domingo, 20 de abril de 2014

OS DONS ESPIRITUAIS PODEM SER PERDIDOS?




No contexto pentecostal, no que diz respeito aos dons espirituais, sempre houve a discussão sobre a possibilidade ou não, de se perder os dons concedidos pelo Espírito. Para cooperar com essa discussão, resolvemos escrever este artigo, onde a ideia é esclarecer alguns fatos sobre a questão.

Em primeiro lugar, entendo ser importante relembrarmos o conceito de “dom de Deus”. O termo grego para “dom” no sentido em que estamos tratando é charisma. Barclay afirma que no Novo Testamento a palavra ocorre dezessete vezes, catorze nas epístolas paulinas gerais, duas nas pastorais e uma vez em 1 Pedro. O termo, segundo Barclay[1];

(1)  É usado para aquilo que podemos chamar de “dádivas da graça”, e envolve também os charismata (dons espirituais), conforme 1 Co 12.31.
(2)  É usado para “graça e perdão” de Deus na situação em que o julgamento e a condenação teriam sido a perfeita justiça (Rm 5.15-16; Rm 6.23).
(3)  É usado em relação aos “dotes naturais” que o homem possui (1 Co 7.7; 1 Pe 4.10).
(4)  É usado como “dom que é implantado no homem quando é ordenado ao ministério” (1 Tm 4.14; 2 Tm 1.6).
(5)  É especialmente utilizado para todos “os dons especiais que podem ser exercidos no serviço da Igreja” (Rm 12.6-8; 1 Co 12.8-10, 28-30).

A ideia básica da palavra é a de um dom gratuito e imerecido, alguma coisa dada ao homem sem trabalho nem merecimento, algo que vem da graça de Deus e que nunca poderia ter sido realizado, galgado ou possuído pelo esforço do próprio homem.

Não apenas a graça, mas também a soberania de Deus se relaciona com a concessão dos dons (1 Co 12.11; Ef 4.11; Atos 13.1-4; 20.24, 28; 2 Tm 1.8-11)

Para efeito de estudo (didática), algumas terminologias e classificações são utilizadas para descrever os dons do Espírito Santo, tais como “dons espirituais”, “dons sobrenaturais”, “dons ministeriais”, “dons de liderança”, “dons de serviço”, etc. Entendo ser importante afirmar que em última instância todos os dons do Espírito são “ESPIRITUAIS” (pneumatikôn)e “MINISTERIAIS” (diakonían), pelo simples fato de que todos são concedidos pelo Espírito  e para o serviço  ao próximo em todas as suas variadas formas ou manifestações.

Existe ainda o equívoco de reduzir os dons do Espírito a apenas nove, com base somente no texto de 1 Coríntios 12.8-10. É preciso considerar outras listas, tais como a de Romanos 12.6-8, Efésios 4.11, e ainda 1 Co 12.28-30.

A própria salvação é um dom espiritual de Deus, pois implica na ação graciosa e regeneradora operada pelo Espírito, mediante a sua Palavra (Jo 1.13; 3.1-8; Rm 8.3; 2 Co 5.17; Ef 4.23-24; Tg 1.18; 1 Pe 1.23):

Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom (charisma) gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor. (Rm 6.23).

Se a salvação, condição essencial para o recebimento em forma de concessão dos demais dons operados pelo Espírito, que conforme a teologia pentecostal pode ser perdida, o que não dizer dos dons que dela dependem? Como não podemos perder um dom do Espírito, se afirmamos ser a própria salvação condicional (influência da teologia arminiana), com base em textos como Mateus 24.13; 25.1-13; 14-30; Hebreus 3.12-19; 12.14; Apocalipse 3.11? Caso mudemos de posicionamento, resta-nos adotarmos a teologia reformada calvinista com a sua doutrina da predestinação e seus desdobramentos. Afirmar que recebendo os dons os teremos para sempre, não seria o mesmo que afirmar que uma vez salvos, somos salvos para sempre?

Se a Bíblia alerta quanto ao não “apagar” ou “extinguir” (gr. sbénnyte) o Espírito (1 Ts 5.19), que significa literalmente “apagar o fogo ou a chama”, “oprimir a ação ou deter a ação”[2], não podemos, junto com o “apagar” ou “extinguir” o Espírito fazermos o mesmo com os dons que dele procede? Minha resposta é sim. Na realidade, a Bíblia nos adverte claramente sobre a possibilidade de perdermos coisas (dons, dádivas, bens, responsabilidades, etc.) que procedem de Deus (Jz 16.15-20; 1 Sm 15.27-28; 16.1; Jó 1.21; Sl 51.11; Hb 6.4-8; Ap 2.5).

Em segundo lugar, o que dizer sobre o significado do texto abaixo, utilizado por muitos para defender a ideia de que os dons espirituais não podem ser perdidos?

Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento. (Rm 11.29, ARC)

[...] porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis. (Rm 11.29, ARA)

Os comentaristas bíblicos são praticamente unânimes em afirmar que o referido versículo está num contexto, onde a eleição de Israel como povo de Deus está sendo tratada por Paulo. Não há referência alguma aos dons espirituais. Além disso, a ênfase do texto está na imutável fidelidade de Deus, no fato de que Deus não muda de opinião a respeito dos seus dons, apesar do homem poder negligenciá-los e perdê-los. Stanley Horton, teólogo pentecostal, considera que os dons:

Nunca são nossos no sentido de não precisarmos do Espírito Santo, pela fé, para cada expressão desses dons. Nunca se tornam parte da nossa própria natureza, ao ponto de não perdê-los, de serem tirados de nós.[3]

A Bíblia de Estudo Pentecostal, publicada pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus, editora oficial da denominação, em sua nota de rodapé sobre Romanos 11.29 é enfática:

Estas palavras se referem aos privilégios de Israel mencionados em 9.4, 5 e 11.26. O contexto desta passagem tem a ver com Israel e os propósitos de Deus para aquela nação e não aos dons espirituais à vocação ministerial relacionados com a obra do Espírito Santo na igreja (cf. 12.6-8; 1 Co 12).[4]

Diante desta breve exposição, que não trata o tema de forma exaustiva, mas que busca apresentar fundamentos razoáveis para o entendimento de que os dons do Espírito (qualquer um deles) podem ser perdidos, esperamos contribuir de alguma forma para a discussão sobre o assunto.


[1] BARCKAY, William. Palavras Chaves do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000, p 40.
[2] HAUBECK, Wilfrid; SIEBENTHAL, Heinrich Von. Nova chave lingüística do Novo Testamento grego. São Paulo: Hagnos/Targumim, 2009, p. 1152.
[3] HORTON, Stanley M. A doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento. 12 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 230.
[4] Bíblia de Estudo Pentecostal. Flórida, EUA: CPAD, 1995, p. 1721.

terça-feira, 15 de abril de 2014

AD ABREU E LIMA SEDIARÁ ESCOLA BÍBLICA NACIONAL E FORTALEZA A 42ª AGO DA CGADB EM 2015



A Mesa Diretora da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) esteve reunida nos dias 9 e 10 de abril de 2014, na cidade de Guarulhos (SP), para tratar de assuntos diversos de competência da Diretoria, dentre os quais a escolha da bela cidade de Fortaleza, capital do Estado do Ceará, para a realização da 42ª Assembleia Geral Ordinária (AGO) da CGADB, que acontecerá nos dias 21 a 24 de abril de 2015. Tal decisão levou em conta a manifestação escrita recebida das quatro convenções cearenses (CONADEC, COMADECE, CONFRADECE e CIMADEC), que se disponibilizaram como anfitriãs para este tão grande evento, ficando ainda decidido:
1) O tema central da 42ª AGO: “Unidos em Cristo edificamos uma família melhor”, com base em Salmos 128. Os sub-temas e seus respectivos preletores são: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24.15), preletor Pr. Álvaro Álen Sanches (MG); “Uma família fiel em meio a uma geração corrompida” (Gênesis 6.18), preletor Pr. Perci Fontoura (PR); “A influência da mídia sobre a família” (Sl 101.3), preletor Pr. Elienai Cabral (DF); “O obreiro e sua família” (1Tm 5.8), preletor Pr. Roberto José dos Santos (PE); e “O obreiro honrando o seu casamento” (1Pd 3.7), preletor Pr. José Antonio dos Santos (AL).
2) Período de inscrições: O período de inscrições para a 42ª AGO será de 3 de novembro a 23 de dezembro de 2014, conforme constará do Edital de Convocação, as quais serão realizadas através de pagamento de boleto bancário a ser disponibilizado no site da CGADB.

3) Prazo para registro de novos ministros na CGADB: Ficou ainda estabelecida a data limite de 28 de novembro de 2014 para protocolo das Convenções Estaduais, junto à Secretaria Geral da CGADB, de solicitação de registros de novos ministros que poderão se inscrever e participar da 42ª AGO, conforme constará do Edital de Convocação.

4) Houve ainda a definição do calendário das Escolas Bíblicas de Obreiros a serem realizadas em 2014 e 2015 pela CGADB:

Região Sudeste: Uberlândia (MG) – 3 e 4 de setembro de 2014, na AD em Uberlândia (MG).
Região Norte: Belém (PA) – 3 e 4 de dezembro de 2014, na COMIEADEPA.
Região Nordeste: Abreu e Lima (PE) – 21 e 22 de maio de 2015, na AD em Abreu e Lima (PE).
Região Centro-Oeste: Campo Grande (MS) – 19 e 20 de agosto de 2015, na AD em Campo Grande (MS).
Região Sul: Foz do Iguaçu (PR) – 11 e 12 de novembro de 2015, na AD em Foz do Iguaçu (PR).

Houve ainda, após o cumprimento de todas as formalidades estatutárias e regimentais, a aprovação do registro e reconhecimento na CGADB da COMADELESTE (Convenção dos Ministros das Assembleias de Deus no Leste do Estado de Minas Gerais), com sede na cidade de João Monlevade – MG, presidida pelo ilustre pastor Sérgio Eleotério Coelho.

Houve também a aprovação da RMD Nº 002/2014 (Resolução da Mesa Diretora), que será publicada no Mensageiro da Paz de maio (edição 1.548).

Fonte: CPAD News

PASTOR CARLOS PADILHA PARTE PARA ESTAR COM O SENHOR


Nossas condolências à família enlutada e igreja em Presidente Prudente pela partida do amado pastor e amigo Carlos Padilha de Siqueira.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

DONS DE REVELAÇÃO - SUBSÍDIO PARA LIÇÃO BÍBLICA

"Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las." (1 Co 12.8-10, ARA)

Os dons espirituais listados em 1 Co 12.8-10 são geralmente classificados na literatura pentecostal da seguinte forma:

- Dons de revelação ou saber - a palavra de sabedoria (gr. logos sophias), a palavra do conhecimento ou ciência (gr. logos gnoseos), discernimento de espíritos (gr. diakriseis pneumaton);

- Dons de poder - fé, (gr. pistis), dons de curar (gr. charismata iamaton), operações de milagres ou maravilhas (gr. evergemata dunameon);

- Dons de inspiração, mensagem, expressão ou elocução - profecia (gr. propheteia), variedade de línguas (gr. gene glosson), interpretação das línguas (gr. hermeneia glosson).

A presente lição trata do primeiro grupo de dons (Dons de revelação ou saber).

A palavra da sabedoria

A Bíblia de Estudo Pentecostal (1999, p. 1756) define este dom como uma mensagem vocal sábia, enunciada mediante a operação sobrenatural do Espírito Santo. A revelação da Palavra de Deus ou a sabedoria do Espírito Santo é aplicada a uma situação ou problema específico (At 6.10; 15.13-22). 

Conde (1985, p. 101) diz que certamente não se refere à sabedoria humana, natural, ao conhecimento adquirido nas escolas, seminários ou por outros meios, mas à sabedoria do Céu, revelada pelo Espírito Santo.

Gee (1985, p. 32-36), entendendo que esse dom se encontra registrado na lista de manifestações do Espírito Santo, é parte peculiar do revestimento de poder do Alto, que desce sobre os crentes somente ao receberem o Espírito Santo. A palavra da sabedoria atua na pregação, no governo da igreja e em casos emergenciais.

Souza (1998, p. 143) e (Gilberto (2006, p.70) afirmam que é um dom extremamente necessário "no governo da igreja, pastoreio, administração, liderança, direção de qualquer encargo na igreja e nas suas instituições".

Segundo Horton (1999, 294), a capacidade humana e a sabedoria natural não estão aqui envolvidas. É uma manifestação do Espírito concedida para "aquela" necessidade (Lc 21.13-15; At 4.8-14, 19-21).
Souza (Ibid., p. 139), considera este dom como "a sabedoria de Deus, ou, mais especificamente, um fragmento da sabedoria de Deus, que é dada por meios sobrenaturais". Para Souza, há semelhanças deste dom com o de profecia.
Na abordagem de Silva (1996. p. 82) "por meio da palavra da sabedoria, Deus capacita a mente humana para entender todos os fatos e circunstâncias, leis e princípios, tendências, influências e possibilidades [...]. É, portanto uma operação desvinculada de qualquer técnica ou método humano, que se manifesta conforme a circunstância ou para atender uma necessidade premente (Lc 12.11, 12; 21.15; Tg 1.5)". Silva compreende ainda, e concordo com ele, que este dom opera desde o Antigo Testamento (desta forma, não precisar ser batizado com o Espírito Santo para recebê-lo), conforme segue:
- José. "Disse Faraó aos seus oficiais: Acharíamos, porventura, homem como este, em quem há o Espírito de Deus? Depois, disse Faraó a José: Visto que Deus te fez saber tudo isto, ninguém há tão ajuizado e sábio como tu." (Gn 41.38,39, ARA). Chown (2002, p. 41), inclui também José entre os portadores deste dom: "De fato, o Espírito Santo pusera na mente de José uma poderosa palavra de sabedoria [...].

- Moisés e Arão. "Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar. [...] Tu, pois, lhe falarás e lhe porás na boca as palavras; eu serei com a tua boca e com a dele e vos ensinarei o que deveis fazer." (Êx 4.12, 15, ARA)

- Bezalel e Aoliabe. "Eis que chamei pelo nome a Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá, e o enchi do Espírito de Deus, de habilidade (sabedoria), de inteligência e de conhecimento, em todo artifício, Eis que lhe dei por companheiro Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã; e dei habilidade (sabedoria) a todos os homens hábeis, para que me façam tudo o que tenho ordenado:" (Êx 31.2, 3, 6 ARA, grifo nosso)

- Josué. "Josué, filho de Num, estava cheio do espírito de sabedoria, porquanto Moisés impôs sobre ele as mãos; assim, os filhos de Israel lhe deram ouvidos e fizeram como o SENHOR ordenara a Moisés." (Dt 34.9, ARA)

- Salomão. "Todo o Israel ouviu a sentença que o rei havia proferido; e todos tiveram profundo respeito ao rei, porque viram que havia nele a sabedoria de Deus, para fazer justiça." (1 Rs 3.28, ARA). Chown (Ibid., p. 38-39), discorda aqui de Silva, entendendo que a sabedoria que Deus concedeu a Salomão foi "natural", e a relaciona com a que Tiago menciona (Tg 1.5). Neste particular concordo com Chown e discordo de Silva.

- Daniel e seus companheiros. "Ora, a estes quatro jovens Deus deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria; mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos." (Dn 1.17)

Chown (Ibid., p. 39-40), cita ainda Noé como receptor deste dom (Gn 6.13) e afirma: "Esta mensagem, acompanhada das instruções para construir a arca, forneceu à raça humana, na pessoa de Noé, a última esperança de sobreviver e de, um dia, tornar-se herdeira das promessas de Deus em toda a sua plenitude".

Para Bergstén (1999, p. 131), esse dom proporciona uma compreensão (Ef 3.4) da profundidade da sabedoria de Deus, que orienta a sua aplicação no trabalho e em decisões no serviço do Senhor. O dom da palavra de sabedoria é uma força na evangelização, visto que transmite conhecimento da salvação (Lc 1.77) com palavras ensinadas pelo Espírito Santo (1 Co 2.13). É uma força na defesa do Evangelho (Fp 1.16). Esse dom esteve presente em Jesus (Mt 22.21,22), Estevão (At 6.10) e em vários outros servos de Deus. Bergstén está entre aqueles que defendem a operação deste dom no Antigo Testamento, quando cita 1 Reis 3.16-28; Gn 41.26-37, 38, 39; Dn 2.27-30, 46, 49).

A palavra do conhecimento ou ciência

A Bíblia de Estudo Pentecostal (Ibid.), afirma que "trata-se de uma mensagem vocal, inspirada pelo Espírito Santo, revelando conhecimento a respeito de pessoas, de circunstâncias, ou de verdades bíblicas. Frequentemente, este dom tem estreito relacionamento com o de profecia ( At 5.1-10; 1 Co 14.24, 25)". Gilberto (Ibid.) reafirma esta definição: "Ciência equivale, aqui, a conhecimento. É um dom de manifestação de conhecimento sobrenatual pelo Espírito Santo; de fatos, de causas, de ensinamentos, de ensinadores, etc."

Gee (Ibid. p. 39), adverte que não se deve ser dogmático ao abordar este dom, e justifica tal procedimento em razão da insuficiência de dados sobre o assunto nas Escrituras. Afirma que é provável que as ideias divergentes acerca dess dom contenham partes de todoa a verdade acerca do mesmo.

Horton (Ibid. p. 295), afirma que este dom relaciona-se estreitamente com o dom da palavra da sabedoria (2 Co 2.14; 4.6; Ef 1.17-23). Gee (Ibid. p. 41), concorda afirmando: "A relação entre a sabedoria e a ciência é tão íntima que muitos crentes acham difícil fazer uma distinção clara entre os dons espirituais da palavra da sabedoria e a palavra da ciência". A palavra do conhecimento, segundo Horton, tem a ver com o conhecimento de Deus, Cristo, do Evangelho e da aplicação do Evangelho ao viver cristão (1 Co 2.12, 13). É um dom que promove a iluminação sobrenatural do Evangelho, especialmente no ministério do ensino e da pregação. Se relaciona com o profundo conhecimento das Escrituras.

Souza (Ibid. p. 145), entende que a palavra do conhecimento "envolve uma implicaçaõ sobrenatural de fatos que, no momento, nenhum indivíduo, por outro modo, poderia aprender por meios naturais. [...] é a revelação de uma série de ações e se baseia no perfeito conhecimento de Deus e tem o sentido de fragmento do conhecimento divino." Assim como a palavra da sabedoria, este dom tem fundamento na onisciência de Deus. Souza admite também a relação deste dom com o ministério do ensino (Ibid., p. 146).

Silva (Ibid. p. 86), define este dom como "a revelação sobrenatural de algum fato que existe na mente de Deus, mas que o homem, devido às suas limitações, não pode conhecer, a não ser pela poderosa intervenção do Espírito Santo." Ele também associa a palavra do conhecimento com a palavra da sabedoria (Êx 31.3; 1 Rs 7.14; Pv 1.7; 9.10; Dn 1.4; 1 Co 12.8, etc.), mas especifica a distinção entre os dois dons (Ibid.), ao afirmar que a sabedoria é a ciência sabiamente aplicada, e que a ciência (ou conhecimento) é um requisito para a sabedoria e para o ensino. Não se trata de um conhecimento adquirido através de estudos e pesquisas dirigidas ou sistematizadas. É entendido por ele, também, como "revelação" (At 20.23; Ef 1.16-17). Para Chown (Ibid., p. 25): "A palavra do conhecimento consiste numa revelação que penetra a mente humana como um relâmpago. Seu teor excede as limitações do conhecimento ou da imaginação do homem. [...] Foi pela palavra de conhecimento que Jesus soube que Natanael meditava sob a figueira, e que se tratava de um homem sem dolo e sem malícia (Jo 1.47,48)".

O pastor Antonio Gilberto, comentando a lição bíblica do 2º Trimestre de 2009, afirma que em Eliseu e Aías operava o dom da palavra da ciência, ambos personagens do Antigo Testamento, o que reforça mais uma vez a ideia de que este dom operou antes do batismo com o Espírito Santo (At 2):

"Ele, porém, entrou e se pôs diante de seu senhor. Perguntou-lhe Eliseu: Donde vens, Geazi? Respondeu ele: Teu servo não foi a parte alguma. Porém ele lhe disse: Porventura, não fui contigo em espírito quando aquele homem voltou do seu carro, a encontrar-te? Era isto ocasião para tomares prata e para tomares vestes, olivais e vinhas, ovelhas e bois, servos e servas?" (2 Rs 5.25, 26, ARA)

"Respondeu um dos seus servos: Ninguém, ó rei, meu senhor; mas o profeta Eliseu, que está em Israel, faz saber ao rei de Israel as palavras que falas na tua câmara de dormir." (2 Rs 6.12, ARA)

"A mulher de Jeroboão assim o fez; levantou-se, foi a Siló e entrou na casa de Aías; Aías já não podia ver, porque os seus olhos já se tinham escurecido, por causa da sua velhice. Porém o SENHOR disse a Aías: Eis que a mulher de Jeroboão vem consultar-te sobre seu filho, que está doente. Assim e assim lhe falarás, porque, ao entrar, fingirá ser outra. Ouvindo Aías o ruído de seus pés, quando ela entrava pela porta, disse: Entra, mulher de Jeroboão; por que finges assim? Pois estou encarregado de te dizer duras novas." (1 Rs 14.4-6)

Chown (Ibid., p. 29-30), também reconhece a operação deste dom no Antigo Testamento. Cita como exemplo de sua operação no Novo Testamento os textos de João 4.17,18,29; Atos 5.3-4; 9.11-12.

Para Conde (Ibid., p.103-104), a substituição da palavra da ciência pela ciência humana é a razão da falta de progresso em muitas igrejas evangélicas. O desprezo e o combate contra o batismo com o Espírito Santo, e a rejeição da manifestação dos dons espirituais estagnam o crescimento da igreja. Embora haja valor nos dons naturais, no conhecimento adquirido através dos estudos, tal conhecimento só terá valor e atingirá o seu alvo, quando colocado no devido lugar. A igreja necessita mais dos dons do Espírito do que dons naturais, diz Conde.

Os Discernimentos de espíritos

"Trata-se de uma dotação especial dada pelo Espírito, para o portador do dom de discernir e julgar corretamente as profecias e distinguir se uma mensagem provém do Espírito Santo ou não [...]. No fim dos tempos, quando os falsos mestres (ver Mt 24.5 nota) e a distorção do cristianismo bíblico aumentarão muito (ver 1 Tm 4.1 nota), esse dom espiritual será extremamente importante para a igreja." (Bíblia de Estudo Pentecostal, ibid., p. 1757)

Embora a versão de Almeida Revista e Corrigida traduza por "discernir", no texto grego o termo está no plural (diakriseis, discernimentos).

Horton (Ibid., p. 300), também o entende como diretametne relacionado ao julgamento de profecias (1 Co 14.9). Discernimento, significa formar um juízo, e envolve uma percepção que é outorgada de modo sobrenatural, para diferenciar entre os espíritos, bons e maus, genuínos ou falsos, a fim de chegarmos a uma conclusão (1 Jo 4.1). Assim como os demais dons, é apropriado para circunstâncias e situações específicas (At 5.3; 8.20-23; 13.10; 16.16-18).

Para Gilberto (Ibid.), é um dom de conhecimento e de revelação sobrenaturais do Espírito Santo: "é um dom de proteção divina para não sermos enganados e prejudicados por Satanás e seus demônios, e também pelos homens. [...] Líderes em geral - inclusive de música -, pastores, evangelistas, mestres, precisam muito deste dom para não serem enganados."

Conforme Souza (Ibid., p. 151), este dom é uma habilitação sobrenatural que permite identificar a natureza e o caráter dos espíritos, tendo em vista que existe o Espírito Santo, o espírito humano e os espíritos demoníacos. Ele destaca ainda que não se trata de habilidade para descobrir as faltas alheias, fazer leitura de pensamentos, de fenômeno espiritista (ou mediúnicos), nem se relaciona com a psicologia. Para Gee (Ibid. p. 63), não deve ser confundido com a forma natural de criticar, notar defeitos nos outros, nem com a habilidade penetrante de discenir a natureza humana.

Silva (Ibid., p. 88), concorda com Souza ao declarar que não se trata de técnica, perícia ou psicologia humana, mas sim de uma atuação direta do Espírito Santo na mente do homem, habilitando-o com uma espécie de "psicologia divina" que lhe capacita distinguir as manifestações vindas de Deus das procedentes de espíritos demoníacos. Chown (Ibid., p. 46), confirma este pensamento e nos diz que este dom não pode ser confundido com a perícia psicológica, com a capacidade de analisar caráter, nem com a facilidade de descobrir falhas em nosso semelhantes. Silva adverte ainda que há muitos indivíduos dotados de poderes espirituais e psíquicos que não pertencem ao Reino de Deus. Mais uma vez Silva se reporta ao Antigo Testamento para identificar a manifestação deste dom na vida de alguns personagens (Ibid., p. 89-90). Aliando-se ao pensamento de Gilberto, Silva entende que na igreja, este dom deve ser desenvolvido especialmente na esfera ministerial (liderança). Gee (Ibid. p. 65), declara o mesmo: "[...] mas o dom espiritual de discernir é de maior valor ainda para o crente nos domínios espirituais, especialmente para os crentes responsáveis pelo governo das igrejas."

Conde (Ibid. p. 111), declara que: "O crente que possui esse dom, conhece, por meio de um simples olhar, os espíritos enganadores, os enedemoninhados, os falsos, os fingidos; sabe distinguir entre o falso e o verdadeiro, entre o ouro puro e o simples metal". Para ele, assim como no caso dos demais dons aqui listados, é preciso o batismo com o Espírito Santo para a sua manifestação, posição não unânime no meio pentecostal clássico.

Chown (Ibid., p. 45), entende que por este dom, o Espírito revela a fonte de qualquer demonstração de poder e de sabedoria sobrenaturais (Mt 24.5, 11; 2 Ts 2.8-10; 1 Tm 4.1; Ap 16.14). Este dom coopera também no discernimento da causa ou origem de doenças físicas ou mentais (Mt 4.24; 12.22; Mc 5. 1-9; 9.25; At 10.38).

Conclusão

A similaridade na abordagem pentecostal teórica e prática sobre os dons de revelação ou saber, faz com que em boa parte dos casos ou situações pairem dúvidas sobre qual deles está se manifestando e operando.

Referências Bibliográficas


BERGSTÉN, Eurico. Introdução à Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.

Bíblia de Estudo Almeida. 
Revista e Atualizada. Barueir, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006.

Bíblia de Estudo Pentecostal.
 Traduzida em português por João Ferreira de Almeida, com referências e algumas variantes. Revista e Corrigida, Edição de 1995, Flórida-EUA: CPAD, 1999.

Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico e Grego. Texto bíblico Almeida Revista e Corrigida, 4ª ed., 2009. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.

CONDE, Emílio. Pentecoste para todos. 6ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1985.

CHOWN, Gordon. Os dons do Espírito Santo. São Paulo: Vida, 2002.
GEE, Donald. Acerca dos dons espirituais. 5ª ed. Pindamonhangaba, SP: IBAD, 1985.
GILBERTO, Antonio. Verdades pentecostais. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
HORTON, Stanley M. O que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo. 5ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.

Novo Testamento Interlinear grego-português
. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2004.

SILVA, Severino Pedro. A Existência e a pessoa do Espírito Santo. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.

SOUZA, Estevam Ângelo de. Nos domínios do Espírito. 4ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1998.