terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O CALVINISMO E A SUA ATUAL INFLUÊNCIA NO PENTECOSTALISMO ASSEMBLEIANO BRASILEIRO

Ao longo da História da Igreja alguns esquemas teológicos foram elaborados com o propósito de sistematizar e preservar a sã doutrina, defendendo-a assim das heresias.

Em se tratando da doutrina da salvação, dois arcabouços teológicos ganham destaque: o arminianismo e o calvinismo. O calvinismo é a tradição teológica da qual o reformador protestante João Calvino (1509-1564) é o proponente mais famoso. Já o arminianismo clássico é oriundo do movimento de oposição à perspectiva de salvação dos reformados calvinistas, que foi iniciado pelo teólogo e pastor Holandês Jacó Armínio (1569-1609).

A doutrina da salvação adotada pelas Assembleias de Deus no Brasil e pelas Igrejas Batistas é basicamente arminiana. O calvinismo é adotado principalmente pelas Igrejas Presbiterianas e Congregacionais.

Nos últimos anos a teologia reformada calvinista ganhou espaço e notoriedade no cenário nacional. Destaco particularmente, dentre tantas, as seguintes razões:

- A Publicação de excelentes livros no campo da teologia em geral (é importante salientar que em vários pontos a teologia reformada calvinista concorda com outros sistemas teológicos)

- A Publicação de diversos livros propagando a teologia reformada calvinista

- A Organização de eventos de grande impacto e público com a participação de teólogos e pastores reformados calvinistas

- A relevância nacional das instituições de ensino superior e teológico das igrejas reformadas

- A propagação do calvinismo nas redes sociais e internet em geral

- O surgimento no Brasil de excelentes expositores da Palavra dentre as igrejas reformadas calvinistas

- A falta de posicionamento da liderança pentecostal assembleiana nacional em relação à teologia reformada calvinista

- A falta de conhecimento entre os pentecostais assembleianos dos fundamentos da teologia arminiana

- A falta de publicação e escassez de obras com conteúdo teológico arminiano

Diante dos fatos aqui exposto, em se tratando da doutrina da salvação (soteriologia), obreiros e irmãos pentecostais assembleianos estão absorvendo e adotando a teologia calvinista. Diversos deles já me confessaram isso pessoalmente, enquanto outros passaram a congregar em igrejas reformadas.

Os órgãos oficiais das Assembleias de Deus no Brasil, juntamente com a liderança nacional e regional da igreja, precisam dar uma resposta diante do atual cenário, para que a razão de ser de nosso sistema doutrinário e teológico seja amplamente conhecido de todos os membros e congregados da denominação.

Em suas publicações literárias, nas Escolas Bíblicas de Obreiros e Jovens, na Escola Bíblica Dominical, nos cultos de ensino regulares, nas Escolas Teológicas, em todos os demais eventos e espaços educativos, nas redes sociais, blogs e sites, o conteúdo e os fundamentos da nossa teologia da salvação precisam ser difundidos.


Tenhamos cuidado com os ventos de doutrina, e sigamos a verdade em amor (Ef 4.11-16).

Altair Germano – Pastor, teólogo, pedagogo, escritor e conferencista. Atualmente é o 1º Vice-Presidente da Assembleia de Deus em Abreu e Lima-PE (COMADALPE), Vice-Presidente do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – CGADB.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

WORKSHOP SOBRE LIDERANÇA NA AD EM CAMPINA GRANDE-PB


A GRAÇA PREVENIENTE NA TEOLOGIA ARMINIANA E WESLEYANA

Diversas denominações evangélicas no Brasil não são adeptas da teologia reformada calvinista no que diz respeito ao entendimento da doutrina da salvação. A soteriologia de tais denominações reproduz ou se aproxima da teologia arminiana clássica e da teologia wesleyana.

O calvinismo é a tradição teológica da qual o reformador protestante João Calvino (1509-1564) é o proponente mais famoso.[1] Já o arminianismo clássico é oriundo do movimento de oposição à perspectiva de salvação dos reformados calvinistas, que foi iniciado pelo teólogo e pastor Holandês Jacó Armínio (1569-1609).[2]

A tradição reformada calvinista e a tradição reformada arminiana clássica possuem diversos pontos em comum no campo teológico, mas divergem consideravelmente acerca da doutrina da salvação, chegando nesse aspecto ao nível da incompatibilidade. Neste artigo daremos ênfase nas diferentes perspectivas de como a graça de Deus age sobre a vida do perdido pecador.

Arminianos clássicos e calvinistas concordam no fato de que o pecado afetou todos os aspectos da personalidade humana, inclinando-nos à rebelião e ao mal, tornando-nos completamente indispostos a nos submeter a Deus à Sua boa, perfeita e agradável vontade. Estamos mortos em nossos delitos e pecados (Ef 2.1). Trata-se aqui da depravação total do homem caído.

As diferenças entre os arminianos clássicos e wesleyanos, dos pensadores calvinistas, surgem no entendimento de como Deus trata com os pecadores nessa condição. Do ponto de vista arminiano clássico:

[...] Deus estende graça suficiente para todas as pessoas através do Espírito Santo, para opor-se à influência do pecado e capacitar uma resposta positiva a Deus (Jo 15.26-27; 16.7-11). A iniciativa aqui é inteiramente da parte de Deus; o papel do pecador é simplesmente responder em fé e grata obediência (Lc 15; Rm 5.6-8; Ef 2.4-5; Fp 2.12-13). Todavia, os pecadores podem resistir à iniciativa de Deus, e persistir no pecado e rebelião. Em outras palavras, a graça de Deus capacita e encoraja uma resposta positiva e salvífica para todas as pessoas, mas ela não determina uma resposta salvífica para ninguém (At 7.51). Além disso, uma resposta positiva inicial de fé e obediência não garante a salvação final de alguém. É possível iniciar um relacionamento genuíno com Deus, mas então, posteriormente, se afastar Dele, e persistir no mal de sorte que a pessoa, por fim, se perca (Rm 8.12-13; 11.19-22; Gl 5.21; 6.7-10; Hb 6.1-8; Ap 2.2-7).[3]

Passaremos a observa como Armínio e Wesley lidaram com a graça preveniente.

A GRAÇA PREVENIENTE NA TEOLOGIA DE ARMÍNIO

O posicionamento de Armínio sobre a graça preveniente foi registrado em sua Declaração de Sentimentos:

Eu atribuo à graça o começo, a continuidade e a consumação de todo bem, e a tal ponto eu estendo sua influência, que um homem, embora regenerado, de forma nenhuma pode conceber, desejar, nem fazer qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem esta graça preveniente e estimulante, seguinte e cooperante. Desta declaração claramente parecerá que, de maneira nenhuma, eu faço injustiça à graça, atribuindo, como é dito de mim, demais ao livre-arbítrio do homem. Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta questão, “a graça de Deus é uma certa força irresistível”? Isto é, a controvérsia não diz respeito àquelas ações ou operações que possam ser atribuídas à graça, (pois eu reconheço e ensino muitas destas ações ou operações quanto qualquer um) mas ela diz respeito unicamente ao modo de operação, se ela é irresistível ou não. Em se tratando dessa questão, creio, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que é oferecida.[4]

Para Armínio, a salvação pessoal é um ato da iniciativa da graça de Deus, mas que não é irresistível.

Após a morte de Armínio, quarenta e seis ministros holandeses elaboraram um documento chamado de “Remonstrância” (protesto), onde reafirmaram os conceitos de Armínio. Em seu Artigo III, enfatizando a depravação total do homem afirma:

Que o homem não possui por si mesmo graça salvadora, nem as obras de sua própria vontade, de modo que, em seu estado de apostasia e pecado para si mesmo e por si mesmo, não pode pensar nada que seja bom – nada, a saber, que seja verdadeiramente bom, tal como a fé que salva antes de qualquer outra coisa. Mas que é necessário que, por Deus em Cristo e através de seu Santo Espírito, seja gerado de novo e renovado em entendimento, afeições e vontade e em todas as suas faculdades, para que seja capacitado a entender, pensar, querer e praticar o que é verdadeiramente bom, segundo a Palavra de Deus [Jo 15.5].[5]

Sobre a possibilidade da graça preveniente ser resistida, foi escrito no Artigo IV do mesmo documento que:

Que esta graça de Deus é o começo, a continuação e o fim de todo o bem; de modo que nem mesmo o homem regenerado pode pensar, querer ou praticar qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação para o mal sem a graça precedente (ou preveniente) que desperta, assiste e coopera. De modo que todas as obras boas e todos os movimentos para o bem, que podem ser concebidos em pensamento, devem ser atribuídos à graça de Deus em Cristo. Mas, quanto ao modo de operação, a graça não é irresistível, porque está escrito de muitos que eles resistiram ao Espírito Santo.[6]

O pensamento de Armínio reverberou ao longo dos anos encontrando guarida em diversos arcabouços teológicos.

A GRAÇA PREVENIENTE NA TEOLOGIA DE WESLEY

John Wesley (1703-1791), o grande teólogo e pregador inglês, pai do metodismo, movimento que influenciou o surgimento do pentecostalismo clássico, entendia a salvação do homem nos moldes do arminianismo clássico:

A graça opera diante de nós para nos atrair em direção à fé, para iniciar sua obra em nós. Até mesmo a primeira e frágil intuição da convicção do pecado, a primeira insinuação de nossa necessidade de Deus, é a obra da graça preparadora e antecedente à beira do nosso desejo, trazendo-nos em tempo de afligirmo-nos sobre nossas próprias injustiças, desafiando nossas disposições perversas, de modo que nossas vontades distorcidas gradualmente cessam de resistir ao dom de Deus.[7]

Sobre o estado de depravação humana Wesley comenta:

O homem, por natureza, é repleto de todo o tipo de maldade? É vazio de todo o bem? É totalmente caído? Sua alma está totalmente corrompida? Ou, para fazer o teste ao contrário, “toda imaginação dos pensamentos de seu coração [é] só má continuamente”? Admita isso, e até aqui você é um cristão. Negue isso, e você ainda é um pagão.[8]

Em seu sermão “O caminho para o Reino”, diz: Você é corrompido em cada poder, em cada faculdade de sua alma, por ser corrompido em cada um desses aspectos, toda fundação do seu ser está fora de curso.[9] Em outro sermão intitulado “A Falsidade do Coração Humano” enfatiza que: “No coração de todo filho de homem há um fundo inexaurível de maldade e injustiça, enraizado de forma tão profunda e firme na alma que nada, a não ser a graça toda-poderosa, pode curar isso.[10]

Diversos estudiosos da teologia de John Wesley reafirmaram o seu pensamento soteriológico arminiano clássico:

Em termos de contribuições mais modernas, George Croft Cell, no início do século XX, sustentou que Wesley, na verdade, “planta seus pés igualmente nas pegadas deixadas por Paulo, Agostinho, Lutero e Calvino”. Willian Cannon, fazendo uma declaração semelhante, afirma que Wesley, o teólogo arminianista, “percorre todo o caminho com Calvino, com Lutero e com Agostinho em sua insistência de que o homem é, por natureza, totalmente destituído de justiça e está sujeito ao julgamento e à ira de Deus” [...].[11]

As conclusões que se podem obter, conforme Richard Taylor, é que:

Jacó Armínio e John Wesley eram totalmente agostinianos nos seguintes aspectos: (a) a raça humana é universalmente depravada como resultado do pecado de Adão; (b) a capacidade do homem de querer o bem está tão debilitada que requer a ação da graça divina para que possa alterar seu curso e ser salvo.[12]

No que diz respeito ao entendimento sobre a operação da graça na vida do homem perdido e morto em seus delitos e pecados, assim como Armínio, Wesley diverge de Agostinho e dos reformistas do século XVI, defendendo que a graça preveniente, fundamentada na obra salvífica de Jesus Cristo, opera na restauração do livre-arbítrio, de maneira sobrenatural, pelo Espírito Santo, em todas as pessoas; as quais, à parte dessa restauração, do ponto de vista soteriológico, não são livres. Dessa forma, Wesley se afasta tanto do semipelagianismo católico romano que nega a total depravação humana, quanto do determinismo de Wittenberg e Genebra que elimina a responsabilidade moral do homem na aceitação ou na rejeição da oferta de salvação mediante a graça preveniente.[13]

Sobre a ideia de graça irresistível, Wesley não defende tal realidade no que se refere aos aspectos do chamado ou oferta para a salvação, mas ao restabelecimento das faculdades humanas que estabelecem o equilíbrio e responsabilidade individuais:

Mais uma vez, a graça preveniente não é irresistível no sentido de que a personalidade é aniquilada nem de que já existe um “eu” responsável viável que apenas é suprido com as faculdades. Antes, essa graça é necessária, na verdade, é imprescindível no melhor sentido do termo “antecedência” a fim de produzir no ser um “eu” responsável, em parte, precisamente pela restauração das faculdades. Simplificando, o princípio do processo da salvação não requer a graça cooperante (a essa altura, uma impossibilidade total), mas a graça livre, a atividade apenas de Deus.[14]

CONCLUSÃO

Torna-se assim evidente, que a doutrina da graça preveniente de Armínio e Wesley concorda com a concepção de depravação total e salvação somente pela graça, conforme Lutero e Calvino, mas discorda no sentido de que Deus predestinou poucos homens para a salvação, deixando a maior parte da humanidade na condenação do inferno eterno, de que a graça salvadora é irresistível, e que é direcionada apenas aos eleitos:

A eleição de Deus é um ato incondicional da graça livre, dada por meio de seu filho Jesus, antes de o mundo existir. Por meio deste ato, Deus escolheu, antes da fundação do mundo, aqueles que seriam libertos da escravidão ao pecado e levados ao arrependimento e à fé salvadora em Jesus.[15]

Sobre a ideia da graça irresistível na teologia reformada calvinista, lemos:

Isto significa que a resistência que todos os seres humanos exercem cada dia contra Deus (Rm 3.10-12, At 7.51) é vencida maravilhosamente, no tempo próprio, pela graça salvadora de Deus, em favor de rebeldes indignos, os quais ele escolhe salvar espontaneamente. [16]

Na perspectiva calvinista, para tornar a graça irresistível, Deus age mudando a nossa vontade, sem necessariamente agir contra a nossa vontade.[17] Com certeza, um argumento insustentável à luz da doutrina bíblica da salvação, e da responsabilidade moral do homem enquanto um ser livre.

O conhecido apelo evangelístico que diz “dê um passo para Deus que Ele dará dois em sua direção”, não se sustenta à luz do arminianismo clássico e do pensamente wesleyano. Tal apelo é norteado pelo arminianismo de cabeça[18] e arminianismo contemporâneo[19], que são essencialmente semipelagianos, e que acreditam que o homem não se encontra no estado de depravação total, podendo de alguma maneira tomar a iniciativa de buscar a Deus e de conseguir a sua salvação pessoal.

É também infundada e falsa a acusação calvinista de que o arminianismo clássico defende a ideia de que o homem após a queda não se tornou totalmente depravado, de que pode escolher o bem espiritual, e de exercer fé em Deus de maneira a receber o evangelho e assim tomar posse da salvação para si mesmo.[20]

Toda salvação pessoal é resultado da iniciativa graciosa de Deus, que abre o entendimento humano para a verdade do Evangelho, e que afrouxa as rédeas do poder do pecado. Somente a operação da graça preveniente torna o homem capaz de crer e aceitar o dom gratuito de Deus, que é a vida eterna em Cristo Jesus (Ef 2.1-10), ou de livremente rejeitá-lo, tornando-se assim moralmente responsável por tais decisões.

Altair Germano – Pastor, teólogo, pedagogo, escritor e conferencista. Atualmente é o 1º Vice-Presidente da Assembleia de Deus em Abreu e Lima-PE (COMADALPE), Vice-Presidente do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – CGADB.



[1] WALLS, Jerry; DONGELL. Por que não sou calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014, p. 12.
[2] OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p.
[3] WALLS, Jerry L.; DONGEL, Joseph R. Ibid., p. 14.
[4] ARMINIUS, A Declaration of Sentiments, Works. V. 1, p. 664 apud OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 210.
[5] Cinco Artigos da Remonstrância. Wikipédia.org, acesso em 26/01/2015.
[6] Ibid.
[7] Oden, Thomas C. John Wesley´s Scriptural Christianity. Grand Rapids: Zondervan, 1994, p. 246 apud OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 219.
[8] Outler, Sermons, p. 2:179 apud COLLINS, Kenneth J. Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 97.
[9] Ibid.
[10] Ibid.
[11] Ibid., p. 99.
[12] Ibid.
[13] Ibid., p. 105.
[14] Ibid., p. 109.
[15] PIPER, John. Cinco Pontos: em direção a uma experiência mais profunda da graça de Deus. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2014, p. 17.
[16] Ibid., p. 18
[17] Ibid., p. 39.
[18] O arminianismo de cabeça possui uma ênfase no livre-arbítrio que está alicerçada no iluminismo e é mais tarde comumente encontrado nos círculos protestantes liberais [...]. Sua marca característica é uma antropologia otimista que nega a depravação total e a absoluta necessidade de graça sobrenatural para a salvação. É otimista acerca da habilidade de seres humanos autônomos em exercerem uma boa vontade para Deus e seus semelhantes sem a graça preveniente (capacitadora, auxiliadora) sobrenatural, ou seja, é pelagiano ou no mínimo semipelagiano. (OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 23.)
[19] Talvez a fraqueza mais séria do arminianismo contemporâneo seja a sua visão de pecado Com muita frequência, os arminianos restringem o problema do pecado para a questão da culpa, amplamente entendido como uma (mera) sujeição a um julgamento futuro. O evangelismo arminiano, portanto, frequentemente foca unicamente na oferta de perdão para evitar essa ameaça, apresentando seu convite com a presunção de que a platéia goza de liberdade da vontade, julgamento relativamente equilibrado, e uma abertura para considerar, de maneira imparcial, a mensagem do Evangelho. Por conseguinte, o fator mais importante para determinar o grau de sucesso no evangelismo é o poder do evangelista, que em lógica, persuasão ou charme pessoal. Tal pensamento arminiano contemporâneo surgiu nas gerações subseqüentes a Wesley, e em especial no metodismo estadunidense. (WALLS, Jerry; DONGELL. Por que não sou calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014, p. 64.
[20] SEATON, W. J. Os cinco pontos do calvinismo. 3.ed. São Paulo: PES, 2012, p.4-5.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O MINISTÉRIO DE MESTRE NA BÍBLIA - REVISTA OBREIRO (CPAD)


Leia na Revista Obreiro (CPAD) artigo de nossa autoria intitulado "O Ministério de Mestre na Bíblia".

Trata-se de um texto expositivo e orientador para a vida daqueles que se percebem vocacionados para tão nobre ministério.



terça-feira, 20 de janeiro de 2015

AGENDA PESSOAL 2015


Para convites entrar em contato através dos fones (81) 9232-0617 (TIM) e (81) 8541-4140 (Oi), ou pelo email altair.germano@gmail.com

domingo, 18 de janeiro de 2015

O LIVRE-ARBÍTRIO: PERSPECTIVA CALVINISTA E ARMINIANA

O que é o livre-arbítrio? O ser humano tem plena liberdade de escolha e responsabilidade moral por seus atos? O poder de escolher o que é bom foi perdido de forma plena e absoluta com a queda do homem? O homem caído pode crer e se arrepender de seus pecados sem que Deus mude a sua vontade? A Teologia Calvinista diverge da Teologia Arminiana em alguns desses pontos.

O QUE É O LIVRE-ARBÍTRIO

O teólogo calvinista/reformado R.C. Sproul, com base em alguns pensadores cristãos, como o caso de Jonathan Edwards, afirma que duas definições sobre livre-arbítrio precisam ser consideradas: “Livre-arbítrio é a escolha da mente, e a capacidade de escolher o que queremos. Ter livre-arbítrio é ser capaz de escolher de acordo com nossos desejos”.[1]

Os nossos desejos promovem a motivação ou a razão para se tomar uma decisão. Nossas Escolhas são determinadas por nossos desejos. Isso pode ser definido como autodeterminação que é a essência da liberdade.[2]

Como somos criaturas com muitos e diversos desejos, nossas motivações podem gerar conflitos interiores (Rm 7.14-25).[3]

Mesmo quando somos coagidos a agir, como no caso do roubo a mão armada, nossa escolha é livre. Sempre escolhemos o que queremos. Somos livres e autodeterminados. As forças externas podem limitar nossas opções de escolhas, mas não podem destruir completamente a escolha.[4]

Desejos justos produzem escolhas justas e maus desejos resultam em escolhas más.[5]

Os eruditos cristãos a partir do 2º século definiram o livre-arbítrio como: “A capacidade de escolher todas as opções morais que uma situação oferece.”[6]

Norman Geisler, teólogo americano, afirma que o poder da livre-escolha moral nos concede a capacidade tanto de escolher o bem que Deus designou para nós quanto de rejeitá-lo. A origem do mal está no uso indevido da liberdade.[7]

Deus fez o fato da liberdade, enquanto nós somos responsáveis pelos atos da liberdade.[8]

Conforme Bruce Reichenbach, dizer que uma pessoa é livre é a mesma coisa que declarar que, diante de determinadas situações, tal pessoa poderia ter agido de maneira diferente daquela como agiu. Ela não teria sido compelida a agir assim por causas internas próprias (estrutura genética ou compulsões irresistíveis), nem externas (outra pessoa, Deus). O indivíduo é a condição suficiente para o curso da ação escolhido.[9]

Há dois tipos de evidência que sustentam o livre-arbítrio humano: A evidência universal introspectiva e a filosófica.[10]

- Evidência Universal Introspectiva: Sentimos que podemos tomar decisões. Tomar decisões só faz sentido se pudermos escolher entre duas ou mais opções, se pudermos agir de maneiras diferentes.

- Evidência Filosófica: As pessoas são essencialmente capazes de desempenhar atos que são certos ou errados (são chamados atos moralmente significativos), e tais pessoas são responsáveis moralmente por seus atos. Contudo, para que as pessoas possam ser responsabilizadas moralmente por suas ações, precisam ser capazes de agir livremente, tomando decisões diferentes.

A ARGUMENTAÇÃO CALVINISTA/REFORMADA SOBRE O LIVRE-ARBÍTRIO

A Teologia Reformada sustenta a ideia de que o homem caído ficou impossibilitado de desejar e fazer o bem.

Na Confissão de Fé de Westminster, a última das confissões formuladas durante o período da Reforma, em Londres, entre julho de 1643 e fevereiro de 1649, lemos:

O homem, ao cair no estado de pecado, perdeu inteiramente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de sorte que um homem natural, inteiramente avesso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso (Rm 3.9, 10, 12, 23; 5.6; 8.7,8; Jo 6.44, 65; 15.5; Ef 2.1, 5; Cl 2.13; 1 Co 2.14; Tt 3.3-5).[11]

Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta de sua natural escravidão ao pecado e, somente por sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção ainda existente nele, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau (Cl 1.13; Jo 8. 34, 36; Fp 2.13; Rm 6.18, 22; Gl 5.17; Rm 7.15.21-23; 1 Jo 1.8, 10)[12]

Alinhado ao pensamento calvinista/reformado, Sproul afirma:

Antes de escolhermos Cristo, precisamos primeiro ter um desejo por Cristo [...]. O homem decaído, em si mesmo e de si mesmo, tem um desejo natural para Cristo? Edwards responde a essa questão com um enfático “Não!” Ele insiste que, na queda, o homem perdeu seu desejo original por Deus. Quando ele perdeu esse desejo, alguma coisa aconteceu a sua liberdade. Ele perdeu a capacidade moral de escolher a Cristo. Ou ele tem esse desejo dentro dele, ou precisa receber esse desejo de Deus. Edwards e todos que abraçaram a visão reformada da predestinação concordam que, se Deus não plantar esse desejo no coração humano, ninguém, deixado a si mesmo, jamais escolherá Cristo. Os homens sempre e em todo o lugar rejeitarão Cristo porque eles não o desejam. Eles livremente rejeitarão Cristo porque eles não o desejam. Eles livremente rejeitarão Cristo no sentido de que sempre agirão de acordo com os seus desejos [...]. Não está dentro da capacidade natural do homem decaído vir a Cristo por si próprio.[13]

Para Packer, o pecado original nos tirou a capacidade de escolher todas as opções morais que uma situação oferece. Não temos capacidade natural de discernir e escolher os caminhos de Deus. Porque não temos inclinação natural em direção a Deus.[14]

A ARGUMENTAÇÃO ARMINIANA

O pensamento teológico arminiano percebe nas Escrituras o fato de que elas estão repletas de exemplos de decisões que pressupõem o livre-arbítrio do homem caído, e a possibilidade de decidir pelo bem, e isso sem precisar que Deus interfira mudando a sua vontade.

Como exemplo, pode-se citar o famoso discurso de Josué (Js 24.14-25), a exortação e os convites de Jesus (Mt 7.13-14; 11.28-30; 16.24-26) e o apelo de Pedro (At 2.37-40).

Como seríamos exortados e convidados a mudar de vida em relação a Deus, se não houvesse em nós a possibilidade do livre desejo por isso?

Norman Geisler argumenta de forma convincente que do começo ao fim da Bíblia nos é dito que os seres humanos possuem livre-escolha. Seres humanos caídos podem livremente aceitar o dom da salvação de Deus:[15]

Responderam-lhe: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa. (At 16.31)

Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; (At 17.30)

Os não salvos possuem livre-arbítrio tanto para receber quanto para rejeitar o dom da salvação que vem de Deus (Mt 23.37; Jo 1.12). A fé é um dom oferecido a todos, e todos têm a responsabilidade de crer, e quem quer que decida crer pode crer (Jo 3.16, 18; 6.37; Ap 22.17)

O pastor e teólogo pentecostal Antônio Gilberto escreve que:

Na Bíblia temos tanto a predestinação divina como a livre-escolha humana, em relação à salvação; mas não uma predestinação em que uns são destinados à vida eterna, e outros, à perdição eterna. Mas a Palavra de Deus não apresenta uma livre-escolha humana como se a salvação dependesse de obras, esforço e méritos humanos. Os extremos nesse assunto (e noutros) é que são maléficos, propalando ensinos que a Bíblia não contém. A ênfase inconsequente à soberania de Deus no tocante à salvação leva a pessoa a crer que a sua conduta e procedimento nada tem com a salvação. Por outro lado, a ênfase inconsequente à livre-vontade (livre-arbítrio) do homem conduz ao engano de uma salvação dependente de obras, conduta e obediência humana. [...] Na realidade, parece incoerente e incompreensível que algo predestinado por Deus admitida livre-escolha ou livre-vontade. Mas, só porque não entendemos algo, ou entendemo-lo apenas em parte, deixa de existir?[16]

Na questão que envolve a soberania de Deus e o livre-arbítrio, pensadores arminianos como Roger Olson afirmam que o arminianismo abraça a ideia de que Deus dirige as escolhas humanas ao fazê-las se encaixarem em seu plano mestre para a história.

A única coisa que o arminianismo rejeita nesta área específica, é que Deus controla todas as escolhas e ações humanas, ou seja, ele limita o seu próprio poder, pois fazendo assim permite ao homem que livremente o ame, que assuma as responsabilidades por seus erros morais, e que seja devidamente recompensado por suas decisões corretas à luz dos princípios éticos e da vontade de Deus revelada nas Escrituras Sagradas. Se Deus controlasse toda escolha e ação humana isto o faria autor do pecado e do mal.[17]

É importante lembrar que há algumas variantes do conceito de livre-arbítrio e da soberania de Deus entre arminianos e calvinistas, que não temos condições de tratar nessa breve e abordagem.

Olson ainda nos lembra que o tema condutor do arminianismo não é a crença no livre-arbítrio, mas o compromisso com certa visão da bondade de Deus; qualquer leitura imparcial de Armínio ou de qualquer um de seus seguidores revelará que este é o caso.[18]

Sobre isso, Wall e Dongel afirmam que:

Embora concordemos que parte da disputa gire em torno do assunto da soberania e liberdade humana, argumentamos que a verdadeira e principal disputa não seja acerca de poder, mas, antes, sobre o caráter de Deus.[19]

O arminianismo, diferente do calvinismo, nos apresenta a figura do Deus bíblico de maneira mais adequada, pois preserva a realidade de um Deus cuja natureza é o amor santo, e que concede o livre-arbítrio ao ser humano para que uma relação de amor recíproco entre criador e criatura seja possível. [20]

Para um maior entendimento sobre a questão do livre-arbítrio humano no contexto do calvinismo e arminianismo, favor consultar as obras aqui citadas.

Altair Germano – Pastor, teólogo, pedagogo, escritor e conferencista. Atualmente é o 1º Vice-Presidente da Assembleia de Deus em Abreu e Lima-PE (COMADALPE), Vice-Presidente do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – CGADB, e membro da Diretoria da Assembleia Administrativa da Sociedade Bíblica do Brasil –SBB.




[1] SPROUL, R. C. Eleitos de Deus. 3. Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 41.
[2] Ibid., p. 43
[3] Ibid., p. 44-45..
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6][6] PACKER, J. I. Teologia Concisa. 2. Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 79.
[7] GEISLER, Norman. Eleitos, mas livres. 2. Ed. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 24.
[8] Ibid.
[9] BASSINGER, David (Org.). Predestinação e Livre-Arbítrio. 2. Ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1996, p. 130-131.
[10] Ibid., 132.
[11] Confissão de Fé de Westminster. 18. Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 88-89.
[12] Ibid., p. 90.
[13] SPROUL, R. C. Ibid., p. 46, 47 e 51.
[14] PACKER, J. I. Ibid., p. 80.
[15] GEISLER, Norman. Ibid., p. 37.
[16] GILBETO, Antônio et al. Teologia Sistemática Pentecostal. 2. Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 368-369.
[17] OLSON, Roger. Teologia Arminiana. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013, p. 127.
[18] Ibid., p. 131.
[19] WALLS, Jerry L.; DONGEL, Joseph R. Por que não sou calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014, p. 11.
[20] Ibid., p. 12.