quinta-feira, 26 de março de 2009

LÍNGUA PORTUGUESA: SE NÃO FOSSE ASSIM EU VO-LO TERIA DITO.

“Se não fosse assim eu vo-lo teria dito:” – uma tradução incoerente
por Adalberto Alves de Sousa.

O pregador leu o texto de João 14.2 e fez a sua explanação. Para mim ficou claro que ou ele leu errado, ou a tradução usada por ele não estava correta. Como tinha intimidade com ele, conferi a versão usada e constatei que ele leu errado. Mais tarde, procurei este texto na versão Revista e Corrigida no Brasil, 1969, da SBB e encontrei: “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim eu vo-lo teria dito: vou preparar-vos lugar”. Esta tradução, em termos da língua portuguesa, é incoerente porque os dois pontos introduzem o que teria sido dito: “vou preparar-vos lugar”, mas o que teria sido dito é outra coisa. Com um pouco de paciência, podemos entender por quê.

Há verbos que têm sentido completo. Veja este verso: “E, retirando-se dali, chorou” (Mc 14.72c). Todo o sentido do verbo está em “chorou”. Não há necessidade de qualquer complemento. Por outro lado, há verbos que exigem complemento. Veja este outro verso: “Não conheço esse homem!” (Mt 26.72b). Agora o comportamento do verbo é outro. Quando dizemos “não conheço”, de imediato nos vem a pergunta: “não conheço quem, ou não conheço o quê?”. A resposta “esse homem” completa o sentido do verbo. Agora a ideia ficou clara.

Um nome (ou uma expressão) usado como complemento de um verbo do tipo do nosso exemplo pode ser substituído pelo pronome pessoal “o” (“a”, “os”, “as”). Veja como isso funciona, no próximo exemplo: “Não conheço esse homem nem nunca o vi”. O pronome “o” substitui “esse homem”, e assim evitou-se a repetição: “nem nunca vi esse homem”.

Vamos para Mateus 2.2: “E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo”. Aqui o pronome “o” substitui “o recém-nascido Rei dos judeus”. Mas de onde veio esse “lo”? Por que “o” passou a ser “lo”? Sempre que a forma verbal termina em R, S ou Z, antes de se acrescentar o pronome “o”, corta-se o R, S ou Z e acrescenta-se um “L”. Assim o “o” (“a”, “os” “as”) transforma-se em “lo” (‘la”, “los”, “las” ). “Devemos amar o irmão, mas amá-lo de todo o coração”; “Devemos amar a irmã, mas amá-la de todo o coração”; “Nós amamos o irmão, mas amamo-lo de todo o coração”. “Ele traz o irmão. Trá-lo com carinho”. Ficou claro? Se ficou, então responda o que significa “ama-lo” (não confundir com amá-lo)? Acertou? Essa foi fácil, pois foi só cortar o “S” e acrescentar o “L”: “Tu amas teu irmão. Ama-lo de todo o coração”. Se trocarmos a posição do pronome, “ama-lo” passa a ser “tu o amas”.

Esse processo de cortar o S e acrescentar “L” também ocorre com as formas pronominais “nos” e “vos”. Veja Lucas 23.15: “Nem tampouco Herodes, pois no-lo tornou a enviar”. Num registro popular esse verso ficaria assim: “... pois tornou a enviar ele pra nós”. Esse “lo”, ou “ele”, no registro popular, substitui “esse homem”, citado no verso 14.

Podemos voltar para o nosso texto original (João 14.2)? Agora na versão Revista e Atualizada no Brasil, 1993, SBB: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar” (com ponto depois de “dito” e não com dois pontos). O que é que esse “lo” representa no verso? Representa o que teria sido dito se não houvesse lugar: “Não há lugar na casa de meu Pai”. Para ficar bem claro: “Se assim não fora”, isto é, se não houvesse lugar na casa de meu Pai, “eu vo-lo teria dito”, ou seja, eu vos diria que não havia lugar na casa de meu Pai. O texto da versão de 1969, que registra “teria dito:” (com dois pontos) realmente é incoerente, porque o que teria sido dito já havia sido citado anteriormente, com o uso do “lo”.

Para concluir, um exercício. No livro de Atos, lemos: “Fiz o primeiro tratado...” (1.1a). Como já sabemos, “o primeiro tratado” completa o sentido de “fiz” (fiz o quê? “o primeiro tratado”). Sendo assim podemos substituir essa expressão pelo pronome “o”. Aliás, vamos conjugar “Fiz o primeiro tratado” em todas as pessoas e substituir o complemento pelo pronome “o”:

Eu fiz o primeiro tratado – fi-lo
Tu fizeste o primeiro tratado – fizeste-o
Ele fez o primeiro tratado – fê-lo
Nós fizemos o primeiro tratado – fizemo-lo
Vós fizestes o primeiro tratado – fizeste-lo
Eles fizeram o primeiro tratado – fizeram-no (Quando a forma verbal termina em M, ÃO, ÕE, usa-se “N” e não “L”.)

Se não é exatamente esse tipo de explicação que os leitores têm pedido, queiram desculpar-me.

FONTE: PRAZER DA PALAVRA

3 comentários:

Cristiano Santana disse...

Geralmente os dois pontos ligam duas orações coordenadas em que uma abrange ou explica a outra.

Esse sinal realmente complica a compreensão do texto.

"Se não fosse assim eu vo-lo teria dito" indica exatamente o que o autor do artigo já procurou explicar, ou seja: "Se não fosse assim (se não houvesse moradas na casa do meu Pai) eu já teria dito isso a vocês. Eu já teria dito que não há morada alguma na casa de meu Pai.

A introdução de dois pontos após essa frase leva a uma oração cuja idéia contraria exatamente àquela que foi transmitida na oração anterior.

Do ponto de vista lógico, após a frase "Se não fosse assim eu vo-lo teria dito" deveria caber: "NÃO vou preparar-vos lugar", pois só nesse caso a oração após os dois pontos assume um caráter explicativo.

Graça e Paz

Cristiano Santana
http://cristisantana.blogspot.com

claudia regina disse...

VALEU!FOI-ME MUITO PROVEITOSA A SUA EXPLICAÇÃO!

miq disse...

querido irmao, se o irmao procurar no texto original grego ira compreender melhor esta passagem,pois o sinal(:) da ideia correta do texto. na original existe a palavra que apos a palavra dito.
o que jesus queria dizer é que na casa do pai existe muitas moradas e que se nao tivesse ele teria dito que iria preparar, confortando os dicipulos e mostrando que de qualquer forma eles no futuro estariam com cristo.