termos financeiros, uma pequena pesquisa histórica nos informa que talento era uma quantidade de moedas, de prata, ouro ou bronze, que valia 6.000 denários (renda diária básica de um trabalhador), pesando cerca de 26 kilos. Tomando-se em conta que alguém no Brasil ganhe 10 dólares, por dia, um talento de prata valeria algo como 60.000 dólares, ou quase dezessete anos de trabalho. Foram vários os talentos de ouro e prata, gastos na construção do tabernáculo (Êx 37).


Já a definição etimológica da palavra nos informa que o termo vem de τάλαντον, (lê-se, talanton) e significa balança. Na vida secular a palavra define alguém com habilidades natas ou com facilidade de as adquirir, para o exercício de sua profissão. Há pessoas com talento para matemática, relações interpessoais, raciocínio crítico ou descritivo, oratória, escrita, planejamento, arquitetura, computação, cozinha, artes, música, desenho, pintura, filosofia, enfim, em todos os ramos do conhecimento e muitas com talentos em várias áreas dele. Muitas vezes a descoberta de tais talentos se dá de maneira tardia. É o que aconteceu a Bill Gates, que na adolescência não demonstrava muito talento[2]. Noutras se dá por acaso, como aconteceu com o vietnamita Thai Q. Nghia (leia um pouco da história dele adiante). Mas a maioria das vezes falta uma oportunidade. Podemos, por exemplo, imaginar quantos jovens em nossas igrejas possuem habilidade para música, mas não podem comprar o instrumento!? Esta é a grande vantagem dos países desenvolvidos. Note que se tornam mais desenvolvidos ainda, á medida que investem em seus talentos.


No final dos anos 70, Thai Q. Nghia chegou ao Brasil sem falar uma palavra de português, sem dinheiro ou parentes. Com grande determinação, construiu a Goóc - empresa que cresceu 300% desde o início, em 2004, tem cinco mil pontos de venda espalhados pelo Brasil, 15 lojas próprias e exporta a linha de bolsas, calçados e roupas para mais de 20 países. Conta ele: Fugi do Vietnã em 1978 e fui recolhido por um navio petroleiro brasileiro. No alojamento, tinha de ficar fora o dia todo e só voltava à noite. Como sempre gostei muito de estudar, com o primeiro dinheiro que consegui juntar comprei um dicionário de português. No começo foi muito difícil, não entendia nada, não conhecia ninguém.


Comecei tirando fotocópias. Ficava lendo para aprender, traduzir e acabei acostumando com a língua. Três anos depois eu passei no curso de Matemática da USP. Em 1986, estava estudando e trabalhando quando emprestei dinheiro a um amigo. Era o final do Plano Cruzado, ele quebrou e fez o pagamento do empréstimo com bolsas. Fui obrigado a sair na rua para vendê-las para recuperar o dinheiro. Vendia as bolsas em Cotia (SP) e Itapevi (SP) e comecei a ganhar dinheiro com isso. Pensei: "Isso é legal!". Passei a comprar mais bolsas e continuei vendendo. Um tempo depois, achei melhor parar de trabalhar e pedi demissão. Não me deixaram sair. Em vez disso, queriam me promover. Saí assim mesmo e decidi montar meu negócio. O trabalho foi tomando tanto meu tempo que não conseguia me concentrar nos estudos e abandonei o curso no terceiro ano. Foi aí que tive o insigth (aquele estalo) de copiar de forma estilizada as sandálias que meu povo usava. Além de passar cultura tem o aspecto ecológico da reutilização dos pneus, matéria-prima do calçado que fabrico. Já estamos em vários países do mundo e a cada dia a procura aumenta.


A primeira coisa que me fez ter sucesso é gostar de ler. Quando eu sentia que estava perdido, que estava faltando alguma coisa, recorria aos livros. Tentava procurar respostas, não uma, mas várias. Foi isso que me ajudou. Não digo que isso leva ao sucesso, acho que é uma vantagem que tenho com relação a outras pessoas. Outra coisa: gosto muito de desafios. Quando eu acredito em uma coisa, pode me machucar ou me fazer sofrer, mas eu sigo em frente. Muitas vezes estou errado, mas quando isso acontece, tenho que mudar rapidamente de estratégia.


Espiritualmente, o talento tanto é um valor que nossa fidelidade na mordomia das coisas do Senhor faz crescer, quanto uma habilidade divina que é recebida através do Santo Espírito (Ef 4:11). Cada época exige talentos diversificados ou aprimora os que já existem, fundindo as atividades anteriores em novas interações entre os ramos do conhecimento.


Geralmente, onde a maioria das pessoas enxerga dificuldades, os talentos enxergam oportunidade. Talentos gostam de desafios. São por vezes dedicados ao extremo. Não hesitam em se arriscar. A medida de um talento é sua capacidade de procriar, gerando novos talentos. Pessoas que tentam se destacar naquilo que não possuem talento para fazer, costumam acabar frustradas.


Os talentos da EBD


Você pode estar se perguntando: onde a EBD entra nessa história? Em três fases bem distintas:


1) Recrutando os melhores talentos da igreja para o ensino (Rm 12:7);

2) Capacitando, gerindo e cultivando os talentos (I Tm 4:13-18).

3) Criando novos talentos a partir da atuação destes (I Rs 19:15-18);


A grande dificuldade nesta dinâmica é reconhecer os talentos havidos. Por vezes agimos como os porcos retratados em Mateus 7:6, que não sabendo o valor de um talento põem-se a espezinhá-lo, apesar da boa vontade de quem lhes deu.


Retendo talentos


Os talentos da EBD estão por toda parte, das classes infantis às de adulto. É preciso:


1) Identificá-los adequadamente


Identificar o talento não é difícil. Por vezes nos falta humildade para aceder. Noutras falta a capacidade de observar as pessoas e ver além dos gestos, palavras e ações. As melhores equipes das grandes empresas são compostas por pessoas talentosas, reconhecidas através de critérios específicos. Não criaram seu espaço por acaso, mas com seu talento. Entretanto, jamais teriam desabrochado se não houvesse sido tocados com a brisa do sorriso de alguém que lhes fez o convite, que lhes deu a oportunidade.


O espaço adequado para ilustrar talentos nas empresas é nas agências de publicidade. Lá os mais criativos montam peças publicitárias para os clientes e competem entre si, para saber qual delas será selecionada. Mas não para aí, é preciso lançar a campanha às ruas e avaliar sua receptividade e o retorno ao cliente. Por vezes, boas campanhas não trazem o retorno esperado. Outras são adiadas para um momento mais propício.


Muitas vezes o que nos falta para identificar talentos é uma visão objetiva. Lembro de que alguns bajuladores iam “entregar” uma dirigente de Círculo de Oração, ao então Pastor Presidente Isaac Martins, por coisas irrelevantes como um culto que terminou fora de horário dez minutos ou porque havia se atrapalhado com a distribuição de oportunidades, etc. Ele encarava o interlocutor e perguntava: Quantos Jesus batizou lá? A pessoa respondia: Cinco. Ele retrucava: Deixa a irmã trabalhar! Ou seja: por seus resultados se justificava a digressão.


Na EBD a medida do talento é o crescimento da classe, o aproveitamento dos alunos, a contribuição pessoal, a inovação, a partilha de conhecimento. O mais é acessório. Portanto, identificar nossos talentos significa deixar estereótipos[3] de lado. Quem não ri como nós, ou é sisudo como nós ou tem as mesmas preferências, nem sempre merece nosso apreço. E aí um talento escorreu pelo ralo sem que percebêssemos. É preciso identificar o potencial que está por trás de uma pessoa canastrona[4], mas prestativa, vaidosa, mas dedicada e minimalista, nova em termos de idade, mas atenciosa. Isso também se aplica à idéia em si. Por vezes, gostamos da pessoa, mas repudiamos suas idéias, pelo simples fato de ser algo que nunca foi feito ou tentado. Respondemos com o tradicional: Sempre fizemos desta ou daquela forma, acabando por enterrar o talento de alguém.


2) Criar a oportunidade para seu desenvolvimento


Qualificar e reciclar o conhecimento dos talentos é o imperativo da EBD. Voltando á publicidade (que eu ilustro aqui por ser uma área extremamente dinâmica e eclética[5]) a criatividade borbulha nas ilhas de uma agência de propaganda, sem restrições, sem barreiras, procurando-se extrair o máximo potencial dos talentos. As peças só são avaliadas no final.

Muitas vezes o talento não se revela na EBD por medo. Ele tenha tanta ciência de como outros foram tratados, que se anula. A cultura do medo, infelizmente, ainda sobrevive em nossas igrejas, se refletindo nas EBDs. Quando surge alguém com talento, muitos gestores tratam de neutralizar tal pessoa. É aquela história: como alguém pode ser um bom pintor sem material? Deixemo-lo sem tinta!


3) Criar o ambiente necessário para que se reproduzam em outros


Como dissemos a pouco o talento deve ter a capacidade de influir sobre os outros. Ninguém reconhece alguém que é talentoso, mas só consegue criar coisas para si. Aqui não se anula a auto-satisfação, mas um sentimento egoísta que muitas pessoas têm que, sendo talentosas, não se preocupam em fazer com que outros mostrem suas habilidades. Os talentos egoístas acabam asfixiados sobre si mesmos, os que estimulam e induzem outros talentos a demonstrar suas habilidades acabam crescendo e fazendo história.


Conclusão


Chegamos ao final deste texto salientando que os celeiros de talentos estão espalhados por nossa EBD. Uns tolhidos, outros em plena aplicação. Pode não ser o fator essencial para termos sucesso neste trabalho, mas é de fundamental importância reconhecê-los, incentivá-los, abrir-lhes espaço e fazer com que repliquem seu conhecimento e habilidades para o bem de todos. Lancemos-nos a esta tarefa com prazer, certos que no médio e longo prazo iremos colher seus frutos. Se o capital humano deve ser bem gerenciado nas empresas, imagine na EBD?!


Bibliografia


Pereira, Isidro. Dicionário Grego-Português... 7. ed. Braga, Portugal: Livraria Apost. da Imprensa. 1990.

Jornal Carreira & Sucesso, várias edições.


[1] Amálgama é uma liga de metais muito utilizada em odontologia. Veio a simbolizar a união entre coisas aparentemente díspares, que juntas se tornam mais resistentes do que sozinhas.

[2] http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI62804-16642,00-O+QUE+E+AFINAL+O+TALENTO.html

[3] Estereótipo é uma idéia infundada que fazemos de uma pessoa ou situação, geralmente, por ignorância.

[4] Pessoa atrapalhada, muitas vezes por causa da idade.

[5] Diz-se que algo é eclético quando envolve várias linhas de raciocínio e várias áreas do conhecimento.

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