sábado, 4 de maio de 2019

O Pentecostalismo Clássico


O conceito de pentecostalismo clássico, e consequentemente as denominações que se enquadram nesta classificação, tem sido motivo de discussões e discordâncias dentro do próprio Movimento Pentecostal. Tentaremos aqui dar uma contribuição para o entendimento dos motivos da falta de consenso sobre a questão.

O Pentecostalismo

Em primeiro lugar, iniciaremos trazendo algumas definições de “pentecostalismo”. No Dicionário do Movimento Pentecostal, no verbete “pentecostalismo” lemos que é a crença segundo a qual o falar línguas estranhas (glossolalia) ocorrido com os discípulos de Jesus no dia de Pentecostes, em Jerusalém (At 2.1-3), pode ser experimentado por todos os crentes na atualidade, por meio do batismo no Espírito Santo, os quais podem buscar e praticar dons espirituais (1 Co 12.1-11). Os pentecostais, diferentemente dos protestantes históricos, acreditam que Deus, por intermédio do Espírito Santo, em nome de Jesus Cristo, continua a agir hoje da mesma forma que no cristianismo primitivo, através de milagres, curas, dons espirituais e outras manifestações de poder sobrenatural. Os pentecostais enfatizam uma experiência pós-conversão conhecida como “batismo no Espírito Santo”, acompanhada da manifestação dos dons espirituais (ou charismata). Os dons que foram mais enfatizados pelos antigos pentecostais eram o falar em línguas e os dons de curar.[1]

Em seu estudo sobre o avivamento pentecostal, David B. Barrett afirma que a maior característica dos pentecostais é a descoberta de uma nova experiência sobrenatural com um ministério poderoso e renovador do Espírito na esfera dos milagres, que a maioria dos outros cristãos consideram bastante incomum. Os dons espirituais do Novo Testamento são redescobertos e sua restauração na vida cristã comum e no ministério. As denominações pentecostais defendem que todos os cristãos devem buscar o batismo no Espírito Santo. Surgido nos Estados unidos, em 1901 (há discordâncias entre os pesquisadores sobre data e lugar), pretendia permanecer como movimento interdenominacional, sem provocar o aparecimento de novas denominações.[2]  Em sua maior parte, a teologia pentecostal encaixa-se confortavelmente nos limites do sistema evangélico.[3]

O avivamento pentecostal mundial é classificado por Barrett em três ondas, onde a primeira onda é a renovação pentecostal, a segunda onda a renovação carismática, e a terceira onda a renovação neocarismática (ou neopentecostal).[4]

O Pentecostalismo Clássico

Conforme o Dicionário do Movimento Pentecostal, o termo “pentecostalismo clássico” foi primeiramente usado nos Estados Unidos, por volta de 1960, para fazer a distinção entre as primeiras igrejas pentecostais, surgidas no início do século 20, das igrejas neopentecostais, formadas dentro das igrejas protestantes históricas e da igreja católica romana, que foram logo chamadas de “carismáticas”. Antes das neopentecostais, eram simplesmente chamadas de “igrejas pentecostais”.[5] Em vez de “clássico”, alguns autores utilizam os termos “tradicional” e “histórico”.[6] O pentecostalismo clássico é também chamado de “a primeira onda pentecostal”.[7] Com uma ênfase histórica, a Congregação Cristã no Brasil (1910) e as Assembleias de Deus (1911) formam o pentecostalismo clássico brasileiro.[8]

Embora o termo “clássico” possa restringir-se à ideia de antiguidade e pioneirismo histórico dessas igrejas e denominações, ele pouco esclarece sobre as igrejas que nomeia, e nem revela suas semelhanças e distinções internas.[9] O ensino da “evidência inicial” é o ponto central da teologia da maioria das igrejas pentecostais clássicas em todo o mundo. Este ensino enfatiza que o falar em outras línguas é o primeiro sinal para se saber que alguém de fato recebeu o batismo no Espírito Santo.[10] Esse fato colabora para a impossibilidade de se falar de “uma” matriz teológica do pentecostalismo clássico, devido a sua diversidade.[11]

Segundo Barrett, o procedimento comum nos Estados Unidos para diferenciar o pentecostalismo do movimento carismático, é rotular todo o pentecostalismo denominacional do mundo pelo termo paralelo ou sinônimo “pentecostalismo clássico”. Em seus estudos, Barrett classifica de pentecostalismo clássico o de origem branca, por ser uma forma mais organizada e articulada, diferente do pentecostalismo de origem negra.[12]

O pentecostalismo clássico faz parte da primeira onda do avivamento pentecostal, surgida no meio dos escravos negros nos Estados Unidos; do avivamento evangelical (wesleyano) de 1738, na Grã-Bretanha; do movimento holiness (perfeccionista), que alcançou projeção universal com grande difusão de línguas e de outros fenômenos pentecostais. Outros estudiosos, diferentemente de Barrett, citam 1904 (avivamento galês) e 1906 (Rua Azusa) pelos mesmos motivos.[13]

Já em seus primórdios, alguns fatores doutrinários e teológicos dividiram os grupos pentecostais. Entre esses fatores, pode-se citar o falar em línguas como evidência física (ou exterior) do batismo no Espírito Santo. Foi Charles F. Parham (1873-1929) quem primeiro formulou uma clara “doutrina da evidência inicial”.[14]  A hesitação entre alguns pioneiros em aceitar as línguas como evidência inicial do batismo no Espírito Santo está claramente demonstrado pelo fato de que o documento Fé Apostólica, de 1908, não chama exatamente de evidência o falar em línguas, mas “um dos sinais que seguem os homens e mulheres cheios do Espírito.[15] William Seymour (1870-1922), apesar de inicialmente ter aceitado e promovido o ensino de Charles F. Parham sobre as línguas como a evidência inicial do batismo no Espírito Santo, após um mal-estar gerado pelas duras críticas de Parham ao modo como as reuniões na Rua Azusa eram conduzidas, começou a mudar a sua posição, e passou a afirmar que falar em línguas deveria ser considerado “um dos sinais” que acompanhavam o batismo do Espírito Santo, mas não a “evidência verdadeira” do batismo do Espírito na vida cotidiana de uma pessoa.[16]

Depois, temos também a questão da doutrina da “obra consumada” propagada por William H. Durham (1873-1912), de tradição batista, que criou uma ruptura permanente entre os pentecostais. Após estudos e investigações pessoais sobre o batismo no Espírito Santo com a evidência inicial do falar em outras línguas, Durham, diferente do que naquela época era ensinado pelos pioneiros do Movimento Pentecostal, que entendiam ser o batismo no Espírito Santo a terceira obra da graça, antecedido pela salvação e pela santificação plena (segunda bênção), uma herança doutrinária wesleyana, passou a ensinar que o batismo no Espírito Santo seria na realidade a segunda obra da graça (segunda bênção), e que a santificação acontecia no momento da salvação.[17] Os pentecostais batísticos, assim chamados por seguirem as ideias de Durham, são considerados os principais pentecostais clássicos. A Assembleia de Deus, implantada nos Estados Unidos em 1914, foi a primeira denominação a defender essa ideia.[18]

A terceira grande controvérsia entre os pentecostais envolveu questões em torno da natureza da Divindade. R. E. McAlister (1880-1953), num sermão batismal, observou que os apóstolos batizavam usando o nome de Jesus (At 2.38) ao invés da fórmula trinitariana (Mt 28.19). A “unicidade” passou a ser enfatizada, ou unidade da Divindade, em contraste com o conceito cristão ortodoxo de um só Deus em Três Pessoas.[19] No Concílio Geral das Assembleias de Deus dos Estados Unidos, realizado em 1916, em St. Louis, 156 pastores se desligaram da organização, e foram em busca de outra estrutura, onde pudessem manter-se fiéis às suas crenças unicistas.[20]

Nos estudos de Barrett aparecem também os “pentecostais apostólicos”, se referindo ao avivamento galês de 1904, sob a liderança de Evans Robert, citado por escritores europeus como a origem do movimento pentecostal no mundo. Os apostólicos enfatizam a complexa hierarquia de apóstolos, profetas e outros líderes carismáticos.[21]

Diante das definições de pentecostalismo clássico que se encontram no Dicionário do Movimento Pentecostal e nos dos estudos de David Barrett, pode-se observar que o fator histórico é o que predomina para esta conceituação. Dessa forma, o pentecostalismo clássico é visto com um dos “pentecostalismos” da primeira onda. O fator doutrinário-teológico distintivo do falar em línguas como a evidência física (externa) inicial do batismo no Espírito Santo é citado, mas não como fator determinante da classificação “pentecostais clássicos”, apesar de ser professado e vivenciado pela maioria das igrejas pentecostais clássicas.

O Pentecostalismo Clássico sob outras perspectivas

Quando se investiga outras literaturas produzidas por eruditos pentecostais, logo se percebe que a ideia de “pentecostalismo clássico” é vista por uma outra perspectiva, onde a questão doutrinária ganha ênfase diferenciada.

Donald Johns, escrevendo sobre o batismo no Espírito Santo, diz crer que esta experiência é acompanhada pelo falar em línguas. Ele afirma que essas “línguas” podem ser usadas como evidência de que um crente foi batizado no Espírito. A “separabilidade” (experiência pós-conversão) e o “valor evidencial” do falar em línguas são dois princípios distintivos do pentecostalismo clássico (grifo nosso).[22]  

Stanley Horton, um dos maiores eruditos do Movimento Pentecostal[23], afirma que: “Claramente as Assembleias de Deus - bem como os outros pentecostais clássicos - reconhecem duas verdades importantes sobre o batismo no Espírito: (1) é uma experiência que segue a conversão, e (2) é evidenciado por falar em línguas."[24] Horton não diz “bem como alguns dentre os pentecostais clássicos”, mas “bem como os outros pentecostais clássicos” (grifo nosso).

Os posicionamentos de Stanley Horton e de Donald Johns sobre o pentecostalismo clássico, com ênfase nas questões doutrinárias, é seguido por outros estudiosos na atualidade. Há quem afirme com base na ênfase histórica de Barrett, que a ênfase doutrinária aqui citada seria um posicionamento do pentecostalismo clássico no contexto das Assembleias de Deus[25], não representando todas as demais denominações pentecostais clássicas, e consequentemente, não representando todo o pentecostalismo clássico.

O pentecostalismo clássico, quer com sua ênfase no aspecto histórico, doutrinário e histórico-doutrinário (considerando conjuntamente os dois aspectos e ênfases), segue como objeto de estudo dentro e fora do pentecostalismo no século XXI. 

Com o crescente interesse e avanço das pesquisas em torno do assunto, cremos que não ganharemos somente em conteúdo histórico-doutrinário, mas também na crescente busca e vivência de um pentecostalismo que concilie poder e saber, experiência e teologia.

Altair Germano. Pastor, escritor, teólogo e pedagogo.



[1] ARAUJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. CPAD: Rio de Janeiro, 2007, p. 567.
[2] BARRETT, David B. O avivamento mundial do Espírito. In: SYNAN, Vinson. O século do Espírito Santo: 100 anos do avivamento pentecostal e carismático. Tradução de Judson Canto. São Paulo: Editora Vida, 2009, p. 520.
[3] RAILEY Jr. James H; AKER, Benny C. Fundamentos teológicos. In: HORTON, Stanley (Ed.). Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. 11. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 55. 
[4] BARRETT, ibid., p. 501.
[5]ARAUJO, ibid., p. 568.
[6] Ibid.
[7] Paul Freston, por exemplo, afirma que o pentecostalismo brasileiro pode ser compreendido em três ondas de implantação de igrejas. A primeira onda é a década de 1910, com a chegada quase simultânea da Congregação Cristã e da Assembleia de Deus. FRESTON, Paul. Breve histórico do pentecostalismo brasileiro. In: Alberto Antoniazzi (et al.). Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis, RJ: 1996, p. 70.
[8] ARAUJO, ibid.
[9] Ibid.
[10] Ibid., p. 567.
[11] CARVALHO, César Moisés. Pentecostalismo e pós-modernidade: quando a experiência sobrepõe-se à teologia. CPAD: Rio de Janeiro, 2017, p. 303, 308.
[12] BARRETT, ibid., p. 523-524.
[13] Ibid.
[14] HORTON, Stanley M. O avivamento pentecostal: as origens e o futuro do maior movimento espiritual dos tempos modernos. Tradução de Judson Canto. Rio de Janeiro: CPAD, 1997, p. 75.
[15] Ibid.
[16] SYNAN, Vinson; FOX JR. Charles. William Seymour: a biografia. Tradução de João Costa. Natal, RN: Carisma, 2017, p. 123-124.
[17] Ibid., p. 105-106.
[18] BARRET, ibid., p. 525.
[19] McGEE, Gary B. Panorama histórico. In: HORTON, Stanley (Ed.). Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. Tradução de Gordon Chown. 11. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 20-22.
[20] SYNAN, ibid. p. 198.
[21] BARRETT, ibid., p. 525-526.
[22] JOHNS, Donald. Novas diretrizes hermenêuticas na doutrina da evidência inicial do pentecostalismo clássico. In: McGEE, Gary (Ed.). Evidência inicial: perspectivas históricas e bíblicas sobre a doutrina pentecostal do batismo no Espírito. Tradução de Ícaro Alencar. Natal, RN: Carisma, 2017, p. 191-192.
[23] Stanley Horton se formou em línguas bíblicas e Antigo Testamento, no Seminário Teológico Gordon-Conwell, na Faculdade de Divindade de Harvard, e no Seminário Batista Central. No decorrer dos anos, Horton começou a demonstrar notável influência nas Assembleias de Deus mediante os seus ensinos, livros, artigos em revistas e jornais, e contribuições ao currículo da Escola Dominical para Adultos. (McGEE, ibid., p. 28).
[24] HORTON, Stanley. Batismo no Espírito: uma perspectiva pentecostal. In: BRAND, Chad Owen (Org.). Batismo no Espírito Santo: um debate entre as tradições. Tradução de Valeska Schultz Craus. Natal-RN: Carisma, 2019, p. 94-95.
[25] Na Declaração de Fé das Assembleias de Deus aprovada na 43ª Assembleia Geral Ordinária da CGADB em 26 de abril de 2017, e publicada pela CPAD – Casa Publicadora das Assembleias de Deus, lemos sobre o batismo no Espírito Santo: “Trata-se de uma experiência espiritual que ocorre após ou junto à regeneração, sendo acompanhada da evidência física inicial do falar em outras línguas” (p. 165).

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Desejo a Morte dos Pregadores

Desejo a Morte dos Pregadores
Sim, desejo a morte dos pregadores e a minha também.
Desejo a morte dos pregadores para a autoconfiança.
Desejo a morte dos pregadores para o orgulho.
Desejo a morte dos pregadores para a vaidade.
Desejo a morte dos pregadores para a autopromoção.
Desejo a morte dos pregadores para o louvor de seus próprios nomes.
Desejo a morte dos pregadores para o exibicionismo.
Desejo a morte dos pregadores para o mercantilismo ministerial.
Desejo a morte dos pregadores para os sermões convenientes.
Desejo a morte dos pregadores para os sermões encomendados.
Desejo a morte dos pregadores para os sermões sem mensagens.
Desejo a morte dos pregadores para os sermões sem poder do Espírito.
Desejo a morte dos pregadores para a comparação, competição e inveja no ministério.
Desejo a morte dos pregadores por meio da crucificação do "eu" com Cristo (Gl 2.20), que implica na crucificação da carne com as suas paixões e concupiscências (Gl 5.24-26), pois o que estão na carne não podem agradar a Deus (Rm 8.8).
A morte dos pregadores (re)coloca Jesus Cristo no centro das mensagens e das atenções (1Co 2.1-2).
A morte dos pregadores resulta em um senso de fraqueza, em temor e grande tremor na exposição da Palavra (1 Co 2.3).
A morte dos pregadores resulta em pregações que não consistem em mera oratória persuassiva de sabedoria humana, dando assim lugar a uma verdadeira demonstração de dependência, direção e poder do Espírito (1 Co 2.4-5).
A morte dos pregadores resulta e promove a glória de Deus.
Sim, desejo a morte dos pregadores e a minha também.

Ele não, Ele Sim

Em alguns momentos da nossas vida e ministério, alguém vai dizer sobre nós "ele não". Os motivos e as circunstâncias serão as mais diversas possíveis. Quando isto acontecer, reflita sobre as possíveis causas. 

Ore por isso. Se entender que algumas posturas e atitudes precisam ser mudadas, se perceber assim à luz das Escrituras e da direção do Espírito, então mude. Você experimentará crescimento e amadurecimento. 

Do contrário, se o "ele não" for resultado de sua fidelidade a Deus, de sua firme postura em não negociar princípios e valores cristãos, e de seu compromisso com a pregação bíblica, então não mude, pois neste caso, enquanto alguém do alto do seu poder institucional e temporal diz "ele não", aquele que te amou e te separou para a obra do ministério, do alto do trono eterno de sua glória diz "ele sim". É este que diz "ele sim", o Senhor Jesus, quem abre e fecha portas segundo a sua soberana vontade, e quem sustém e honra o nosso ministério para o louvor de sua glória. Amém!

20º Congresso de Jovens da IEADALPE - Pr. Altair Germano

sexta-feira, 29 de março de 2019

A Evidência Física Inicial do Batismo no Espírito Santo

 Os dois nomes mais influentes do início do pentecostalismo, Charles F. Parham e William Seymour, não se mantiveram unidos em torno do falar em outras línguas como a evidência bíblica e inicial do batismo no Espírito Santo.
Seymour, a partir dos meados de 1907, passou a ensinar que o falar em línguas era um dos sinais do batismo no Espírito Santo, mas não era "o" sinal ou "a única" evidência". Para ele, o amor divino seria a verdadeira evidência desse batismo. (William Seymour: uma biografia. Vinson Synan e Chales Fox Jr. Carisma, 2017, p. 123 e 124)
Outros líderes também se uniram ao pensamento de Seymour, dentre os quais William Hammer Piper, pastor da Storn Church em Chicago, e Fred F. Bosworth, um antigo líder da Assembleia de Deus norte-america, que se desligou-se no Concílio Geral de 1918. (Dicionário do Movimento Pentecostal. Isael de Araujo. CPAD, 2015, p. 297)
Nos dias atuais estas perspectivas divergentes se encontram presentes no pentecostalismo mundial.
A Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, através de sua Declaração de Fé, manteve o falar em outras línguas como "a evidência física inicial" do batismo no Espírito Santo. (Declaração de Fé das Assembleias de Deus. CPAD, 2017, p. 165)

quinta-feira, 28 de março de 2019

A Relevância do Método Histórico-Gramatical para uma Hermenêutica Pentecostal


Rompendo com o abuso das interpretações bíblicas alegóricas, o método histórico-gramatical foi desenvolvido pelos Reformadores, que estavam interessados em chegar ao sentido óbvio, claro e simples das Escrituras. A observação das questões gramaticais e do contexto histórico do autor e de seus leitores originais deveriam ser consideradas. A necessidade da iluminação do Espírito não foi descartada, visto que as Escrituras eram inspiradas por Deus. Ninguém poderia interpretar a mensagem da Bíblia sem o auxílio e a ação iluminadora do Espírito. Os Reformadores se preocuparam em determinar a intenção do autor, que seria o sentido pretendido por Deus. As interpretações do passado que concordavam com as Escrituras não foram desprezadas. O método histórico-gramatical prevaleceu na igreja após a Reforma, e foi adotado pelo protestantismo ortodoxo.[1] Os métodos de análise textual desenvolvidos pelos Reformadores são usados ainda hoje, e protestantes conservadores continuam prestando atenção neles como fonte de inspiração.[2] Para Paulo Angrada:

Trata-se de um método extremamente frutífero, consistente com as pressuposições bíblicas quanto à própria natureza das Escrituras, que emprega princípios gerais e métodos linguísticos e históricos coerentes com o caráter divino-humano da Bíblia.[3]

Em seus estágios de desenvolvimento, o pentecostalismo também adotou o método histórico-gramatical.

Não tenho dúvidas que a experiência tem um papel fundamental na interpretação bíblica pentecostal. Autores como Craig S. Keener afirmam isso, mas de forma bastante equilibrada:

A espiritualidade pentecostal sempre leu as Escrituras experiencialmente [...]. Ninguém se aproxima de um texto sem pressuposições, geralmente moldadas por instrução ou experiências passadas [...]. Experiências contemporâneas, no entanto, podem nos ajudar a ouvir o texto bíblico de maneiras que ressoam seus valores [...]. Experiências semelhantes às das Escrituras muitas vezes tornam as Escrituras mais críveis ou próximas a nós do que elas parecem para aqueles que não têm essas experiências [...]. A experiência a muito tempo tem moldado a interpretação.[4]

Keener não propõe com isso uma interpretação bíblica meramente experiencial ou subjetiva. Ele não descarta a importância da análise histórico-gramatical na busca pelo sentido do texto e intenção autoral:

Ávidos por enfatizar a experiência dos leitores, alguns críticos hoje negligenciam a importância fundacional do significado antigo [...]. O significado antigo, canônico, precisa ser a âncora e o árbitro das alegações para interpretar o texto hoje [...].[5]

Uma postura pentecostal extremada é relatada por Keener:

Um estudioso pentecostal, aparentemente usando de forma prescritiva uma descrição da prática pentecostal popular, sugere que um entendimento mais pleno da Bíblia não é especialmente desejável, que o “encontro” é preferível à “exegese”, que os “leitores espiritualizantes” só precisam de “pouco interesse [...] pelo significado superficial do texto” ou atenção “à intenção original do autor”. Segundo essa perspectiva, a hermenêutica pentecostal se opõe, de modo antagonístico, à apreciação do texto por seus próprios méritos e sugere que os “pentecostais estão infinitamente menos interessados naquilo que” os textos significam para seus leitores originais do que em como os textos nos desafiam hoje. O autor vai tão longe a ponto de sugerir, embora não de modo completamente exagerado, que, “agora que os estudiosos progressistas” acertaram o Golias da “crítica gramático-histórica” os Davis pentecostais devem terminar o trabalho cortando a cabeça de Golias.[6]

Pode se observar na presente citação, uma sugestão implícita de ruptura com o método histórico-gramatical por parte de alguns “pentecostais progressistas”. A discussão sobre o que o texto significou no passado, em seu contexto de origem é inevitável. Os aspectos linguísticos e históricos não devem ser descartados:

Sem um fundamento comum – não somente nas palavras do texto, mas no que essas palavras significavam em seus contextos cultural, situacional e autoralmente moldados – pode-se fazer com que qualquer texto diga praticamente qualquer coisa [...]. Descobrir “o significado e a intenção originais” de um texto é o objetivo do método histórico-gramatical [...]. Alguns associam a intenção autoral com “uma hermenêutica racionalista iluminista” ou com “o método histórico-crítico”. No entanto, os intérpretes claramente já usavam “exegese histórico-gramatical” antes do domínio da crítica histórica moderna.[7]

Diversos autores e eruditos pentecostais, entre eles Robert P. Menzies, também estão a favor de uma hermenêutica pentecostal que considere o método histórico-gramatical:

Os pentecostais e os evangélicos (não pentecostais) ressaltam a importância da intenção do autor bíblico e procuram entender a passagem à luz de seu contexto histórico e literário. O significado histórico é importante para ambos os grupos. A despeito dessas importantes áreas de congruência, há dois pressupostos (muitas vezes inconscientes) que moldam as abordagens evangélicas (não pentecostais) a Lucas-Atos que os pentecostais rejeitam. O primeiro pressuposto está associado com a tendência evangélica de rejeitar a narrativa de Atos e a igreja apostólica que o Livro descreve como modelo para a igreja hoje. [...] O segundo pressuposto é consequência da tendência evangélica de reduzir a teologia do Novo Testamento à teologia paulina.[8]

Roger Stronstad, nos fala de princípios hermenêuticos comuns à interpretação protestante evangélica de toda a literatura bíblica, independente do gênero, onde inserir o livro em seu contexto histórico original faz parte. Nesse sentido, Lucas-Atos devem ser inseridos nos contextos histórico, político, religioso e social do mundo greco-romano.[9]

Para Gordon Fee, a exegese significa que se está buscando a própria intenção de um autor naquilo que foi escrito:

A exegese é o estudo cuidadoso e sistemático da Escritura para descobrir o significado original, o significado pretendido. A exegese é basicamente uma tarefa histórica. É a tentativa de escutar a Palavra do mesmo modo que os destinatários originais devem tê-la ouvido; descobrir qual era a intenção original das palavras da Bíblia. Essa tarefa que com frequência exige ajuda do “especialista”, aquela pessoa cujo treinamento a ajudou a conhecer bem o idioma e as circunstâncias dos textos no seu âmbito original.

Segundo Gordon L. Anderson, seis questões chaves devem ser consideradas no processo interpretativo das Escrituras. São elas: o método exegético, o papel do Espírito Santo, gênero, experiência pessoal, experiência histórica e pressupostos teológicos.[10]

Para Anderson, os Pentecostais, e outros que interpretam a Bíblia de modo semelhante a eles, estruturam os seis elementos básicos de uma hermenêutica padrão de forma bem diferente de outros evangélicos. Tal hermenêutica pentecostal seria a combinação entre uma hermenêutica centrada no leitor (experiência), sem abrir mão do alto compromisso com a verdade e autoridade da Bíblia (investigação).

Mesmo assim, o significado pretendido pelo autor original ainda é considerado primário, e os significados obtidos através do estudo histórico-gramatical são vistos como objetivos a serem alcançados. No entanto, uma compreensão adequada desses significados não pode ser obtida sem lidar apropriadamente com as outras cinco partes da estrutura hermenêutica. Uma hermenêutica pentecostal ajuda substancialmente nesse processo.

Apesar da impossibilidade de reconstruir perfeitamente o significado original (objeção de que a intenção do autor é irrecuperável):

[...] o texto significa no mínimo o que significava para o autor inspirado, que entendia a sua própria língua, as expressões idiomáticas e alusões culturais melhor do que nós. Oferecer reconstruções históricas da forma mais responsável possível (dados os limites das evidências e dos nossos próprios horizontes) é um objetivo racional que não precisa ser descartado simplesmente porque não pode ser alcançado perfeitamente.[11]

Apesar de algumas divergências entre os eruditos pentecostais na aplicação do método histórico-gramatical, o método em si continua sendo relevante para muitos destes, onde a possibilidade de descartá-lo está descartada, pelo menos enquanto escrevo estas linhas.

Ênfase no autor, texto ou leitor? Horizonte bíblico ou contemporâneo? Razão humana ou iluminação do Espírito? Cognição ou experiência? Teorização acadêmica ou aplicação piedosa? Todas as vezes que um destes aspectos hermenêuticos é demasiadamente enfatizado em detrimento dos demais, um novo problema tende a surgir.

Não seriam cada um destes aspectos hermenêuticos (ou ênfases hermenêuticas) convergentes, em vez de divergentes? Não seriam complementares em vez de excludentes? Na hermenêutica o equilíbrio é também necessário e desejável.

Não há nada de errado em se buscar novos métodos que atendam os leitores e exegetas pentecostais. Contudo, os tais métodos precisam ser expostos, aplicados e testados por seus proponentes, para somente após a sua comprovada eficácia, serem aprovados, aceitos e difundidos na comunidade pentecostal.

No momento, continuo utilizando o método histórico-gramatical (sem abrir mão da cooperação do Espírito e do valor da experiência), que muito me tem servido (e a tantos outros), na desafiadora e maravilhosa tarefa de interpretar as Escrituras, ao mesmo tempo em que me mantenho aberto para outras possibilidades metodológicas, que sejam comprovadamente fiéis na busca pelo sentido original do texto e pela intenção autoral, e que considerem a Bíblia com todas as suas singularidades na condição de Palavra de Deus. 


[1] LOPES, Augustus Nicodemus Lopes. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004., p. 159-167.
[2] BRAY, Gerald. História da Interpretação Bíblica. Tradução de Daniel Hubert Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 191.
[3] ANGLADA, Paulo. Introdução à Hermenêutica Reformada: correntes históricas, pressuposições, princípios e métodos linguísticos. Ananindeua, PA: Knox Publicações, 2016, p. 101.
[4] KEENER, Craig S. A hermenêutica do Espírito: lendo as Escrituras à luz do Pentecostes. Tradução de Daniel Hubert Kroker. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 68-70.
[5] Ibid., p. 211.
[6] Ibid., p. 221.
[7] Ibid., p. 223, 226.
[8] MENZIES, Robert P. Pentecostes: essa é a nossa história. Tradução de Luís Aron de Macedo. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, p. 23-24.
[9] STRONSTAD, Roger. Teologia lucana sob exame: experiência e modelos paradigmáticos em Lucas-Atos. Tradução de Celso Roberto. Natal, RN: Carisma, 2018, p. 29, 31.
[10] ANDERSON, Gordon L. Hermenêutica Pentecostal, disponível em enrichentjournal.ag.org, acessado em 28/03/2019.
[11] KEENER, ibid., p. 245.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Pregações e Decisões

Não se mede a biblicidade de uma mensagem pelo número de "decisões" que a mesma pode ou não provocar.
Há muitas "decisões" manipuladas, resultantes de técnicas e absurdos falados no púlpito, que são meramente emotivas, e que só duram uma noite.
E se alguém se converte de fato diante de uma pregação cuja interpretação e exposição possui equívocos hermenêuticos? Isso é resultado da graça e da misericórdia de Deus pelo perdido pecador, mas não é sinal da aprovação de Deus ao erro interpretativo e expositivo.
É possível inclusive, e muito provável, que em meio ao erro do pregador alguma verdade tenha sido exposta, e aquela verdade ter sido o fundamento para a fé e decisão dos ouvintes.
Oremos a Deus por muitas decisões para Cristo, e pela fidelidade dos pregadores à interpretação e exposição das Escrituras Sagradas.

A Hermenêutica Convergente

Autor, texto ou leitor?
Horizonte bíblico ou contemporâneo?
Razão humana ou iluminação do Espírito?
Cognição ou experiência?
Teorização acadêmica ou aplicação piedosa?
Todas as vezes que um destes aspectos hermenêuticos é demasiadamente enfatizado em detrimento dos demais, um novo problema surge.
Não seriam cada um destes aspectos hermenêuticos (ou ênfases hermenêuticas) convergentes, em vez de divergentes? Não seriam complementares em vez de excludentes?
Até na hermenêutica o equilíbrio é necessário e desejável.