sexta-feira, 30 de agosto de 2019

TEOLOGIA: CURSOS ACADÊMICOS OU LIVRES?

Fazer uma bacharelado, mestrado e doutorado em teologia é o objetivo de muitos irmãos e obreiros, que compreendem a importância e a necessidade de um melhor preparo para o exercício do ministério cristão.

Neste sentido, qual o melhor caminho a trilhar? Os cursos de teologia acadêmicos ou livres? Isso vai depender de alguns fatores e questões.

Se você deseja um grau superior reconhecido pelo MEC, e com isso a possibilidade de fazer carreira acadêmica e se tornar um pesquisador ou professor universitário, o caminho são os cursos de teologia acadêmicos. O problema é que na maioria dos casos, estes cursos não estão comprometidos com a ortodoxia bíblica, sendo propagadores de teologia liberal e heterodoxa. Os cursos teológicos acadêmicos, geralmente, não focam no preparo bíblico e ministerial.

No caso de estar buscando um melhor preparo bíblico e teológico para o exercício do ministério cristão, alinhados com a ortodoxia bíblica e com os sistemas doutrinários denominacionais, os cursos livres de teologia em seus níveis básico, médio, bacharelado, mestrado e doutorado podem ser a melhor opção.

Um curso teológico por ser livre, não significa que o seu nível de ensino é inferior ao oferecido por um curso teológico acadêmico. Há cursos acadêmicos de nível muito baixo, e não comprometidos, como já falamos, com a formação e preparo para o ministério e liderança cristã.

É a seriedade comprovada da instituição de educação teológica, o nível de competência, formação e experiência de seus diretores e professores, a vida piedosa destes, o compromisso com a sã doutrina, a excelência do currículo etc., que devem ser considerados por aqueles que buscam no estudo bíblico teológico um maior saber para um melhor servir.

Os cursos acadêmicos são geralmente mais caros, pois as exigências do MEC acabam inviabilizando a cobrança de mensalidades menores.

Os cursos livres em teologia mais recomendáveis, são aqueles oferecidos por instituições de ensino credenciadas junto aos Conselhos de Educação de igrejas, convenções locais ou nacionais.

Se você está em busca do profissionalismo ou do status acadêmico, os cursos e instituições acadêmicas poderão lhe oferecer isso.

Se o seu foco é uma melhor capacitação bíblica e preparo para o ministério cristão, os cursos livres, em seus diversos níveis, oferecidos por escolas, seminários, centros educacionais, faculdades e outras instituições de ensino teológico livre, conforme os padrões aqui citados, são os mais recomendáveis.

Infelizmente, em alguns círculos eclesiais, o status acadêmico ou teológico está valendo mais do que a própria vocação espiritual para o ministério.

Vale lembrar, que não é o nosso diploma acadêmico, nem a nossa formação teológica livre (embora importante) que nos recomenda para o ministério cristão, mas a constatação dos pré-requisitos bíblicos em nossa vida.

A TEOLOGIA COMO HERMENÊUTICA DA EXPERIÊNCIA

"O objetivo da teologia é a interpretação da experiência. A teologia equipara-se a uma rede que podemos lançar sobre a experiência, a fim de capturar seu sentido. A experiência é vista como algo que deve ser interpretado e não como algo que possua por si só capacidade de interpretação. [...] A perspectiva de Lutero considera a experiência como algo de importância vital para a teologia; sem ela, a teologia é empobrecida e deficiente, como uma concha oca, vazia, que espera por sua pérola. Contudo, a experiência por si só não pode ser tida como fonte teológica confiável; ela deve ser interpretada e revista pela teologia. [...] A teologia interpreta nossos sentimentos, até mesmo a ponto de contradizê-los, quando são enganosos. Ela insiste na fidelidade de Deus e ba realidade da esperança da ressurreição - mesmo nas ocasiões em que a experiência parece sugerir o contrário. Portanto, a teologia fornece-nos um apoio para que possamos compreender as contradições da experiência. Pode parecer que Deus está ausente, distante desse mundo - a teologia, contudo, insiste no fato de que essa experiência é temporária, falha e que não podemos nos deixar levar pelas aparências". (Alister McGrath, Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica, Shedd Publicações, 2005, p. 236-237)

O pressuposto fundamental para uma teologia que interpreta fidedignamente a experiência é a crença nas Escrituras como a inspirada, inerrante e infalível palavra de Deus.
Uma hermenêutica apropriada para a interpretação das Escrituras precisa considerar o pressuposto acima, com todas as suas implicações.

Para os casos onde a teologia nega a experiência bíblica, e isso baseado em pressupostos racionalistas, cessacionistas etc., as Escrituras e a experiência coletiva contribuirão para a superação do equívoco exegético e teológico.

MESTRES OU DOUTORES DA ACADEMIA E DA IGREJA

A academia pode até produzir artigos teológicos, mas a última palavra em termos de doutrina é da igreja.

Uma obra acadêmica só deve ser publicada por uma editora confessional se passar pelo crivo e aprovação da comissão ou conselho de doutrina da igreja.

Mestres ou doutores acadêmicos em teologia não tem na igreja autoridade acima dos mestres ou doutores vocacionados espiritualmente por Deus (Ef 4.11), muito embora em alguns casos a vocação acadêmica coincida com a vocação espiritual para o ministério de ensino.

Alguns mestres ou doutores acadêmicos em teologia podem nunca ter experimentado o novo nascimento, mas mestres ou doutores dados por Deus à igreja são crentes nascidos de novo.

É importante que a academia e os acadêmicos entendam isso com muita clareza, para que não corram o perigo de se ufanarem em seus títulos, desprezando o ministério bíblico do ensino, que não depende dos títulos acadêmicos para ser exercido.

Entender estas questões é algo fundamental no processo de crescimento de acadêmicos no contexto pentecostal assembleiano brasileiro.

ASSEMBLEIA DE DEUS: UMA IGREJA IMPERFEITA COMO TODAS AS OUTRAS

Como todas as denominações evangélicas, as Assembleias de Deus é uma igreja imperfeita. Apesar disso, é possível constatar algumas mudanças e melhoras significativas ao longo da sua história. Obviamente, diante das diversidades regionais e locais, em alguns lugares estas mudanças e melhoras tiveram um maior ou menor avanço. São elas:

1. Melhor nível de formação bíblico-teológica de sua liderança;
2. Melhor qualidade do ensino e da pregação;
3. Maior atenção e investimentos no discipulado;
4. Implementação de estratégias de evangelismo diversificadas e contemporanizadas;
5. Maior investimentos em trabalhos sociais;
6. Incentivo aos membros e congregados a buscarem uma melhor formação educacional;
7. Promoção da necessidade de uma maior consciência política e cidadã dos seus membros e congregados;
8. Maior atenção e ação concreta para pessoas com necessidades especiais;
9. Uma liturgia que concilie tradição e contextualização;
10. Equilíbrio sobre as questões de usos e costumes.
É preciso dizer que há muito ainda no que melhorar, e que deficiências existem, mas no geral avançamos em diversas áreas.

Em outro post relacionarei alguns pontos onde precisamos buscar melhoras, suprindo algumas deficiências atuais e urgentes.

A BARGANHA DAS HONRAS

A barganha das honras é uma prática antiga. Jesus a denunciou nos seus dias.

Não se trata de honrar a quem é devida a honra, mas de honrar querendo honra em troca.

Quem usa da prática de barganhar honras, só assim o faz com quem está em cargo e posição que pode devolver a honra concedida em medida igual ou superior.

O barganhador de honras geralmente não honra quem não está mais em cargo de honra, não considera o serviço que prestou, e nem o que ainda representa para a instituição.

O barganhador de honras tem interesses narcisistas. Honra em nome de sua própria vaidade. Quando honra, busca honra para si mesmo.

Um olhar mais atento e é possível diferenciar quem honra pela honra devida, de quem honra barganhando honras.

Honrar sem barganhas é um ato aprovado biblicamente (Rm 13.7; 1 Tm 5.17; 1 Pe 2.17). Honrar com barganhas é um ato reprovado biblicamente (Jo 5.41-44).

EXPERIÊNCIA, RAZÃO E INTERPRETAÇÃO DAS ESCRITURAS

"A experiência pessoal do intérprete, seja ela espiritual ou fenomenológica, não deve ser desprezada, mas não pode ser considerada como referencial fidedigno de interpretação. As experiências pessoais devem ser interpretadas à luz das Escrituras e não o contrário [...]. As experiências têm, portanto, apenas um papel secundário na interpretação das Escrituras. Elas devem ser levadas em consideração somente como elemento adicional na avaliação da autenticidade da nossa interpretação." (Paulo Anglada, Introdução à hermenêutica reformada, Knox Publicações, 2016, p. 227, 228)

A experiência não tem a primazia na interpretação das Escrituras, mas tem o seu devido lugar, e deve ser considerada. A experiência pode cooperar com a interpretação bíblica ou comprometê-la. A experiência deve ser submetida à autoridade das Escrituras.

"[...] aqueles com essa experiência (carismática) tendem a ter visões mais elevadas das Escrituras e maior atenção à sua mensagem do que, em média, os seus pares. A experiência carismática torna plausíveis muitos tipos de experiência com o texto bíblico que alguns que não tem experiências análogas estão mais tentados a rejeitar [...]; para ser eficaz na interpretação da Bíblia, no entanto, ela ainda precisa ser complementada com atenção especial ao texto bíblico." (Craig S. Keener, A hermenêutica do Espírito, Vida Nova, 2018, p. 431, 432)

A experiência carismática capacita o intérprete para uma maior compreensão dos textos sobre temas carismáticos, visto que o intérprete já os experienciou. A experiência produz um conhecimento além do livresco ou teórico. A experiência vivenciada ou não vivenciada pode influenciar na interpretação bíblica.

"A primeira fonte interna da autoridade é a experiência. O indivíduo relaciona-se com Deus no âmbito da mente, da vontade e das emoções. Considerando a pessoa como uma unidade, os efeitos sofridos em qualquer im desses âmbitos são sentidos, ou experimentados, nos demais, quer subsequente quer simultaneamente. De fato, a revelação de Deus tem o seu efeito na totalidade da pessoa humana. [...] A razão, portanto, é de grande auxílio no conhecimento da revelação de Deus, mas não tem a primazia sobre esta [...]. A experiência individual, especialmente se inspirada e dirigida pelo Espírito Santo, bem como a razão humana, também ajudam o crente a entender a revelação divina. Nem por isso a Bíblia deixa de ser a única regra infalível e suficiente de fé e prática." (James H. Railey Jr.; Benny C. Aker, Fundamentos Teológicos in Stanley Horton (org.) Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal, CPAD, 2008, p. 48, 49)

Experiência e razão cooperam no processo de conhecimento da revelação de Deus, tendo a Bíblia como a autoridade suprema.

"Conhecer, ao menos na perspectiva da experiência, é relacionar-se com a realidade como uma presença. Exatamente por isso nos é reclamado todas as dimensões de nossa existência, não somente a razão ou os sentidos compreendidos em oposição." (Alessandro Rodrigues Rocha, Experiência e discernimento: recepção da palavra numa cultura pós-moderna, Fonte Editorial, 2010, p. 131, 132)

A interpretação bíblica é um processo que envolve experiência e razão, pensamentos e sentimentos. A interpretação bíblica envolve a totalidade do ser humano.

Interpretar a Palavra viva do Deus vivo envolve experiência e razão. Envolve iluminação do Espírito e investigação metodológica. Envolve conhecer e sentir. Envolve pensar e experimentar.

Em hermenêutica, a ênfase extremada na experiência nos levará ao subjetivismo pós-moderno, enquanto a ênfase extremada na razão nos conduzirá ao racionalismo moderno.
Experiência e razão fazem parte do fazer hermenêutico, cooperando na interpretação e aplicação do texto bíblico.

EQUILÍBRIO HERMENÊUTICO

"Qualquer método de estudo pode tomar uma abordagem unilateral e meias verdades como conclusão, especialmente na primeira onda de entusiasmo por um novo procedimento" (I. Howard Marshall, Fundamentos da narrativa teológica de São Lucas, Editora Carisma, p. 26)

"Por um lado, quando apropriado, todas as partes no debate devem abandonar os programas metodológicos predominantemente autossuficientes, que conspiram para silenciar ou manipular a distinta teologia de Lucas. Por outro lado, todas as partes devem desenvolver um consenso metodológico para interpretar o dom do Espírito em Lucas-Atos." (Roger Stronstad, A teologia carismática de Lucas, CPAD, p. 29-30)

"Tudo isso sugere que os pentecostais têm uma hermenêutica distinta, uma forma distinta de ler a Bíblia [...]. Em muitos aspectos, a maioria dos pentecostais lê a Bíblia de forma semelhante aos nossos irmãos evangélicos. Os pentecostais e os evangélicos ressaltam a importância da intenção do autor bíblico e procuram entender a passagem à luz de seu contexto histórico e literário. O significado histórico é importante para ambos os grupos." (Robert P. Menzies, Pentecostes: essa história é a nossa história, CPAD, p. 23-24)

Assim como a teologia pentecostal é resultado da fusão de diversas teologias, a hermenêutica pentecostal é resultado da fusão de diversas metodologias.