domingo, 5 de outubro de 2008

GANHADORES DE ALMAS

A expressão "ganhadores de alma" ou "ganhar almas para Jesus" é geralmente associada com o trabalho evangelístico da Igreja. Pude perceber que alguns equívocos estão associados ao uso desta designação.

Em primeiro lugar, o texto de Provérbios 11.30 é geralmente interpretado de maneira equivocada:

"O fruto do justo é árvore de vida, e o que ganha almas é sábio" (ARA)

A palavra hebraica traduzida por "alma" é nephesh (ego, vida, pessoa, coração). Vine diz que "alma" ainda que sirva para dar sentido na maioria das passagens, é uma infeliz tradução do termo, visto que no hebraico não há equivalentes para a idéia por trás de "alma" (originalmente grega e latina).

A segunda questão neste texto é: "ganhar almas" para quê ou para quem? Não há no contexto nenhuma idéia relacionada com a evangelização.

A nota de rodapé da Bíblia de Estudo Almeida diz:

"O que ganha almas é sábio: Talvez no sentido de que o sábio trata de ganhar aos demais para o bem (1 Co 9.19 e Tg 5.20; cf. Pv 12.6)"

Na Bíblia de Estudo Pentecostal temos:

"Influenciar as pessoas a favor da justiça é ser sábio"

Champlin (2001, p. 2596) comenta:

"O significado, pois, parece ser o homem bom "toma almas para si mesmo, a fim de lhes dar seus frutos doadores de vida". Em outras palavras, ele os leva à obediência à lei, conforme esta é interpretada pelas declarações de sabedoria, e nisso eles encontram a vida, tal e qual o homem bom a possui."

Dessa forma, o versículo fica mais claro quando se traduz da seguinte forma:

"O que conquista pessoas para a prática da justiça conforme a lei, é sábio"

Dizer que o texto fala objetivamente do ato de "ganhar almas para Jesus" é um equívoco exegético e hermenêutico.

Em segundo lugar, o uso da expressão "ganhar almas" em relação à pregação do Evangelho, tem promovido em muitos um certo "orgulho santo", um "status espiritual diferenciado", a idéia de ação exclusiva do homem para o homem, da capacidade de agir sem a ajuda de Deus na missio dei. Há pessoas que contabilizam presunçosamente as "almas ganhas".

Paulo usa a expressão "ganhar" (e não "ganhar almas") em 1 Co 9.18-23:

"Nesse caso, qual é o meu galardão? É que, evangelizando, proponha, de graça, o evangelho, para não me valer do direito que ele me dá. Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei. Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele."

Na mente de Paulo, "ganhar" (gr. kerdeso, vencer, conquistar conf. Rienecker e Rogers) é sempre "ganharmos" ou "ganhar com", em vez de "ganhar para". O apóstolo entende que "ganhar" é cooperar com o evangelho (v.23) e com Deus (1 Co 3.9). Esta cooperação com, e este ganhar (mos), se dá na medida que ele anuncia, prega ou propõe o evangelho (v.16 e 18), ou seja, na medida em que ele comunica as boas novas.

Enquanto e após comunicada, as boas novas de salvação ganham força convencedora e transformadora pelo Espírito:

"Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo:" (Jo 16.7-8)

A partir de então o Espírito Santo, mediante a Palavra de Deus comunicada, trabalha promovendo fé, arrependimento, confissão e transformação (Jo 3.1-8). É o plano de salvação aplicado na pessoa do pecador sem Cristo. Sem esta ação do Espírito não há salvação.

Esse artigo tem apenas caráter esclarecedor, não polemizador. O uso inadequado do texto de Provérbios aqui citado, assim como o sentimento de independência de Deus no processo de comunicação do Evangelho por parte de alguns pregadores e evangelistas, não impedirá que Deus continue salvando.

De qualquer forma, é interessante que o agir evangelístico esteja fundamentado e seja compreendido adequadamente por seus agentes e atores humanos.


REFERÊNCIAS


BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA (SBB)

BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL (CPAD)

CHAVE LINGÜÍSTICA DO NOVO TESTAMENTO GREGO (VIDA NOVA)

DICONÁRIO VINE (CPAD)

O ANTIGO TESTAMENTO INTERPRETADO (CPAD/HAGNOS)

3 comentários:

Daladier Lima disse...

É por isso que minha coroa tem que ser bem grande, daquelas com muitas pedras, que representam as muitas almas que eu ganhei. Quem já não ouviu este raciocínio?

Elisomar disse...

Ah eu já ouvi sim. Tem uma irmã aqui em Paratibe, que disse pra mãe dela: Mãe pare de pregar o evangelho senão a senhora não vai carregar sua coroa, porque vai ficar muito pesada. rsrsrs É brincadeira é uma história dessa?

kalunga disse...

Uma mãe ora 30 anos por seu filho e,no dia em que ele se converte, alguém diz: ganhei essa alma pra Jesus. Sempre me incomodei com essa expressão.
Vamos todos semear, semear, semear e semear. O Senhor se encarregará de enviar quem regue (que poderá ser nós mesmos) e Ele dará o crescimento.