sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O Ladrão: Exegese de João 10.10




"O ladrão não vem senão a roubar, a matar e a destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância.” (Jo 10.10)

Quem é o ladrão mencionado por Jesus no texto de João 10.10? São muitos os pregadores e ensinadores que afirmam ser o diabo. Eu mesmo já perdi a conta das vezes que ouvi dos púlpitos tal afirmação. Desde já, é preciso deixar claro, que matar, roubar e destruir, sem dúvida alguma, fazem parte das obras do diabo (1 Pe 5.8; 1 Jo 3.8). Mas era ao diabo que Jesus se referia no texto aqui em análise? Vamos aos fatos.

Uma das principais regras de uma boa hermenêutica é considerar e analisar o contexto imediato do versículo, ou seja, os versículos precedentes e posteriores, e claro, todo o capítulo, e se for o caso, os capítulos precedentes e posteriores. Em alguns casos, todo o livro, com o seu tema principal, deve ser observado. Conforme Plummer:

Qualquer porção da Escritura deve ser lida no contexto da sentença, do parágrafo, da unidade de discurso maior e de todo o livro bíblico. Quanto mais o leitor se afasta das palavras em questão, tanto menos informativo é o material considerado. Tentar entender ou aplicar uma frase ou um versículo bíblico específico sem referência ao contexto literário equivale a uma quase certeza de resultar em distorções. Infelizmente, na literatura e na pregação cristã popular, há muitos exemplos dessa falta de respeito ao contexto de uma passagem. Uma das exibições mais dolorosas dessa falha hermenêutica é um pregador que exalta e confessa a autoridade e a inerrância da Escritura, enquanto, na prática, nega essa autoridade por meio de sua pregação negligente.[1]

Se considerarmos que a narrativa do capítulo 10 de João segue os fatos narrados no capítulo 9, onde lemos que em razão da cura de um cego de nascença, os fariseus, que tinham uma considerável representação e influência entre os líderes religiosos da nação, questionaram a curam e a procedência do poder de Jesus para operá-la (9.15-16), e que o capítulo 9 termina exatamente com uma resposta de Jesus aos fariseus, que buscavam esclarecer uma afirmação de Jesus sobre “cegos” espirituais ou de entendimento espiritual (9.40-41), tais fatos precisam ser considerados para compreendermos João 10.10. Carson compreende que:

O homem curado foi tratado de forma rude pelas autoridades religiosas e expulso da sinagoga. O que João escreve em seguida é, portanto, que muitos ladrões e assaltantes destroem as ovelhas, enquanto o bom pastor guia os seus para fora do aprisco e para dentro do seu próprio rebanho. E se a justaposição de 10.1-18 com o fim do capítulo 9 não é o bastante para estabelecer a conexão, João reporta a contínua incerteza dos judeus sobre a cura do home cego (10.19-21) para ligar as duas passagens entre si.[2]

No capítulo 10 as expressões “ladrões” (gr. Κλέπται, kléptai) e “salteadores” (gr. λῃσταί, lestaí) já aparecem no versículo 8, e ambas no plural, o que fortalece a ideia do texto se referir aos líderes da nação como pessoas não autorizadas, que entram e brutalizam as ovelhas. Um Ladrão é alguém que furta, apossa-se de forma secreta e sem permissão da propriedade de outra pessoa (Mt 24.43).[3] Um salteador, ou assaltante, é alguém que rouba com uso de força e violência (Lc 10.30).[4] Para Carson:

É difícil ler essas palavras sem pensar em diversos panos de fundo. De longe, o mais importante é Ezequiel 34. Lá o Senhor repreende “os pastores de Israel”, os líderes religiosos dos dias de Ezequiel, por matar os animais escolhidos, vestindo-se com a lã, porém falhando totalmente em cuidar do rebanho (Ez 34.4). [...] Se esse pano de fundo é original, então no contexto do ministério de Jesus os ladrões e assaltantes são os líderes religiosos que estão mais interessados em tosquiar as ovelhas do que guiá-las, nutri-las e protege-las. Eles são os líderes do capítulo 9, que deveriam ter ouvidos para ouvir as declarações de Jesus e reconhecê-lo como a revelação de Deus, mas que em lugar disso, desprezam e expulsam as ovelhas.[5]

Bruce, em seu comentário, diz que os ladrões e salteadores podem ser os integrantes do sistema, que se revelaram como péssimos pastores daqueles necessitados do rebanho de Israel, como era o homem que foi curado da sua cegueira. Pode-se, segundo ainda Bruce, pensar ainda em falsos messias, líderes de revoltas e outras pessoas desta estirpe, que mobilizavam seguidores em torno de si para conduzi-los ao desastre, como Teudas e Judas o galileu (At 5.36,37).[6]

Estranhos, ladrões e assaltantes podem chamar as ovelhas pelo nome e tentar imitar a voz do seu pastor. Os escribas e fariseus eram falsos pastores, e a sua voz confundiu e desencaminhou as ovelhas.[7] No Comentário Bíblico Pentecostal lemos que:

É proveitoso tentarmos descobrir o plano de fundo das palavras “ladrão” e “salteador”. Evidência pode ser encontrada na Palestina do século I para trás. Bandidos e revolucionários vagavam em todos os lugares e atacavam as pessoas. A questão é que esses líderes, que seguiam o rastro de Jesus pelo caminho, são falsos e não fazem nada senão desviar as pessoas.[8]

Para Champlin, pode-se interpretar os ladrões e salteadores como os líderes das diversas seitas de Israel, que tinham perdido de vista o seu propósito ou missão original, tendo-se corrompido de diversas maneiras, como os fariseus e saduceus. É fora de dúvida que isso faz parte da intenção e sentido original da fala de Jesus conforme mostra o contexto imediato.[9]

Aplicando a presente narrativa aos dias atuais, e comparando-a com as ações de ladrões e salteadores no contexto de João 10.1-18, Champlin compreende que tais condutas estão presentes também na igreja, onde falsos líderes podem usar de muitas práticas para roubarem e destruírem pessoas e a própria organização religiosa em benefício próprio. Embora possam parecer pastores do rebanho de Deus, e terem aparência de piedade, não passam de ladrões e salteadores da igreja de Jesus.[10]

Conclusão:

Com a presente exegese em torno de João 10.10, considerando ainda a importância já citada do contexto para a interpretação do texto, onde a sua significação é também determinada pelo raciocínio geral, ou pelas referências do contexto[11], concluímos que compreender e aplicar aqui o termo “ladrão” como uma referência direta feita por Jesus ao diabo é um equívoco hermenêutico. Jesus tinha em mente a liderança religiosa de Israel, que como ladrões e salteadores, buscavam roubar, matar e destruir as ovelhas (o povo) em benefício próprio.


[1] PLUMMER, Rob. 40 questões para se interpretar a Bíblia. São José dos Campos-SP: Fiel, 2017, p. 146 e 147.
[2] CARSON, D. A. O comentário de João. São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 380.
[3] LOUW, Johannes; NIDA, Eugene. Léxico grego-português do Novo Testamento. Barueri-SP, 2013, p. 519.
[4] Ibid., p. 520.
[5] CARSON, D. A. Ibid., p. 382-383.
[6] BRUCE, F. F. João: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1987, p. 196.
[7] LOCKYER, Herbert. Todas as parábolas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1999, p. 381.
[8] ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger (editores). Comentário bíblico pentecostal do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 559.
[9] CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 442, v. 2.
[10] Ibid., p. 443.
[11] ANGUS, Joseph. História, doutrina e interpretação da bíblia. São Paulo: Hagnos, 2003, p. 176 e 180.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Parábola: Uma Lição Para a Vida - Subsídio para Lições Bíblicas da CPAD - 4º Trimestre/2018



O poder da contação de histórias é indiscutível. Para quem já pôde fazer um curso de pedagogia isso é ainda mais claro. As parábolas são muito mais do que simples histórias. Como Mestre dos mestres, Pedagogo dos pedagogos, Jesus nos deixa um exemplo magnífico do poder das parábolas como instrumento didático no processo ensino-aprendizagem.

De todas as atividades de Jesus, a que mais encontramos ele fazendo é ensinando. As parábolas constituem cerca de 35% dos seus ensinos nos evangelhos sinóticos.[1] A palavra grega parábola aparece cerca de cinquenta vezes nos Evangelhos Sinópticos.[2] É importante informar que Jesus não foi a primeira pessoa a fazer uso das parábolas, contudo, seu estilo é incomparável, com uma clareza e simplicidade sem par, bem como uma maestria inaudita na construção.[3] Tanto no Antigo Testamento, como em outros contextos do mundo antigo, as parábolas fazem parte da cultura popular. Os relatos mais antigos de parábolas datam do século XXIV a.C.[4]

1 – O que é uma Parábola?

Definir “parábola” tem sido algo que os estudiosos divergem entre si. Snodgrass afirma que: “Possivelmente nenhuma definição de parábola se mostrará completamente eficaz, pois toda definição que seja ampla o suficiente para englobar todas as formas acaba se revelando tão imprecisa a ponto de se mostrar praticamente inútil.”[5] As parábolas são instrumentos ou recursos comunicativos para compreensão do seu ensino acerca dos valores, princípios e demais realidade do Reino.[6] Elas são analogias ampliadas utilizadas para convencer e persuadir.[7]

A palavra hebraica para “parábola” é mashal, e designava toda sorte de linguagem figurada: Parábola, comparação, alegoria, fábula, provérbio, revelação apocalíptica, dito enigmático, pseudônimo, símbolo, figura de ficção, tipo, motivo, argumentação, apologia, objeção, piada.[8] Sua correspondente no grego é parabole, e é geralmente (e equivocadamente) definida como simplesmente uma ilustração. Seguindo a sua correspondente no hebraico, parabole pode significar no Novo Testamento: Comparação (Lc 5.36; Mc 3.23), figura simbólica (Hb 9.9, 11, 19), provérbio ou máxima (Lc 4.23), enigma (Mc 7.17), regra (Lc 14.17)[9], contraste (Lc 18.1-8), alegoria (Mc 4.3-9)[10].

Uma característica fundamental da parábola está um unir duas coisas diferentes, de forma que uma ajude a explicar e ressaltar a outra. É um símbolo externo de uma realidade interna.[11] Tratam de falar de verdades espirituais através de realidades naturais. Vestem de imagens às abstrações teóricas.

O objetivo último de uma parábola é despertar uma compreensão mais aprofundada sobre o assunto que trata, promover uma tomada de consciência e conduzir os ouvintes a uma ação concreta.

2 – As Parábolas e o Problema da Alegorização

Após a morte de Jesus as parábolas sofreram alguns desvios na sua interpretação, sendo tratadas como alegorias, ou seja, a cada detalhe de uma parábola era atribuído um sentido especial e profundo. Em razão disso, houve um distanciamento do sentido original dos ensinos de Jesus por parábolas. Diversos fatores podem ter contribuído para isto. Dentre os quais estavam o desejo inconsciente de achar nas palavras simples de Jesus um sentido mais profundo, a influência da interpretação alegórica helenística com o uso dos mitos, e o judaísmo helenístico onde a exegese alegórica encontrou espaço.[12]

Alegoria é um gênero literário que atribui significado simbólico a detalhes textuais.[13] Os que fazem uso da alegoria falam ou escrevem sobre algum assunto por intermédio de outro, buscando desvendar sentidos simbólicos, espirituais ou ocultos. Conforme o método alegórico, o sentido literal e histórico das escrituras é desprezado, e a cada termo ou acontecimento é dado um significado mais “espiritual”.[14]

A alegorização (ou alegoresis) é a prática interpretativa de transformar em alegoria aquilo que originalmente não tinha o propósito de ser alegoria.[15] O sistema interpretativo alegórico tem suas raízes históricas no pensamento de Heráclito (540-475) e Platão (427-347). Posteriormente, o famoso judeu Filo de Alexandria dedicou-se a reconciliar o ensino Moisés nas Escrituras com as ideias de Platão, passando a usar a alegorese (método alegórico de interpretação).[16] Esse método influenciou em maior e menor grau a interpretação bíblica até a Reforma Protestante, onde houve um rompimento radical a hermenêutica alegórica medieval. Os reformadores ensinavam que cada texto tem só um sentido, que é o literal, a não ser que o próprio contexto ou outro texto das Escrituras exijam claramente uma interpretação figurada ou metafórica.[17] 

Lutero classificou as interpretações alegóricas anteriores de tolas, tagarelices admiráveis, absurdas e inúteis. Calvino afirmou ser uma audácia, associada a sacrilégio, mudar precipitadamente a Escritura de qualquer maneira que nos agrade e satisfaça à nossa imaginação.[18] Em resumo, dentre os problemas e perigos que norteiam o método de interpretação alegórico estão: a) O desprezo pelo significado ordinário das palavras, com a especulação de um sentido místico de cada uma delas; b) A intenção do autor é ignorada, sendo inserido na interpretação todo tipo de extravagâncias ou fantasias que um intérprete deseje dar; c)    Os métodos válidos, como por exemplo o histórico-gramatical, são rejeitados, e a mente e criatividade do intérprete se tornam a única base interpretativa. A Bíblia deixa de ser a autoridade básica da interpretação; d)     Quem usa o método alegórico não possui os meios necessários para provar as suas conclusões. [19]
    
     Os intérpretes que fizeram ou fazem uso do método alegórico se tornam reféns de sua própria subjetividade interpretativa.

No final do século XIX, Adolf Jülicher (1857-1938), um estudioso alemão e exegeta bíblico, rejeitou a alegoria ou a alegorização de modo contundente. Em sua obra “História da interpretação das parábolas de Jesus”, publicada em dois volumes em 1888-89, ele trava uma guerra contra a alegorização, chegando a ir para um outro extremo sobre a questão, reduzindo os ensinos de Jesus através das parábolas como um moralismo piegas a respeito deste mundo, ou máximas religiosas gerais.[20] Ele espanou de sobre as parábolas uma espessa camada de pó colocada sobre elas através da alegorização, mas deixou a principal tarefa por fazer, que era tentar reobter o sentido original das mesmas.[21] Ainda que a rigidez unilateral de sua tese possa ser questionada, ela colaborou para a necessidade de buscar na interpretação das parábolas o verdadeiro sentido do texto.[22]

Em termos práticos, um exemplo da aplicação do método alegórico nas parábolas pode ser visto, por exemplo, em Agostinho, quando na parábola do Bom Samaritano (Lc 10.30-37), o homem moribundo é Adão, Jerusalém é a cidade celestial, Jericó representa o caráter mortal da humanidade, os ladrões são o Diabo e seus demônios, o sacerdote e o levita são o sacerdócio e ministério do Antigo Testamento, o bom samaritano é Cristo, as cicatrização das feridas é a restrição ao pecado, o azeite e o vinho são o consolo da esperança e o incentivo à obra, o jumento é a encarnação, o abrigo é a igreja, o dia seguinte é o período posterior a encarnação de Cristo, a pessoa que cuida do abrigo é o apóstolo Paulo e os dois denários são os dois mandamentos de amor e a promessa desta vida e da vida porvir.[23]

Certa vez, um pregador discorrendo sobre o homem rico e o mendigo Lázaro (Lc 16.19-31), disse que o homem rico representava o jornalista e empresário Roberto Marinho (1904-2003), o mendigo seria a igreja, as chagas do mendigo os escândalos da igreja e os cachorros que lambiam as chagas do mendigo a Rede Globo de televisão. De fato, temos aqui uma fértil imaginação, mas totalmente desprovida do sentido real do texto bíblico. A alegorização continua presente em nossos púlpitos, usada e abusada por pregadores e ensinadores sem compromisso com os princípios válidos da interpretação bíblica, ou ignorantes a tais princípios, destituídos ou afastados da iluminação do Espírito que coopera com o intérprete e expositor das Escrituras.

3 – Como Interpretar as Parábolas de Jesus?

O estudo sobre as parábolas requer muita atenção para que não se incorra nos erros conceituais e interpretativos das mesmas. Apesar de parecer muito simples e claras, as parábolas possuem algumas particularidades linguísticas, culturais e contextuais que não devem ser desprezadas ou ignoradas.

Um procedimento interpretativo não pode extrair da parábola uma teologia alheia à intenção de Jesus. As parábolas estão entre as histórias mais abusadas e desfiguradas das quais já se ouviu falar, e têm sido manipuladas a fim de servirem a todo tipo propósito na área teológica, política, social e pessoal.[24] Já no início do primeiro século as parábolas sofreram certos desvios na sua interpretação.[25] Elas têm sofrido bastante com as várias interpretações errôneas.[26]

Jesus falou a homens, a partir do momento para o momento. Cada uma de suas parábolas tem um lugar histórico determinado na sua vida. Tentar reobtê-lo é a tarefa do leitor e intérprete. O que Jesus quis dizer nesta ou naquela hora determinada? Vale a pena fazer estas perguntas, para tanto quanto possível chegarmos ao sentido original das parábolas de Jesus.[27]

Envolver-se em interpretação presume que há, de fato, um significado correto e um significado incorreto de um texto, e que devemos ter cuidado para não interpretarmos errado esses significados.[28]

Interpretar, conhecer o significado real das parábolas e da Bíblia como um todo é fundamental para descobrir sua mensagem para os nossos dias. Se descartarmos a importância da hermenêutica e da exegese nesse sentido, estaremos negligenciando um procedimento indispensável do estudo bíblico e deixando de nos beneficiar com isso.[29] Exige-se do bom intérprete que ele aprenda as regras da hermenêutica bem como a arte de aplica-las.[30]

A hermenêutica pode ser definida como a ciência e arte de interpretação bíblica. Já a exegese é a aplicação dos princípios hermenêuticos para chegar-se a um entendimento correto do texto. Refere-se a ideia de que o intérprete está tentando derivar seu entendimento do texto, em vez de impor o seu entendimento ao texto (eisegese).[31] A hermenêutica e a exegese não dispensam a cooperação da oração e da iluminação do Espírito na compreensão da verdade bíblica, do sentido do texto, antes, coopera fundamentalmente nesse processo.

Na interpretação das parábolas, algumas regras e princípios que se aplicam também aos demais textos e gêneros literários bíblicos precisam ser observados. 

Para Oliveira, há quatro coisas que devemos ter em mente se desejamos compreender as parábolas de Cristo. São elas: a) As parábolas nos Evangelhos estão relacionadas com Cristo e seu Reino; b) As parábolas devem ser estudadas à luz do lugar e da época a que se relacionam; c) Observe a explicação das parábolas dadas pelo próprio Jesus; d) Compare os ensinamentos apresentados na parábola com todo o contexto das Escrituras.[32]

As sugestões de Plummer são as seguintes: a) Determine os pontos principais da parábola; b) Reconheça imagens típicas nas parábolas; c) Note detalhes impressionantes e não esperados; d) Não tente encontrar significados em todos os detalhes; e) Preste atenção ao contexto histórico e literário da parábola.[33]

Os princípios interpretativos para as parábolas apresentados por Virkler são: a) Análise histórico-cultural e contextual; b) Análise léxico-sintática; c) Análise teológica; d) Análise literária.[34]

Snodgrass, em sua excelente obrar, sugere: a) Analise cada parábola de forma completa; b) Ouça a parábola sem pressuposições referentes à sua forma e significado; c) Lembre-se que as parábolas de Jesus era instrumentos orais em uma cultura oral; d) Se desejamos conhecer a intenção de Jesus, precisamos procurar ouvir a parábola da mesma forma que uma pessoa da Palestina a ouviria naquela época; e) Observe como cada parábola e o formato da sua redação se encaixam com o objetivo e o esquema de cada evangelista; f) Determine especificamente a função da história nos ensinamentos de Jesus; g) Interprete o que foi expresso no texto, não o que foi omitido. Qualquer tentativa de interpretar uma parábola com base naquilo que está ausente encontra-se, quase que certamente, fadada ao fracasso; h) Dedique uma atenção especial à regra da ênfase final; i) Observe onde os ensinamentos da parábola se mesclam com os ensinamentos de Jesus em outras porções das Escrituras; j) Determine a intenção teológica e o significado da parábola.[35]

Para um maior aprofundamento dos professores e alunos nas questões aqui colocadas, sugerimos a aquisição das obras citadas. O espaço e propósito dos subsídios não permitem discussões e exposições mais prolongadas e exaustivas.

Após tratarmos aqui introdutoriamente do conceito, problemas e dicas interpretativas relacionadas com as parábolas de Jesus, seguiremos avante, estudando cada parábola proposta nas lições bíblicas da CPAD deste 4º trimestre de 2018, esperando em Deus contribuir com cada professor que tiver acesso ao presente conteúdo, buscando em tudo a edificação dos santos e a glória de Deus.




[1] SNODGRASS, Klyne. Compreendendo todas as parábolas de Jesus. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 53.
[2] VIRKLER, Henry A. Hermenêutica avançada: Princípios e processos de interpretação bíblica. São Paulo: Vida, 1987, p. 126.
[3] JEREMIAS, J. As parábolas de Jesus. 10ª Ed. São Paulo: Paulos, 2007, p. 9.
[4] SNODGRASS, Klyne. Ibid., p. 73.
[5] Ibid., p. 32.
[6][6] Ibid., p. 33.
[7] Ibid., p. 34.
[8] JEREMIAS, J. Ibid., p. 13.
[9] Ibid.
[10] SNODGRASS, Kline, Ibid., p. 36.
[11] LOCKYER, Herbert. Todas as parábolas da Bíblia. São Paulo: Editora Vida, 1999, p. 11-12.
[12] JEREMIAS, J. Ibid., p. 9.
[13] PLUMMER, Rob. 40 questões para se interpretar a Bíblia. São José dos Campos, SP: Fiel, 2017, p. 116.
[14] BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica fácil e descomplicada. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 124.
[15] SNODGRASS, Klyne. Ibid., p. 27
[16] LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 130.
[17] Ibid., p. 161.
[18] PLUMMER, Rob. Ibid., p. 123-124.
[19] BENTHO, Esdras Costa. Ibid., p. 125-126.
[20] SNODGRASS, Klyne. Ibid., p. 29-30.
[21] JEREMIAS, J. Ibid., 13.
[22][22][22] Ibid., p. 11.
[23] SNODGRASS, Klyne. Ibid., p. 28.
[24] SNODGLASS, Klyne . Ibid., p. 30-31
[25] JEREMIAS, J. Ibid., p. 9.
[26] LOCKYER, Herbert. Ibid., p. 19-20.
[27] JEREMIAS, J. Ibid., p. 15.
[28] PLUMMER, Rob.
[29] ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica: Meios de descobrir a verdade da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 10.
[30] VIRKLER, Henry A. Ibid., p. 9.
[31] Ibid., p. 11.
[32] OLIVEIRA, Raimundo F. Como estudar e interpretar a Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 1986, p. 50-51.
[33] PLUMMER, Rob. Ibid., p. 404-411.
[34] VIRKLER, Henry A. Ibid., p. 127-132.
[35] SNODGRASS, Klyne. Ibid., p. 57-65.



Deixei Trófimo Doente em Mileto. (2 Tm 4.20)


Trófimo foi um cristão efésio, companheiro de Paulo em sua viagem da Grécia a Troade (At 20.1-6). Ele foi visto na companhia de Paulo pelos judeus em Jerusalém, razão pela qual Paulo foi acusado de ter profanado o templo (At 21.27-29), o que culminou num tumulto, espancamento e detenção de Paulo (At 21.30-36).
Em uma de suas passagens por Mileto, cidade situada no litoral sul do golfo da Latônia, provavelmente antes de sua última viagem a Roma, Paulo deixou ali o seu companheiro Trófimo doente, incapacitado para prosseguir com ele. Sobre esse fato aprendemos algumas lições.
Em primeiro lugar, ao longo da jornada, não são poucos os companheiros que vão ficando para trás, e isso pelas mais diversas razões. A doença é uma delas. Dependendo da gravidade, a doença física ou mental impossibilita a continuidade de alguns na realização da obra de Deus. Avançamos entristecidos, mas movidos pela necessidade de cumprirmos a missão a missão nos confiada pelo Senhor, mesmo sem a presença daqueles a quem amamos.
Em segundo lugar, a nossa impotência e fracassos humanos diante das adversidades alheias é aqui mais uma vez apresentada. Paulo, que segundo as Escrituras foi usado por Deus poderosamente para curar enfermos (At 19.11-12; 28.7-8) e até ressuscitar mortos (At 20.7-12), já havia recomendado a Timóteo que bebesse um pouco de vinho em razão das frequentes enfermidades que sofria (1 Tm 5.23), e agora informa ao próprio Timóteo por meio de carta, que Trófimo fora deixado por ele enfermo em Mileto. A cura divina, em última instância, é operada de acordo com a soberana vontade do Pai. Nos casos aqui citados, até onde consta, os enfermos e companheiros de Paulo não foram curados.
Em terceiro lugar, Paulo não se envergonhou em narrar a sua incapacidade de reverter a condição de Trófimo. Vivemos em uma época onde somente as conquistas e sucessos ministeriais são apresentados e divulgados publicamente. Omitimos muitas vezes os nossos fracassos e perdas dos nossos discursos, relatórios e biografias. Não queremos expor nossas limitações, imperfeições e debilidades. Nos esquecemos que em nossa fraqueza o poder de Deus se aperfeiçoa (2 Co 12.9-10). Nos esquecemos que em nada devemos nos gloriar, a não ser na cruz (Gl 6.14).
Em quarto lugar, ao demonstrar a sua preocupação por Trófimo, Paulo nos ensina que aquilo que devemos fazer para Deus não deve nos levar a nos esquecermos das condições adversas dos filhos de Deus. Companheiros de jornada não são coisas para serem usadas e descartas quando impossibilitados de cooperar conosco na obra. Companheiros de jornada devem ser lembrados, amados e cuidados.
Em quinto lugar, se a nossa condição for a de Trófimo, se a nossa jornada foi interrompida temporariamente por enfermidades, devemos nisso, com a graça de Deus, lhe tributar honra e glória. Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que o amam, mesmo que não as entendamos (Rm 8.28). O nosso impedimento é usado por Deus para propósitos que estão para além do nosso entendimento.
A graça seja convosco.

Somente Lucas Está Comigo (2 Tm 4.11)


Durante a maior parte do seu ministério Paulo teve ao seu lado muitos companheiros. Eles compartilharam de suas alegrias e tristezas, conquistas e perdas, gozo e dor.
Aprendemos com a Bíblia e com a vida, que nos momentos mais críticos e necessários da presença de amigos e companheiros, nos encontraremos ou nos sentiremos sozinhos ou abandonados (2 Tm 4.16).
Deus, em sua graça e misericórdia, em muitas situações, provê um Lucas para estar ao nosso lado.
Lucas é aquele companheiro de ministério sempre presente. Ele fará o possível para nos apoiar e servir. Lucas faz parte da providência divina para o nosso alento.
Com Jesus não foi diferente, pois junto à cruz, poucos se encontravam, mas lá estava o discípulo amado (Jo 19.26).
Poucos são os amigos e companheiros que permanecem ao lado dos acusados, julgados e condenados. Eles temem que lhes façam algum tipo de associação, e com isso venham a sofrer perseguições, retaliações ou outras perdas.
Nos momentos mais críticos de nossa vida e ministério, não apenas Lucas, mas o próprio Senhor nos assistirá e nos revestirá de forças, para que por nosso intermédio, a obra nos confiada seja plenamente cumprida (2 Tm 4.17).
A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!