sábado, 15 de março de 2008

O CULTO E O TEMPO


“A maneira como usamos o nosso tempo é uma boa indicação do que consideramos de importância primordial na vida. Sempre poderemos ter certeza de encontrar tempo para aquelas coisas que consideramos mais importantes, embora nem sempre admitamos perante os outros ou até perante nós mesmos quais são nossas prioridades reais. Seja para ganhar dinheiro, para a ação política ou para atividades em família, encontramos tempo para colocar em primeiro lugar aquelas coisas que mais nos importam. O tempo fala. Quando o damos aos outros, na verdade estamos nos dando a nós mesmos. Nosso uso do tempo não só mostra o que é importante para a nossa vida. O tempo, então, expõe escancarada e involuntariamente as nossas prioridades. Ele revela o que mais valorizamos pela forma como alocamos esse recurso limitado.” (James F. White)

Quando nos debruçamos sobre o Novo Testamento, percebemos através dos registros de Atos dos Apóstolos e dos textos epistolares, que na igreja primitiva o culto não estava preso a um tempo pré-determinado "χρονος" (gr. chrónos, espaço de tempo). A ênfase sobre o primeiro dia da semana como dia litúrgico (1 Co 16.2; At 20.7, 11 e Ap 1.10), corroborada por Inácio de Antioquia, Justino Mártir, e pelo testemunho do Didaqué, era a única recomendação temporal feita ao culto cristão.

No culto cristão prevalecia o καιρος (gr. kairós, tempo oportuno e apropriado), livre das amarras do χρονος. Havia prazer, vontade, desejo intenso de se reunir, estar juntos, partir o pão, orar, louvar, ouvir prazerosamente a Palavra:

“e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.” (At 2.42)

Não havia catedrais, basílicas, monumentos cristãos erguidos para a própria honra e glória humana, para perpetuação de seu nome. Pura mentalidade “nabucodonosoriana”, “constantiniana” e “medieval” (Dn 4.30). Vaidade em nome de um falso, ou até mesmo sincero, mas não essencial tributo a Deus, que já “não habita em templos feitos por mãos de homens” (At 17.25).

Nada de ênfases tolas em conforto ou qualidade de atendimento aos crentes (ou clientes?), em mero esteticismo, cadeiras de luxo, púlpitos de cristal, bronze, prata e ouro, sistemas de refrigeração que roubam milhares de reais da oferta missionária e que desfalcam a obra social. O conforto é bom, mas não é tudo, é desejável, mas não pode ser prioritário.

Mesmo não desfrutando desses privilégios, os cristãos primitivos ficavam no culto até o fim. Havia coisas mais sublimes e relevantes que os “prendiam” lá. Havia a presença da glória de Deus, o gozo no Espírito Santo, a unção, a reverência, a compaixão, a misericórdia, a sinceridade, a comunhão, o amor fraterno. O χρονος não importava.

Não havia pressa para voltar para casa, apesar do inevitável e necessário labutar do dia seguinte os aguardar, ainda que os perigos dos becos, vales e estradas fossem reais.

“E, perseverando unânimes todos os dias (καθ ημεραν, gr. kath heméran) no templo [...]” (Atos 2.46).

Atualmente para muitos, só resta o agonizante culto dominical. Onde o relógio (imagem e expressão simbólica do χρονος ) é mais observado e reverenciado do que a própria Palavra de Deus. O dia da ressurreição, o dia do Senhor (Dies Dominica) deixou de ser aguardado ansiosamente e guardado inegociavelmente.

Para estes, só resta agora inquietação, irreverência e arrogância. “Se passar do horário (χρονος) vou embora, ameaçam uns. É preciso decência e ordem, bradam outros!”. Que decadência, que loucura, que tolice, que insensatez.

Perdoa-nos Senhor! Ensina-nos a viver deliciosamente em tua presença, remindo o tempo no culto prestado a ti, tirando o máximo do καιρος (Ef 5.16).

12 comentários:

Vitor Hugo da SIlva disse...

A paz do Senhor pastor Altair Germano!

Transcrevo as suas palavras:

´´Nada de ênfases tolas em conforto ou qualidade de atendimento aos crentes (ou clientes?), em mero esteticismo, cadeiras de luxo, púlpitos de cristal, bronze, prata e ouro, sistemas de refrigeração que roubam milhares de reais da oferta missionária e que desfalcam a obra social´´

Cheguei a escutar um absurdo sem tamanho de um certo irmão e que com certeza é o pensamento de muitos critãos, ele disse:

´´Missionário tá na missão pra sofrer mesmo, pra passar prova``

Ocorreu dentro do meu coração um sentimento de ira e tristeza. Enquanto enormes templo luxuosos são eregidos, muitas cidades no Brasil não possuem missionários evangélicos para poderem levar a Palavra do Senhor. O motivo? Falta de verba! Porém quando olho para alguns templos e algumas festividades onde são pagos valores astronomico para certos pregadores e cantores(a), duvido e muito desta tal ´´falta de verba``.

Deus abençoe!

Eliseu Antonio Gomes disse...

Pastor Altair

Certa vez recebi um e-mail dizendo que o tempo é como uma conta corrente com fundos a perder de vista. Podemos usar de forma boa, fazer render o saldo ou esgotar com coisas supérfluas.Gostei da analogia.

Mas quero comentar, também, sobre a homofobia: O Pr Silas Malafaia foi ao ar nas televisões Redetv! e Bandeirantes no sábado passado, dia quatro de agosto, trazendo uma mensagem sobre a ótica bíblica quanto à homossexualidade. E já está sendo perseguido por causa disso.

Vejam esse site: http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/6_77_61927.shtml

Comunidade Bandeirantes, no orkut: http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=202687&tid=2547831826133167858&na=1&nst=1

Postei sobre o assunto no meu blog.

A paz do Senhor.

Gutierres Siqueira, 18 anos disse...

Parabéns pelo texto!
Cito uma frase do teólogo Ariovaldo Ramos, comentando sobre a mania de costruir catedrais; disse ele: "São monumentos ao ego dos líderes".

Blog do Zé disse...

Que diferença de hoje pastor Altair! Não é nem bom comentar.
Prefiro orar e pedir a Ele prazer e liberalidade para servi-lo com prazer em espírito e em verdade.

jacy disse...

Graça e Paz, professor Altair !

Atrevo-me a fazer um breve comentário a respeito das suas palavras .
O texto do senhor é louvável, uma vez que muitos estão na Igreja (principalmente aos domingos), para cumprir uma mera formalidade.
Na Igreja Primitiva, Paulo pregou para várias pessoas e certo dia, se alongou bastante chegando ao ponto de um rapaz que estava no peitoral, cair por estar com sono.
Apesar do ocorrido, a história não registra o incidente como provável culpa de Paulo, ou, como se tivesse tido por parte da assembléia alguma contestação, até porque o mesmo foi ressuscitado por intermédio de Paulo.
Portanto ao se ouvir a Palavra de Deus, deve-se beber da "Fonte da Vida" com prazer e gratidão, uma vez que são Palavras do Pai para os seus filhos.
E quando o Pastor se alongar um pouco mais, deve-se encarar como permissão de Deus e orientação do Espírito Santo.
Quão grata sou por tê-lo como meu professor.
Permaneça na Santa Paz do Senhor.

ALTAIR GERMANO disse...

Paz do Senhor Vitor,

essas são algumas de nossas profundas contradições.

Um abraço!

ALTAIR GERMANO disse...

Amado Eliseu,

postei também sobre a pressão homossexual sobre o programa do Pr. Silas. Estaremos unidos em pró da causa da Bíblia, denunciando toda investida e falsa acusação contra a igreja de Jesus.

Um abraço!

ALTAIR GERMANO disse...

Paz do Senhor Gutierres,

oremos para que cada vez menos se invista no "luxo", e se direcione mais recursos para aquilo que é prioritário no Reino de Deus,

Um abraço!

ALTAIR GERMANO disse...

Amado Zé,

certamente é melhor orar, inclusive, pedindo coragem para respeitosamente denunciar os abusos.

Um abraço!

ALTAIR GERMANO disse...

Jacy, Paz do Senhor,

obrigado pelo comentário.

Estou feliz e agradeço a Deus, por poder cuidar e servir às suas ovelhas.

Continue orando por mim!

Silas disse...

Acho que o pior disso é que além de Deus não ter o mesmo tempo de culto, os adoradores" ainda dividem com outras coisas, como passeios dentro do templo,conversa que foge do motivo da adoração, apresentação de revistas e outros.

Morestino disse...

Esqueci onde eu li certa vez q nós Cristãos/protestantes tiramos os santos das paredes e colocamos o relogio no lugar das imagens, isso me faz pensar q o relogio não é a materialização do tempo, hoje vivemos em um tempo em q o tempo é quase divinificado. (rs) quem dera q fossemos como aquelas pessoas q firam a noite nas heves