quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O DEUS QUE SE COMUNICA COM O HOMEM. Subsídio para lição bíblica da EBD


Comunicação "é o fenômeno pelo qual um emissor influencia e esclarece um receptor" (CHIAVENATO, 1999, P. 518). É necessário o envolvimento de duas ou mais pessoas. Percebe-se com esta afirmação que comunicação não é um simples enviar de informações. No nosso caso, a comunicação envolve Deus e o homem, duas pessoas. Há sempre intencionalidade, razão, propósito na comunicação de Deus com o homem.

A possibilidade de Deus se comunicar com o homem, em primeiro lugar, é em razão de Deus ser uma pessoa.

A PERSONALIDADE DE DEUS

Deus é uma pessoa. Para MacGrath (2005, p. 319) "A palavra 'pessoa', em sua acepção comum, passou a significar nada mais do que um 'ser humano individual'". Isso acabou gerando alguns problemas em entender Deus como uma "pessoa".

Essa visão reducionista do significado de "pessoa" não esteve presente nas idéias de Tertuliano, que entendia "pessoa" como um ser que pode falar e atuar. A idéia de alguém que interpreta um papel no drama social, alguém que se relaciona com outras pessoas, esteve presente no pensamento dos primeiros escritores cristãos (idem).

A idéia de "um Deus pessoal" pode ser concebida com a de um Deus com o qual podemos nos relacionar, da mesma forma como nos relacionamos com outro ser humano, sem reduzir Deus ao nível de "ser humano".

Segundo Strong (2002, p. 376) "Pessoalidade significa o poder de autoconsciência e autodeterminação."

Ser auto-consciente é ter consciência de si mesmo. É entender-se sujeito de seus atos e de sua condição. A auto consciência de Deus é descrita na Bíblia em textos como (Êx 3.14; Is 45.5; 1 Co 2.10).

A autodeterminação de Deus fala de sua liberdade para escolhas, motivos, finalidades (Jó 23.13; Rm 9.11; Hb 6.17).

Thiessen (1987, p. 76), nos oferece uma série de características psicológicas da personalidade de Deus:

- Intelecto (Gn 18.19; Êx 3.7; Pv 3.19; Atos 15.18)

- Sensibilidade (Gn 6.6; Sl 103.8-13; João 3.16)

- Vontade (Gn 3.15; Sl 115.3; João 3.38)

A Bíblia nos apresenta um Deus que fala (Gn 1.3), que vê (Gn 11.5), que ouve (Êx 3.7; Sl 94.9), diferente dos deuses falsos:

"Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade. Por que diriam as nações: Onde está o Deus deles? No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada. Prata e ouro são os ídolos deles, obra das mãos de homens. Têm boca e não falam; têm olhos e não vêem; têm ouvidos e não ouvem; têm nariz e não cheiram. Suas mãos não apalpam; seus pés não andam; som nenhum lhes sai da garganta. Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem e quantos neles confiam. Israel confia no SENHOR; ele é o seu amparo e o seu escudo. A casa de Arão confia no SENHOR; ele é o seu amparo e o seu escudo. Confiam no SENHOR os que temem o SENHOR; ele é o seu amparo e o seu escudo." (Sl 115.1-11)

Comunicação fala de relacionamento. O Deus da Bíblia é um Deus que se relaciona com o homem na categoria Eu-Tu, e Eu-Isso. É uma relação pessoal.

Quem bem especifica esses tipos de relação é o escritor e pensador judeu Martin Buber, em sua obra Eu e Tu. Como bem comentado por McGrath (ibdem, p. 321), falando sobre "personalismo dialógico", estas relações podem ser especificadas conforme segue:

- As relações Eu-Isso. Buber se utiliza desta categoria para se referir às relações ente sujeitos e objetos, homens e coisas, onde os sujeitos são ativos e as coisas passivas.

- As relações Eu-Tu. Esta relação existe entre dois sujeitos ativos, entre duas pessoas. É algo mútuo, recíproco e consciente.

As implicações teológicas do pensamento filosófico de Buber nos permite conceber que "A revelação das idéias sobre Deus deve ser complementada pela própria revelação pessoal de Deus, sendo um conceito que envolve tanto presença quanto conteúdo" (ibdem, p. 323). Dessa forma, o "conhecimento de Deus não é uma simples coleção de dados sobre Deus, mas um relacionamento pessoal" (ibdem). Um relacionamento pessoal que envolve comunicação.


O PROCESSO DE COMUNICAÇÃO ENTRE DEUS E O HOMEM

""Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo." (Hb 1.1-2)

Em sua grandeza, glória, majestade e perfeição, Deus nos dá uma grande lição sobre comunicação. No processo de comunicação entre Deus e o homem, estão envolvidos os seguintes elementos:

- Deus. A fonte de transmissão da mensagem:

No passado "Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes...", e no presente "nestes últimos dias, nos falou".

- Transmisssor. O meio utilizado para a codificação da mensagem, verbais, escritos ou não verbais (como símbolos, sinais ou gestos). A codificação é realizada para colocar a informação numa forma que possa ser recebida e compreendida pelo destinatário.

"e de muitas maneiras..."

A comunicação de Deus com o homem acontece através:

-Da palavra verbalizada direta "disse o Senhor" (Gn 3.8-24; 6.13; 7.1; 12.1; Êx 3.1-22ss; 1 Sm 16.7)

-Da palavra verbalizada indireta "assim diz o Senhor" (Jz 6.8; 1 Sm 10.18; 1 Rs 11.31; Is 43.1 ss; Mc 16.15)

-Da palavra escrita (Êx 17.14; 24.12; 34.1; Js 8.32; Is 30.8; Jr 30.2; 36.6; Ez 37.16; Hc 2.2; 2 Tm 3.16)

-Dos sinais (Êx 19.10-19; Êx 40.34-38; Jz 6.36-40; 1 Rs 18.36-39 ss)

-Dos sonhos (Gn 20.3; 28.12; 31.11; 37.5-9; Jz 7.13; 1 Rs 3.5; Jr 23.28; Mt 2.12, 13, 19, 22)

-Visões (Gn 15.1; 1 Sm 3.15; 2 Sm 7.17; Is 1.1; Ez 11.24; Dn 2.29; 7.2; 8.1; Am 1.1; Ob 1.1; Mq 1.1; Na 1.1; Hc 2.2; Lc 1.22; At 9.10; At 10.17; At 16.9; At 18.9; Ap 9.17)

- Canal. É o meio escolhido através do qual Deus faz com que sua mensagem flua para os seus destinatários. A escrita e a fala estão também aqui inclusos. Como outros exemplos podemos citar:

- Os homens "pelos profetas" (Vide textos acima da palavra verbalizada indireta e escrita)
- Os anjos (Gn 19.1; 1 Rs 19.5; Zc 1.9 ss)
- As Teofanias (Nm 22.22; Jz 6.11 ss;)
- O Cristo, o Filho;

"
nestes últimos dias, nos falou pelo Filho" (Hb 1.2a)

"E o verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai." Jo 1.14)

Foi através da encarnação do Verbo que a comunicação de Deus com os homens se deu em sua forma mais plena. A palavra se concretizou, se humanizou, se aculturou. Tornou-se possível , além da possibilidade que já se tinha de sentir a emoção da comunicação da palavra divina, o contemplar da emoção da comunicação divina através do olhar, do chorar, do sorrir, do semblante, do toque, dos gestos, do afago do Verbo.

- O Espírito Santo: "disse o Espírito" (( At 8.29; 10.19; At 13.2), "quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas" (Ap 2.7, 11, 17, 29; 3.6, 1, 22)

- Destino. Trata-se aqui da pessoa ou grupo que deve receber a mensagem e compartilhar o seu significado. O Senhor continua se comunicando com o homem muitas vezes e de muitas maneiras, nestes dias de incredulidade e ceticismo. Onde se encontra alguém desejoso de ouvir e obedecer a sua voz?

"Invoca-me, e te responderei; anunciar-te-ei coisas grandes e ocultas, que não sabes." (Jr 33.3)


REFERÊNCIAS

BUBER, Martin. Eu e Tu. 8. ed. São Paulo: Centauro, 2004.

CHIAVENATO, Idalberto. Administração nos novos tempos. 2. ed. Rio de Janeiro Campus, 1999.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e aologética para o contesto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007.

McGRATH, Alister. Teologia: sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd, 2005.

STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática. São Paulo: Teológica, 2002.

THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática. São Paulo: IBR, 1987.

Um comentário:

Elisomar disse...

É muito interessante saber que Deus fala conosco! Nós somos infinitamente pquenos em relação ao universo, e Deus é infinitamente grande em relação a tudo que existe. No entanto, ELe se importa conosco, a ponto de falar e confortar a nossa vida. Como é bom ouvir a Sua voz! Toda glória, honra e louvor seja para ELe.